terça-feira, 4 de abril de 2017

Serviço Militar Obrigatório ou SOC/Serviço Militar Cidadão (texto partilhado)

Texto de Jorge CG
LOGROS EM QUE CERTAS ESQUERDAS CAEM QUE NEM ‘PATINHOS’

Não sei se terei espaço (e paciência hoje) para aprofundar o tema, uma vez que os próprios exemplos dariam já por si um ‘artigo’ extenso [a propósito: isto é mesmo um artigo e não um ‘post facebookiano’, portanto adverte-se que é longo e sem soundbytes…].
O que me motivou escrevê-lo foi essa tremenda confusão sobre a questão do Serviço Militar Obrigatório, a que muito boa gente reage com uma inocência primária e ideologicamente contaminada pelo apregoado “neoliberalismo” (em realidade transformado no mais puro tecnofascismo), julgando que está a ser “pacifista” ou a defender “direitos de liberdade”. Compreende-se a confusão por falta de esclarecimento e o exercício de pensar bem nas coisas, com profundidade. Ou estar atento, como nos alerta Chomsky, para não ficar por aquilo que nos dizem, mas perceber do que nos querem convencer… Razão porque – para grande escândalo na época, há mais de 30 anos – o exímio linguista e não menos exímio pensador advertia que é mais ‘fácil’ detectar a verdade (ou pelo menos perceber onde está a mentira) numa sociedade totalitária do que numa sociedade dita democrática. É que enquanto nesta “acreditamos” que aquilo que nos transmitem é informação de factos (sendo a mais pura manipulação e muitas vezes completa mentira), nas ditaduras não estamos à espera de que nos digam a “verdade” e procuramos interpretar o que a mentira dita quer mesmo dizer…
A este propósito faço um parêntesis para explicar uma crítica que me é (injusta, mas compreensivelmente) feita: a de que sou muito crítico com as esquerdas. É parecido. É que das direitas já estou à espera que seja o que é, das esquerdas é que surpreendem (e às vezes indignam) certas coisas. Ou mesmo o que me parece uma completa contaminação do “grande buraco negro ideológico”, felicíssima expressão de Júlio do Carmo Gomes no texto que estou a interpretar no Pinguim (Porto) até esta quarta-feira.
Antes de mais nada: a discussão e eventual recuperação do Serviço Militar Obrigatório (a que prefiro chamar Serviço Militar Cidadão e já explico porquê) não representa como se apregoa “um retrocesso”. Esse é, desde logo, o primeiro logro, semântico. É uma trapaça lexical que é a irmã gémea de chamar “reformas estruturais” à destruição de serviços básicos do Estado em proveito de privados; ou falar de “privilégios” quando se quer simplesmente retirar direitos aos trabalhadores; ou considerar que a defesa de valores que a Humanidade construiu durante milénios é “conservadorismo”. Esta capacidade das extremas-direitas do capitalismo especulativo e financeiro em se apropriarem de conceitos criados com um sentido e logo usados noutro, espelha-se sem margem para dúvidas, para quem esteja atento, na célebre frase do Maio de 68 “é proibido proibir”, que na altura seria tomada para quem a repetia como um grito reclamando a transformação de uma sociedade muito fechada em moralismos numa sociedade de respeito pelas opções pessoais e individuais de liberdade. Mas que hoje serve de capa para ocultar a predação sem limites de todo o tipo de falta de ética na política, no trabalho, no comportamento social, na responsabilidade individual dos actos privados, da sobreposição de um “eu pós-moderno” ao “nós colectivo” contido no “eu moderno” do século XIX e que, provavelmente, no Maio de 68, se queria reforçar em função de novas realidades.
No caso do SMC (Serviço Militar de Cidadania), desde que salvaguarda a garantia das VERDADEIRAS (não oportunistas) objecções de consciência com um veredicto que inclua o mesmo tipo de objecção extensível a outros campos, como até já nalguns casos era antes da profissionalização das FFAA, defendo sem margem de hesitação o SMC (Serviço Militar Cidadão), a que dou este nome por devolver à população um dos instrumentos principais de garante de soberania do país e de salvaguarda de oligarquias ou plutocracias, garantes de cidadania portanto. De forma exemplificativa e muito simples, passo a evocar que, por exemplo, sem um SMP (Serviço Militar Profissional) nunca teria sido possível que a Anaconda e a ITT promovessem – pelo menos com tal ferocidade e facilidade – o golpe de Pinochet contra Salvador Allende; da mesmíssima forma que a inexistência de um (então sim) SMO em Portugal nunca teria proporcionado – pelo menos nos termos em que permitiu rapidamente politizar uma revindicação corporativa de capitães – o derrube da ditadura em 25 de Abril. Ou, apenas para ajuntar, na mesma lógica, Videla na Argentina, Coronéis no Brasil ou Estados Unidos no Vietnam versus militares no Peru, queda do negus da Abissínia ou de Ceausescu na Roménia.
A ideia associada às FFAA como elemento repressivo do capital não é, de facto, em geral abstracto, um erro. Trata-se de um dos instrumentos do aparelho de Estado para reprimir e garantir a manutenção do Poder, em função da sua natureza. Porém, onde o SMO deu lugar ao SMP a questão, mesmo sem os extremos dos exemplos invocados, permite que o primeiro seja, pelo menos, um “regularizador”, um “moderador” nas tentativas mais “duras”. Este facto, comprovado historicamente como tendencialmente abrangente, torna-se ainda mais relevante quando o tecnofascismo fica cada vez mais com o “controlo quase a 100%” de todos os instrumentos de soberania nas mãos.
Salvaguardar, como se disse, a verdadeira objecção de consciência não deve ser confundido nem com o oportunismo de fugir às responsabilidades sociais para com a colectividade, nem, no inverso, com uma oposição a um SMC. Os verdadeiros objectores de consciência, para lá de limitações óbvias como o direito ao uso e porte de arma, à penalização suplementar a penas derivadas do exercício da violência física, a interdição a integrar profissões similares às FFAA (polícias, segurança privada, etc.), deveriam prestar um outro serviço cívico (A SÉRIO) de interesse colectivo, sem que tal constituísse uma forma de diminuição de postos de trabalho. Por exemplo: integração em operações de resgate civil na Marinha, nos Serviços de Emergência Médica em Pandemias ou Epidemias, prevenção e combate aos fogos florestais, operações de resgate de pessoas e animais em perigo, acompanhamento de doentes sem autonomia e/ou em apoio solidário quando em estado terminal, detecção de casos de violação de direitos humanos em instituições de menores, apoio social de acompanhamento à terceira idade em habitações solitárias, 'batalhões' de vigilância e denúncia de violência doméstica encoberta, integração na APAV… Etc..
Assim, não há-de ser muito difícil perceber – se se substituírem chavões ou pretextos para fugir à responsabilidade colectiva – que um SMC ou mesmo SMO (com a tal salvaguarda antes citada) é uma imperiosa necessidade de garante da soberania nacional, como o é o de poder ter um banco emissor, por exemplo. Deixar nas mãos o “poder de fogo” de um SMP é muito idêntico a permitir que o Orçamento de Estado tenha de ser aprovado pela Comissão Europeia ou que a resolução de situações financeiras como se colocam, mormente na banca, dependam da “concordância” do Banco Central Europeu.
Este logro em que caem certas esquerdas é o mesmo em que se cai facilmente ao passar a discussão da “crise venezuelana” para o formalismo da “violação constitucional” das medidas de Maduro. Sem defender, nem atacar Maduro e muito menos me poder pronunciar sustentadamente (por desconhecimento) sobre de que lado estão “razões” na Venezuela efectivamente dividida, o que me parece carecer de discussão prioritária é saber o que, de fundo – política e economicamente E PORQUÊ – está em causa. A questão formal da “violação constitucional” para tomar partido levaria a também a ter de condenar a “violação constitucional” que o MFA fez em 25 de Abril de 1974, que os bolcheviques fizeram em 1917, que se deu na Implantação da República em vários países, mesmo a da Independência de Colónias que eram território francês, inglês ou outro qualquer, a Declaração da Independência dos Estados Unidos, quiçá a Revolta de Spartacus ou a subversão da Lei Mosaica por Jesus Cristo! Ou que com a mesma leveza se se recusa, em nome de restrições às liberdades em Cuba, integrar uma Comissão de deslocação de Estado a Havana, mas se senta (para combater, que seja), no Parlamento Europeu, onde se aprovam medidas de restrição às liberdades nacionais das Nações, que quer dizer a autonomia de decisão dos seus próprios povos. Ou como se pretende justificar tal pureza de princípios com um conceito vago (“burguês” se diria antigamente) de liberdade, mas não se modera a emoção para aplaudir de pé o obreiro da morte do PREC e responsável principal pela nossa actual submissão à UE (leia-se Alemanha e França), amigo de Carlucci…. Etc….
Mas fiquemos por aqui, até porque dito assim pode parecer que é um “ataque” especialmente dirigido ao BE, quando na verdade, para que não subsistam ilusões, sobre isso, relembro como me manifestei publicamente contra um outro logro, ao caso do PCP, para “justificar” a cleptocracia e desrespeito pelos mais elementares direitos humanos em Angola do dos Santos. Ou como considero vergonhosa a espinha dobrada do PS perante Merkell e Hollande ou Juncker...
São logros em que – mesmo quando em boa-fé – se pagam caros. Como o de acreditar nas “Primaveras Árabes” sem mais, sem juízo crítico e observação da infiltração (quando não preparação) das mesmas como pretexto para destruir Estados e antigos aliados até e destruir o Estado para maiores proveitos na indústria de guerra, da construção civil, do petróleo e da dominação militar (feita por profissionais à mistura com mercenários sem exército nacional próprio, no “mercado internacional”) do Mundo. Ou tantas outras que, como disse no início, seria infindável tratar e mesmo continuar a elencar.
Ficará para outras oportunidades em que a questão se ponha na ordem do dia.
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quarta-feira, 29 de março de 2017

O 25 de Novembro a três dimensões...e não só....!!!

O 25 de Novembro a três dimensões...e não só....!!!
Acabei apenas por fazer uma introdução de cerca de 9 minutos não tendo tido tempo para explicar que ao contrário do que depois soubemos todos estes actos foram considerados como sendo o "famoso golpe de esquerda".Felizmente tantos anos passados está claro que o golpe foi feito por um conjunto de oficiais superiores (coronéis ou tenente coronéis) apoiados pelo grupo dos nove.Hoje alguns estão pouco satisfeitos com o rumo que o país tomou.
Mas na Ultima revista VISÃO,o ex-PR e Gen. Ramalho Eanes relata bem como partiu para comandar as operações, sempre com a velha desculpa que era preciso contra-atacar o Golpe de Tancos e da RTP....e da tomada do Comando da Força Aérea em Monsanto...A RTP apenas esteve comigo para permitir que os para-quedistas justificassem a sua tomada de posição durante a noite de 24 para 25.
Em 1976, meio ano depois,o então Comandante Gomes Mota edita o seu livro "A RESISTÊNCIA:um verão quente" e nele confessa claramente quem faz o golpe,quem o comandou e contra quem.Também no meu pequeno livro "Elementos para a Compreensão do 25 de Novembro", editado em Fevereiro de 1976, deixo muitas pistas para os investigadores sérios analisarem sem os difíceis constrangimentos egocêntricos ou facciosos. Não se percebe porque os verdadeiros autores do golpe não o assumem,depois de terem tido a coragem de andar a passear,pelas ruas,sem qualquer resistência da dita esquerda.Foram apenas esbarrar com o Regimento da Policia Militar e ...até tiveram receio de ir ao Lumiar atacar as minha forças.Deram a volta no Estádio da Luz e foram cortar a antena em Monsanto.
Melo Antunes é fundamental na noite de 26 de Nov. ao ter o bom senso de evitar maiores represálias com as suas declarações na RTP.Antes porém Rosa Coutinho e Martins Guerreiro evitam que os fuzileiros saiam de Vale do Zebro.Estava finda a tão propagandeada guerra civil....da Comuna de Lisboa.

Ver no google  Arquivos da RTP  25 de novembro   Entrevista a M.Duran Clemente no dia e em 1975. 

arquivos.rtp.pt/conteudos/o-golpe-do-25-de-novembro/

segunda-feira, 20 de março de 2017

Duran Clemente capitão de Abril Percurso

Manuel DURAN CLEMENTE

Um dos Capitães de Abril

Nasceu em Almada em 28 de Junho de 1942.
Seu pai é natural de Capinha(Fundão) e sua mãe de Redondela/Pontevedra(Galiza)

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É um dos capitães da génese clandestina do Movimento de Capitães.

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Cursou o ensino técnico e liceal nos Pupilos do Exército.Ingressou na Academia Militar em 1961.Licenciou-se em Administração. Teve vários cargos, militares e civis, na área administrativa, financeira e de gestão.
Foi promovido a Capitão em 1968.
Foi-lhe atribuído o grau de Cavaleiro da Ordem Militar de Avis (02.10.1971)
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Antes da Revolução conheceu S.Tomé , Angola, Moçambique  e Guiné-Bissau, tendo estado, em comissões militares na guerra colonial, nestas duas últimas ex-colónias.

Solidariza-se, em 1969, com o movimento MDP/CDE. Tem reuniões clandestinas entre 1969 e 1973.Em Abril de 1973 contesta publicamente em Aveiro, no Congresso da Oposição Democrática, o regime ditatorial, onde distribui um manifesto político.
Como consequência da apresentação deste documento à hierarquia militar (onde, além de criticar a falta de liberdade e a guerra colonial, requer o abandono das Forças Armadas)  o Capitão Duran Clemente sofre como “punição” a deportação/mobilização para a Guiné-Bissau onde chegou em Julho de 1973.
Teve então oportunidade de desenvolver o processo conspirativo, já iniciado em Lisboa, logo após a sua chegada à capital guineense.
(Ver publicação sobre o seu desempenho no inicio e desenvolvimento do Movimento de Capitães nesta colónia, no depoimento no Livro Conquistas da Revolução editado pela ACR em 23 de Abril de 2014 ou no seu blogue omirantealmirante2.blogspot.com e no recente livro editado por Jorge Golias)
É aí, em Bissau, que promove a constituição de um dos primeiros núcleos clandestinos e onde se iniciaram reuniões alargadas dos Capitães. Desde a primeira dessas reuniões contou com a presença de alguns militares (que depois ficaram mais conhecidos) tais como Otelo Saraiva de Carvalho, Salgueiro Maia, Matos Gomes, Jorge Golias e Faria Paulino.

O Capitão Duran Clemente é um dos quatro autores da carta subscrita por cerca de cinquenta capitães (em guerra na Guiné) dirigida ao Governo, em Agosto de 1973, pondo em causa o sistema e deixando já antever uma tomada de posição de força.
Só depois deste acto se realiza em Alcáçovas a reunião de mais de 130 capitães no Continente e se iniciam manifestações semelhantes em Moçambique e Angola.
É eleito para a primeira Comissão Coordenadora do movimento de capitães com os capitães Matos Gomes, Almeida Coimbra e António Caetano/Sousa Pinto.

Durante o período de preparação do 25 de Abril é o elemento de ligação ao MFA/Continente, a Hugo dos Santos e Vasco Lourenço, isto é, entre a Guiné e Lisboa.
Promove-se, nessa ocasião (Agosto/Setembro/73)  o alargamento da conspiração à Marinha e Força Aérea.
Destaca-se pela acção intensa que teve no “recrutamento” de militares/capitães, não só do Exército como da Força Aérea e da Marinha, no envolvimento nas acções conducentes ao acto libertador que estando mobilizados na Guiné, iam regressando a Portugal, (no fim das suas comissões de guerra de dois anos) entre Julho de 1973 e Março de 1974.
Exerce também missões de ligação a militares “não profissionais” (milicianos) na fase conspirativa, tais como Barros Moura e Celso Cruzeiro (antigos dirigentes académicos), entre outros, que viriam a ter colaboração significativa no equilíbrio das soluções futuras, já depois da alvorada libertadora.

Duran Clemente com os oficiais organizados tomam o poder também em Bissau e em toda a Colónia, no dia 25 de Abril, colocando nos postos chaves, militares de confiança e integrados no espírito do Programa MFA depois de sanearem e “remeterem” para Lisboa, nos dias seguintes, os oficiais superiores conotados com a ditadura, tais como o General Bettencourt Rodrigues Governador e Comandante-Chefe e outros adeptos do sistema.

Esta atitude na Guiné estava integrada na operação global e serviria sempre de reserva a qualquer eventual malogro das acções então planeadas e a decorrer no Continente.
A tomada de posição na Guiné,felizmente, não foi necessária para se impor como “moeda de troca”, porque a Revolução vingou em Lisboa mas reforçou-a e consolidou-a, sobretudo no referente ao processo pacífico de descolonização. A pressão do MFA da Guiné é importante. A colónia já estava reconhecida como país independente por uma centena de países. Mas Spínola e outros faziam contra-vapor em Lisboa.O processo de descolonização da Guiné iria decorrer sem incidentes sob a chefia de Carlos Fabião e do acompanhamento da coordenação do MFA/Guiné, a partir de 7 de Maio  e até 15 de Outubro de 1974.


Foi no período de transição nomeado pelo MFA para Director do único Jornal “A Voz da Guiné” que se constituiu como mais um agente de dinamização e esclarecimento no processo em curso, sobretudo na cidade de Bissau.

Após a Lei 7/74 (reconhecimento do direito das colónias à independência) e do comunicado conjunto ONU/PORTUGAL (a 4 de Agosto) em que se reconhece a Guiné-Bissau como Estado independente, participa em várias acções de preparação e transferência de poderes no território da Guiné e integra missões de contacto e acolhimento dos primeiros dirigentes do PAIGC, tais como Luís Cabral, Manuel dos Santos, Vasco Cabral, Julio Carvalho, Juvêncio Gomes, Francisco Mendes, Pedro Pires e outros.

Já antes, de Maio a Julho, por acções legitimadas pelo MFA e por Carlos Fabião e pelo decurso dos processos de negociações, de (Londres e Argel) é alvo de perseguição pelo então General A.Spinola, sobretudo depois duma entrevista dada em Agosto,em Bissau, à RTP (a J.Letria) denunciando que militares portugueses e guerrilheiros do PAIGC já confraternizavam com normalidade. Chegou a ser chamado a Lisboa e a receber ordens para encerrar o Jornal; acções a que se opôs o Governador Carlos Fabião que, apesar de considerado militar "spinolista",após chegado a Bissau em 7 de Maio, opta definitivamente pelas posições do MFA.

Como convidado pelo PAIGC esteve, em Madina do Boé, nas comemorações do primeiro aniversário da independência da Guiné Bissau,em 24 de Setembro de 1974.

Com o processo na Guiné resolvido em 15 de Outubro de 1974 (data do regresso a Lisboa do ultimo contingente militar português) o Capitão Duran Clemente regressa a Lisboa onde, com um grupo significativo de oficiais que se tinham distinguido em Bissau, integram a 5ª Divisão  do Estado Maior General das Forças Armadas.
Aí se organizam numa das estruturas mais destacadas no Processo Revolucionário até ao 25 de Novembro de 1975.
O Capitão Duran Clemente foi, nesta estrutura, um dos responsáveis pelo Centro de Esclarecimento e Informação Pública coordenando programas de Rádio e Televisão e integrando a redacção do Jornal quinzenal “ O Boletim do MFA” editado durante um ano ( 25 exemplares ).

Na sua actividade, extra militar,  é ainda em 1974 convidado para Vice-Presidente da Associação de Amizade Portugal / Guiné-Bissau ,associação que viria a constituir-se formalmente em 1977 e a cujo acto eleitoral assiste Pedro Pires. Rogério Paulo e Duran Clemente são eleitos Presidente e Vice Presidente desta Associação.
  
Foi Secretário-geral da Assembleia do MFA sendo dela seu porta-voz depois do 11 de Março e até Setembro/75 (Tancos).
Na data de 11 de Março/75 aos microfones da então Emissora Nacional alerta o País, durante o noticiário das 13.00, da invasão do RALIS e do golpe que Spínola perpetrava.
Os avisos feitos são fundamentais ao alertar os próprios militares envolvidos em eminente confronto junto ao RALIS (paraquedistas e artilheiros).

Está pouco divulgado que por esta acção é dos raros oficiais que no período revolucionário é formalmente “louvado” pelo Chefe do EMGFA e Presidente da Republica /General Costa Gomes.

Mantém-se firme nos seus princípios e convicções no período mais conturbado do PREC, nomeadamente no chamado “Verão quente” revelando-se como “gonçalvista” assumido.

Quis o destino que fosse a última voz do Movimento das Forças Armadas (revolucionário) em 25 de Novembro de 1975, ao defender a revolução nos ecrãs da Televisão.

Após este acontecimento recusou submeter-se ao mandato de captura e ser preso no Portugal democrático.

Esteve ausente do país, exilado em Cuba e na R. P. Angola durante dez meses. Regressou em 9 de Setembro de 1976, foi expulso administrativamente do Exército. Foi reintegrado, quatro anos depois, por decisão Judicial, após amnistia, sendo promovido a Major e posteriormente reformado "compulsivamente".

Três  anos depois de ter sido  aprovada( em 1999 ) a Lei que impôs a reconstituição das carreiras aos militares que pela sua intervenção em 1974 e 1975 foram afastados e “perseguidos”, ascendeu  ao posto de Coronel (reformado) .Posição que deveria ter desde 1991 e que a Lei só repôs em 2002.
  
Exerce, desde 1977, ou seja nos últimos trinta e cinco anos, a actividade de consultor na área de administração, gestão, planeamento e organização  e desenvolvimento regional, tendo apoiado a cooperação portuguesa na Guiné-Bissau onde chegou a ser consultor por parte da Comissão da União Europeia num programa especial de dinamização ao desenvolvimento.

 Antes disso e através dum Gabinete de Estudos Económicos (SNEDE/Sociedade Nacional de Empreendimentos e Desenvolvimento Económico, S.A) foi, entre 1978 e 1987,director de projectos de desenvolvimento. Colaborou ainda em 1980,com Mário Murteira num curso de formação de quadros superiores, em Cabo Verde. 

Foi desde 1991/2011 (durante mais de 20 anos)  colaborador e adjunto  da administração da Câmara Municipal do Seixal.

Foi membro do Conselho de Administração da CDR, Agência de Desenvolvimento Regional de Setúbal. Foi, até à sua extinção (Nov/2014),membro da direcção da Direcção da Associação Parque Industrial do Seixal.Ainda é, sem qualquer remuneração, membro da direcção Ambiental (AEERPPAS) ligada a esta autarquia.

Foi candidato à Assembleia da Republica, pelo círculo de Setúbal pela CDU, em 1999.Em Setembro de 2001,substituiu no parlamento Octávio Teixeira, cedendo esta posição ao candidato seguinte, Bruno Dias.

Foi autarca eleito, durante 12 anos como Presidente da Assembleia de Freguesia em Santa Catarina – Lisboa, pela Coligação PS/PCP.

Foi candidato por esta coligação PS/PCP em 2001 à Câmara Municipal de Lisboa. Em consequência foi Vereador (substituto), na oposição (2001/2005), nesta autarquia.

É membro e activista, fundador do Movimento cívico "Não Apaguem a Memória" tendo sido considerado arguido e julgado (e absolvido) em Tribunal a 21 de Dezembro (2006) por uma acção de protesto, em 5 de Outubro de 2005,  junto das antigas instalações da PIDE/DGS, por se expor, indignado, ao branqueamento do significado da transformação urbanística, ali em curso, em plena Rua António Maria Cardoso, de trágica " má memória". 

Em Março de 2007 foi eleito para a Presidência do CPPA, Conselho Português para a  Paz e Cooperação e reeleito em 2013

É associado, desde a sua fundação, da Associação 25 de Abril.

É fundador da Associação Conquistas da Revolução constituída em 2011, sendo eleito membro da sua Direcção e designado coordenador da sua “Folha Informativa”. Renunciou a estas actividades em Setembro de 2014 tendo colaborado na edição dos livros publicados por esta.

Por ocasião dos aniversários da Revolução já realizou centenas de intervenções em Escolas e Sessões Públicas em autarquias, colectividades e associações por todo o país.

No mesmo sentido fez intervenções junto da emigração portuguesa em Paris, Bruxelas, Espanha, E.U.A, Cabo Verde, Guiné/Bissau e Angola.

É autor do livro “ Elementos para a Compreensão do 25 de Novembro “, Edições Sociais, 1976.
É co-autor do livro “30 anos do 25 de Abril “ (painel  “a conspiração na Guiné”), edição Casa das Letras, 2005,coordenado por M. Barão da Cunha, e da brochura “ O Paradoxo do Militar Libertador: da Guerra Colonial ao 25 de Abril” apresentado na Universidade de Saint Dennis/Paris em 1999.

É autor de diversos  artigos e intervenções na comunicação social, escrita e falada, destacando-se os últimos artigos  "Não Apaguem a Memória -Se arguidos somos todos, todos fomos absolvidos" e "Pode nascer um país" ( do ventre duma chaimite ) este, citando o poeta Ary dos Santos, numa alusão ao país que queríamos ser e ao que somos,"Reconciliação connosco próprios...no 25 de Abril: E hoje? E ainda “Economia Real versus Economia Virtual/O ultraliberalismo Global e a Crise Europeia”, “O estado Social e o Neoliberalismo” e “Urbano Tavares Rodrigues, até já amigo e  texto de homenagem a  Varela Gomes nos seus 90 anos.”

Apresentou à Conferência da Paz/CPPC (7.12.2013) e à Convenção Democrática Nacional (8.12.2013) a comunicação “25 de Abril-Sonho, Luta, Revolução e Esperança”.

Editou recentemente a brochura ”A Guiné, o 25 de Abril e o reconhecimento da sua independência”.

No passado dia 22 de Fevereiro de 2014, por ocasião do 131º aniversário da Voz do Operário, esta instituição, como faz todos os anos, distinguiu-o como sócio honorário e na homenagem de personalidade de mérito do ano“pelo reconhecimento do seu importante papel no desenvolvimento da revolução do 25 de Abril (que este ano comemorava o 40º aniversário) bem como a luta em defesa dos trabalhadores e do povo, pela Dignidade, Liberdade e Democracia.” (citando excerto da carta da Direcção da VO).
Colaborou na edição dos Livros “Conquistas da Revolução” e de “Vasco,nome de Abril publicados pela Associação Conquistas da Revolução, respectivamente em 23 de Abril e 18 de Julho, deste ano de 2014, quando ainda era seu director e membro do grupo de trabalho de edição.
Foi fundador em 1993 e membro da primeira direcção, em 1993 , da Associação “Os Amigos da Fundação das Casas Fronteira e Alorna” entidade cultural prestigiada e é sócio honorário desde 27 de Abril de 2016.!

Continua na sua luta constante de esclarecimento, sob o ponto de vista progressista, sobre os factos políticos nacionais e internacionais, para que a memória não se apague.

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 Abril de 2017


sexta-feira, 17 de março de 2017

Fundação das Casas de Fronteira e Alorna Associação de Amigos da Fundação....

Fundação das Casas de Fronteira e Alorna
Associação de Amigos da Fundação....

Sou sócio fundador e da primeira direcção da Associação Amigos da Fundação das Casas de Fronteira e Alorna..Palácio do falecido Marquês da Fronteira.....Fernando Mascarenhas ,por acaso um antifascista monárquico....onde tivemos reuniões conspiratórias antes do 25 de Abril.O Palácio é a poucos metros dos Pupilos do Exército em S.Domingos de Benfica,onde estudei e de onde partiu a oportunidade de ter uma longa amizade com o Fernando ,sua mãe (seu padastro Arquitecto Frederico George) e avós maternos ,familiares e bons Amigos,e não só, desde 1957...e até 2014 (ano da sua morte).Na ultima AG da Associação dos Amigos -AAFCFA,-em 2016,que tem mais de 20 anos,fui eleito sócio honorário vitalício ,o que muito me honra.



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

OUTRA VISÃO

Texto de ANTONIO RIBEIRO ,que pessoalmente subscrevo inteiramente.MDC.
QUE VIVA CUBA!
« Não me sinto o mais indicado para tecer loas a Fidel Castro. Não é que ele não as merecesse e garanto-vos que merecia mesmo! Liderar um país que era miserável em 1960 contra os interesses da mais agressiva superpotência mundial, e tudo isso a apenas 150 quilómetros de Key West (Miami), que em matéria de valores e de estilo de vida é uma espécie de América ao quadrado, não há-de ter sido nada fácil. É aliás obra de gigante, isso podem crer. Nacionalizar os sectores monopolistas americanos (hotéis de luxo, batota casineira, tráfico de droga, prostituição à escala industrial, banca, produção e distribuição de electricidade e exclusivo das comunicações) sem pagar nada aos donos daquilo tudo foi uma empreitada e pêras! Logo a seguir convém lembrar as tentativas de assassinato, a nojenta aventura da Baía dos Porcos orquestrada pela CIA, a questão irresolvida de Guantánamo e, sobretudo, o escandaloso boicote comercial que deixou o país à míngua de tudo, incluindo os sobressalentes indispensáveis para manter máquinas e equipamentos em estado operacional. Muita gente não sabe, ou já esqueceu, que o embargo não era só anti-Cuba, era também contra todas as companhias do mundo inteiro que teimassem em manter negócios com Cuba, em exportar para Cuba, em voar ou navegar para lá, entidades às quais era automaticamente vedado ter relações comerciais com companhias americanas. Uma chantagem política miserável, inumana e desproporcionada, que pretendia esmagar um povo inteiro e estimulá-lo à insurreição contra os seus dirigentes. De maneira que os EUA transformaram-se eles mesmos, a propósito de Cuba, numa imensa "baía dos porcos". Se a América tivesse querido ser um país decente teria recorrido para os tribunais internacionais, teria negociado nos bastidores diplomáticos compensações adequadas e faseadas no tempo, mas não teria feito o terrorismo de estado que de facto fez contra um povo inteiro. Sim, porque o que a América fez a Cuba, em retaliação pelo facto de ela ter ousado revoltar-se, foi um formidável genocídio social, sem paralelo algum no mundo moderno, seja em intensidade, seja em duração. Neste contexto dramático e violento, que vive de factos que não são propaganda mas absolutamente testemunhados e comprovados ao longo de décadas, não faz qualquer sentido vir agora invocar erros, exageros e violações de certos direitos. Nunca fui esquerdista, sou apenas um social-democrata à esquerda, mas tenho de contextualizar tudo o que aconteceu na Cuba de Fidel para poder valorizar as coisas boas e as coisas más que lá aconteceram ao longo de quase seis décadas. E o saldo que Fidel legou à História é algo de formidável. À cabeça, a noção de que um país não se verga à agressão e que um povo unido jamais será vencido. Nós conhecemos esse slogan em Portugal, mas lá é que ele fazia todo o sentido, na pureza integral das ideias e dos ideais. Mas há muito mais. À falta de direitos económicos e a impossibilidade prática de empreendedorismo privado, Fidel respondeu da única maneira possível num estado sitiado: construiu um sistema de educação gratuita, um sistema de saúde gratuita, um sistema em que todos tinham direito a um tecto para viver. Chama-se a isso direitos sociais, que não substituem os outros direitos transitoriamente comprimidos, mas que não são menos importantes do que os direitos das liberdades abstractas, que em certas condições políticas e sociais não servem para nada. Fidel encostou-se à antiga URSS? Pois sim, mas que alternativa tinha ele, se ele não aceitava capitular? Fidel não foi gentil com os seus opositores, mas que alternativa tinha ele se não queria entregar o poder ao inimigo? Cuba é um caso à parte no panorama internacional. Leiam o livro magnífico da filha do chefe da PIDE de Salazar que emigrou para Cuba e lá teve uma vida de mão cheia em termos de sucessos pessoais e profissionais. Leiam que Silva Pais (o chefe da PIDE de Salazar) teve autorização para ir visitar a sua filha em Cuba, não obstante a extrema diferença ideológica entre ambos os regimes. Eles não impuseram que a Filha não contactasse com os seus Pais! Falem com as elites das sociais-democracias escandinavas, que tanto ajudaram Cuba e Fidel, e percebam por que motivo dirigentes políticos que nada tinham de "comunistas" sempre acarinharam e apoiaram o regime cubano, mesmo enfrentando o desagrado americano. Neste momento histórico, e mesmo tendo presente que algumas coisas desagradáveis não precisavam de ter acontecido, eu vos digo: Que Viva Cuba! E parabéns a Fidel, que deixou uma marca indelével na História. A marca de independência nacional, da resistência ao imperialismo e da autonomia política dos povos. Que grande lição ele nos deu!» António Ribeiro.
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Obs.1- Em 1975 a filha de Silva Pais esteve em Portugal com o poeta Cubano N.Guillên.Tive o prazer de os conhecer e termos ido a Évora comer um ensopado de borrego e ver de perto as transformações no Alentejo….o resto depreende-se! MDC.

Obs.2-Em Janeiro de 1976,após o 25 de Novembro, embarquei para Havana na sua companhia aérea, a partir de Madrid, com Varela Gomes e Costa Martins e fomos muito bem recebidos como exilados. .Onde permanecemos durante mais de uma mês até chegarmos a Angola.Em Cuba vivia-se muito melhor que nas antigas colónias espânicas….MDC

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Guerra Colonial A operação "nó górdio"do século vinte e um!

Simplesmente GUERRA!
A operação "nó górdio"do século vinte e um!
 
apontamento sobre os "prós" dos "contra" a Liberdade,
ou como se vive uma época de mistificação e manipulação!
 
Não é o facto de ter caído numa armadilha, ao ter aceite o convite para estar presente, no último programa da RTP "prós e contras" que me obriga a este apontamento. É um desabafo e uma preocupação, sobre como no mundo de hoje é fácil para alguns mentir e branquear e para outros dialogar, apresentar elementos históricos provados e até poderem explicar com serenidade as causas da distorção, do erro, do engano ou maldade alheia.
 
O desabafo:
 
O formato e condução do programa não são sérios. Não vale a pena o eufemismo de referir isenção ou neutralidade, porque há muito esses princípios andam arredados de muito jornalismo escrito, falado ou televisionado!
Quem viu o programa, em causa, do passado dia 15 de Outubro terá constatado o favoritismo escandaloso entre, não só, o número dos escolhidos ou convidados "pró-guerra" e os de opinião contrária, como o tempo de antena dado a uns e o retirado (ou não dado a outros) pela moderadora (!?).
 
É preciso ter nervos de aço ou ser profissional da manipulação (ignorante) para não se ficar perturbado ao ouvir tanta distorção histórica, por parte de intervenientes zangados com o 25 de Abril e até ouvir um Embaixador, como o da Guiné-Bissau"reduzir o massacre das docas de Pidjiguiti (em Junho de 1959) em Bissau a uma mera reivindicação laboral. Não sabia que um dos principais activistas tinha sido Carlos Correia (mais tarde Ministro das Finanças e Primeiro Ministro), então trabalhador da Casa Gouveia (...não é nome que esqueça a um guineense com estas responsabilidades...) e ainda fui eu que (sentado próximo do Sr. Embaixador) tive de lhe servir de "muleta", ao sussurrar-lhe o nome desse "homem grande" e activista dessa greve, pessoa humilde, íntegra e patriota com quem tive o gosto de trabalhar e conviver durante dez anos de Cooperação em Bissau (desde o final dos anos 70 até ao dos anos 80).
 
Quem é que escolheu esta personagem? Este Sr. Embaixador que não sabe que Pidjiguiti representa mais de 50 mortos, de uma centena de feridos, dos sobreviventes deportados para S. Tomé, e que um mês e meio após este acontecimento ("apenas laboral" no dizer do Sr. representante de Bissau), já com Carlos Correia (e outros que conseguiram fugir) e juntar-se aos nacionalistas, comandados por Amílcar Cabral, a Direcção do PAIGC (ainda só P.A.I., ou seja, Partido Africano para Independência) abandonou a «acção política e social» e declarou -se a favor da luta conta o colonialismo português «por todos os meios possíveis incluindo o da luta armada» .Lê-se em declarações de Amílcar Cabral «a luta armada era a única resposta à força das armas e a acção não deveria ser desencadeada nas cidades... mas antes privilegiar a força camponesa». E foi o que aconteceu com escolas de formação, para quadros políticos, instaladas junto da Direcção política, no vizinho país, em Conakry.
 
«O ensino militar que vocês receberam, as armas que os colonialistas vos deram para matar a nossa gente, o material de guerra e as munições que estão em quartéis à vossa guarda. Tudo isso pode ser posto ao serviço da luta de libertação dos nossos povos. Estamos seguros de que é o que vocês vão fazer, com prudência, com cuidado e inteligência...» mensagem de Amílcar Cabral, em Outubro de 1960. Com o pseudónimo de Abel Djassi.
 
Numa outra mensagem aos colonos portugueses, Cabral avisa, «...o colonialismo português tem os dias contados e vós sabeis isso muito bem. Não deveis consentir, como homens conscientes, no absurdo de amarrar o vosso destino ao destino do colonialismo português....»
 
Ainda em 15 de Novembro o P.A.I. dirige-se ao governo português num memorando: «a via pela qual vai ser feita a liquidação total do colonialismo português... depende exclusivamente do governo português. (...) Ainda não é tarde para proceder à liquidação pacífica da dominação colonial portuguesa nas nossas terras. A menos que o governo português queira arrastar o povo de Portugal para o desastre de uma guerra colonial».
 
Não adivinhava Amílcar Cabral que esta característica de negociador (verdadeira ou insinuada) lhe iria ser fatal. Da facção militar guerrilheira, mais ortodoxa, sedenta de Poder, iria sair o plano para o matar em Janeiro de 1973, instigados ou não pelo boato, lançado pelas hostes spinolistas, de que ele, A. Cabral e Aristides Menezes, queriam ou teriam querido negociar.
 
 
 
A preocupação
 
Acrescento uma preocupação sobre os episódios que estão a passar, na RTP 1, sobre a Guerra (do Ultramar, Colonial ou de Libertação... ai.... a semântica e a dificuldade de passados 33 anos ainda haver quem tenha medo de chamar "os bois pelos nomes!!!")
 
Espero que a frase do Joaquim Furtado, que tenho como um profissional sério e íntegro, (na apresentação da síntese dos nove primeiros episódios, a que alguns de nós assistimos na própria RTP, na tarde de 15 próximo passado." ...de ter procurado, na realização dos filmes, não ferir susceptibilidades..." não resvale, no receio de magoar os responsáveis (quer da altura quer os seus correligionários actuais) exactamente aqueles que nos atiraram para aquela desgraça de treze (ou mais anos) e que ainda tentem "desonrar" o nosso 25 de Abril...como lastimavelmente esteve à beira de acontecer no famigerado programa dos "Prós e Contras" da passada segunda-feira, com a convergência dos factores já descritos no meu desabafo.
 
Entre os dislates ouvidos de saudosistas e conservadores ignorantes, destaco um que nos diz especial respeito. Alguém pretendeu pôr em causa a honorabilidade do nosso 25 de Abril, procurando apagar as suas verdadeiras razões para justificar a sua argumentação "revanchista" e falsa, com o argumento, de que só se fez o 25 de Abril por uma questão corporativa, por causa do Decreto-Lei 353/73...
Ora... Quantos de nós, já antes do decreto, havíamos começado a sentir a necessidade de acabar com a impostura???
 
Lembro-me do desabafo, já em Nacala — Moçambique (1970) — no navio Niassa, quando cerca de dez capitães, que eu já tinha visto passar por Nampula, acabados os mais de dois anos de guerra colonial, preparados para regressar a Lisboa, são forçados a interromper tal esperança e chamados (por Kaúlza) a regressar "ao mato" para integrarem a Operação "Nó Górdio"... perante o meu espanto, exclamaram: TEMOS DE ACABAR COM ISTO, ANDAM A GOZAR CONNOSCO...!!!
 
Lembro-me dos capitães que a partir de 1965, e particularmente após Maio de 1968, começam a informar-se mais e a dialogar melhor com a sociedade civil e com os alferes milicianos, enquadrando nas suas consciências as contradições do Regime, das revoltas abafadas desde 1927 até 1961, Chaves, Porto, Lisboa, Madeira, Beja. Das personagens Norton de Matos, Sousa Dias, H. Delgado, H. Galvão, e tantos outros.... Da efectiva mentira e da ficção do Grande Império (perdido a partir de 1580, mais perdido ainda depois de 1820 (Brasil), praticamente nas mãos da estratégia dos Ingleses, já desde 1640 - como paga da aliança primeiro contra Castelhanos e depois contra Franceses – e mais acentuadamente, a partir do século dezanove, proibindo o "mapa cor-de-rosa" e escoando e coordenando a exploração dos minerais, café, chocolate, chá... algodão, tabaco... portos e caminhos-de-ferro... etc. ... deixando "umas sobras para português ver" a algumas famílias nacionais, tudo isto com a benevolência dos nossos Ministros da Colónias e outras dignas altas esferas). Lembram-se que em Moçambique até o trânsito se fazia pela faixa esquerda como no Reino Unido???
 
Império sem gente, sem poder, sem motivação desenvolvimentista, sem meios materiais e sequer bélicos!!! É o que se encontra no princípio do século vinte, antes das ditas "guerras da pacificação" (1920/1930).
Timor -Leste, pouca gente se lembra, esteve nas mãos do Japão e da Austrália, mais de quatro anos de 1941 a 1945.
Pouco ou nada muda até o pós Segunda Grande Guerra.
As fronteiras das colónias são então demarcadas. A Casamança, dita portuguesa, na Guiné, passa para o Senegal, é trocada por uma parcela de pedras, a Leste, perto de Konakry, por despacho dum alto dirigente português a troco dum bairro em Paris.
Os países coloniais começam a resolver politicamente as inevitáveis descolonizações.
 
As "nossas" parcelas da Índia são defendidas com "chouriços" e não fora o bom senso de Vassalo e Silva teria havido um massacre inenarrável. Efectivamente, nem armas havia e quando alguns caixotes são abertos, felizmente são mesmo chouriços e outros produtos congéneres que se encontram. Conta quem lá esteve.
 
A Guiné estava na mão da CUF (Casa Gouveia) e o seu povo na miséria continuava. As riquezas exploradas, mancarra, arroz e cajú não davam para fazer escolas, hospitais, estradas, etc.. O desenvolvimento era nulo. (Estive lá, antes e depois da Independência)
 
Cabo-Verde tinha metade da população emigrante! (igualmente conheci, antes e depois da Independência)
 
S. Tomé e Príncipe vivia de "escravos" que alimentavam as roças dos senhores. Sendo das terras mais bonitas que já alguma vez conheci (estive lá em 1962) nem sequer as riquezas do café ao cacau e frutas serviram para desenvolver. E o turismo tinha a desculpa do paludismo e do clima equatorial.!!!! Leia-se o livro o Equador de M. S. Tavares e já entenderão porque é bom não esquecer os nosso velhos "aliados ingleses" e um pouco do que era a realidade, agora ficcionada pelos saudosistas.
 
 
Era este o Império onde em Angola (14 vezes maior que Portugal) em 1960 havia 1.500 militares portugueses e cerca de 5.000 africanos integrados. Onde o desenvolvimento à semelhança de Moçambique (nunca sustentado nem coerente com as potencialidades naturais) começou a dinamizar-se com o início da Guerra Colonial. Era precisa autorização do Terreiro do Paço para tudo e para nada, com medo da independência Branca e Unilateral. Também conheci estas duas colónias antes e depois das suas Independências. Até para uma "barragem agrícola" era preciso licença de Lisboa... Assisti a isso.
 
Os capitães, da geração do 25 de Abril, foram sabendo isto e muito mais, nas três frentes de combate. As grandes potências tinham ou estavam a perder as guerras semelhantes (Indochina, Argélia, Vietname) e a célebre APSIC (acção psicológica) colocou o capitão muito próximo do então "terrorista". Na quadrícula, o capitão não era só chefe militar no terreno, era uma personagem com um vasto leque de missões de carácter civil. Nesse entrosamento apreendeu e aprendeu que o verdadeiro inimigo estava no Terreiro do Paço. Viu de perto, durante excessivo tempo, o que certos saudosistas, já não inebriados "com a cruz e a espada contra o sarraceno" não quiseram ver porque não arrancaram a armadura vestida nos quartéis (antigos conventos) e talhada com atributos "moralizadores, pedagógicos e cívicos" para o cumprimento de missões transcendentes, defender uma legalidade constitucional e garantir a independência da Nação, una e indivisível. Isso substituiu o que se perdeu de "teológico" (a cruz e a espada). Há que compreender que o "velho" militar, que tal assimilou, dificilmente possa desconstruir em si esta assimilação, sentimento, dinâmica ou vulgo "lavagem ao cérebro". A culpa não terá sido sua mas do sistema. Quase me arriscava a solicitar a condescendência.
 
Lembro-me de capitães e primeiros-tenentes que encontrei no Congresso do MDP/CDE em Aveiro, em Março de 1973, e dos que já antes se interrogavam, na hipótese de acção, mesmo em 1969.
 
Lembro-me de ter chegado a Bissau, por castigo, e de ter começado, no dia seguinte, com outros capitães, a conspirar, sem saber da existência de Decreto nenhum. Não vou negar hoje que a saída deste célebre 353/73 nos deu jeito, mas como é que ele era corporativo se só dizia respeito às Armas de Infantaria, Cavalaria e Artilharia? Foram só os capitães destas que se revoltaram? Claro que não.
Desde logo se solidarizaram outros capitães e equivalentes de outros Ramos da FFAAs. Capitães de Engenharia, Administração, Transmissões, Saúde, Material, etc... e da Marinha e Força Aérea, no sentido de em conjunto se aprofundar o que estava em causa.
E o que estava em causa?
Uma Guerra perdida politicamente, porque os políticos não estavam nem com os ventos da História nem com o povo (e deste nós, os militares de carreira, com duas, três ou mais comissões, fora do ar condicionado, cansados da mentira e da hipocrisia... e bem assim os conscritos desmotivados e acomodados).
 
Enfim muito para dizer e que já é repetição. Mas as novas gerações merecem a Verdade.
 
Citando Alexis de Tocqville convém não esquecer que "as revoluções que triunfam fazem desaparecer as causas que as produziram e tornam-se por isso incompreensíveis para as novas gerações".
 
Isto para dizer que se assim for e se os episódios de Joaquim Furtado se remeterem apenas ao seu profissionalismo de contar uma «história» sem o devido enquadramento Histórico, ou seja, se estiver em perigo essa Verdade e ousar-se o branqueamento do trágico erro Histórico que foi a Guerra Colonial e da ficção do Grande Império, julgo que a A25A não pode ficar calada.
 
É uma especulação académica, um exercício de estilo, discutir se foi Guerra do Ultramar, Guerra Colonial ou Guerra da Libertação.
Para mim, foi guerra Colonial. Mas o mais importante é que foi uma guerra ordenada e mantida por um governo retrógrado, liderada por um chefe rural e retrógrado que tão mal fez a Portugal... cujos efeitos nefastos ainda hoje se sentem.
Os povos em confronto ganharam a guerra da Liberdade... mas ainda não ganhámos (lá e cá) a Guerra da Igualdade e da Fraternidade.
É aí que está um verdadeiro "NÓ GÓRDIO do século XXI.