segunda-feira, 20 de março de 2017

Duran Clemente capitão de Abril Percurso

Manuel DURAN CLEMENTE

Um dos Capitães de Abril

Nasceu em Almada em 28 de Junho de 1942.
Seu pai é natural de Capinha(Fundão) e sua mãe de Redondela/Pontevedra(Galiza)

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É um dos capitães da génese clandestina do Movimento de Capitães.

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Cursou o ensino técnico e liceal nos Pupilos do Exército.Ingressou na Academia Militar em 1961.Licenciou-se em Administração. Teve vários cargos, militares e civis, na área administrativa, financeira e de gestão.
Foi promovido a Capitão em 1968.
Foi-lhe atribuído o grau de Cavaleiro da Ordem Militar de Avis (02.10.1971)
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Antes da Revolução conheceu S.Tomé , Angola, Moçambique  e Guiné-Bissau, tendo estado, em comissões militares na guerra colonial, nestas duas últimas ex-colónias.

Solidariza-se, em 1969, com o movimento MDP/CDE. Tem reuniões clandestinas entre 1969 e 1973.Em Abril de 1973 contesta publicamente em Aveiro, no Congresso da Oposição Democrática, o regime ditatorial, onde distribui um manifesto político.
Como consequência da apresentação deste documento à hierarquia militar (onde, além de criticar a falta de liberdade e a guerra colonial, requer o abandono das Forças Armadas)  o Capitão Duran Clemente sofre como “punição” a deportação/mobilização para a Guiné-Bissau onde chegou em Julho de 1973.
Teve então oportunidade de desenvolver o processo conspirativo, já iniciado em Lisboa, logo após a sua chegada à capital guineense.
(Ver publicação sobre o seu desempenho no inicio e desenvolvimento do Movimento de Capitães nesta colónia, no depoimento no Livro Conquistas da Revolução editado pela ACR em 23 de Abril de 2014 ou no seu blogue omirantealmirante2.blogspot.com e no recente livro editado por Jorge Golias)
É aí, em Bissau, que promove a constituição de um dos primeiros núcleos clandestinos e onde se iniciaram reuniões alargadas dos Capitães. Desde a primeira dessas reuniões contou com a presença de alguns militares (que depois ficaram mais conhecidos) tais como Otelo Saraiva de Carvalho, Salgueiro Maia, Matos Gomes, Jorge Golias e Faria Paulino.

O Capitão Duran Clemente é um dos quatro autores da carta subscrita por cerca de cinquenta capitães (em guerra na Guiné) dirigida ao Governo, em Agosto de 1973, pondo em causa o sistema e deixando já antever uma tomada de posição de força.
Só depois deste acto se realiza em Alcáçovas a reunião de mais de 130 capitães no Continente e se iniciam manifestações semelhantes em Moçambique e Angola.
É eleito para a primeira Comissão Coordenadora do movimento de capitães com os capitães Matos Gomes, Almeida Coimbra e António Caetano/Sousa Pinto.

Durante o período de preparação do 25 de Abril é o elemento de ligação ao MFA/Continente, a Hugo dos Santos e Vasco Lourenço, isto é, entre a Guiné e Lisboa.
Promove-se, nessa ocasião (Agosto/Setembro/73)  o alargamento da conspiração à Marinha e Força Aérea.
Destaca-se pela acção intensa que teve no “recrutamento” de militares/capitães, não só do Exército como da Força Aérea e da Marinha, no envolvimento nas acções conducentes ao acto libertador que estando mobilizados na Guiné, iam regressando a Portugal, (no fim das suas comissões de guerra de dois anos) entre Julho de 1973 e Março de 1974.
Exerce também missões de ligação a militares “não profissionais” (milicianos) na fase conspirativa, tais como Barros Moura e Celso Cruzeiro (antigos dirigentes académicos), entre outros, que viriam a ter colaboração significativa no equilíbrio das soluções futuras, já depois da alvorada libertadora.

Duran Clemente com os oficiais organizados tomam o poder também em Bissau e em toda a Colónia, no dia 25 de Abril, colocando nos postos chaves, militares de confiança e integrados no espírito do Programa MFA depois de sanearem e “remeterem” para Lisboa, nos dias seguintes, os oficiais superiores conotados com a ditadura, tais como o General Bettencourt Rodrigues Governador e Comandante-Chefe e outros adeptos do sistema.

Esta atitude na Guiné estava integrada na operação global e serviria sempre de reserva a qualquer eventual malogro das acções então planeadas e a decorrer no Continente.
A tomada de posição na Guiné,felizmente, não foi necessária para se impor como “moeda de troca”, porque a Revolução vingou em Lisboa mas reforçou-a e consolidou-a, sobretudo no referente ao processo pacífico de descolonização. A pressão do MFA da Guiné é importante. A colónia já estava reconhecida como país independente por uma centena de países. Mas Spínola e outros faziam contra-vapor em Lisboa.O processo de descolonização da Guiné iria decorrer sem incidentes sob a chefia de Carlos Fabião e do acompanhamento da coordenação do MFA/Guiné, a partir de 7 de Maio  e até 15 de Outubro de 1974.


Foi no período de transição nomeado pelo MFA para Director do único Jornal “A Voz da Guiné” que se constituiu como mais um agente de dinamização e esclarecimento no processo em curso, sobretudo na cidade de Bissau.

Após a Lei 7/74 (reconhecimento do direito das colónias à independência) e do comunicado conjunto ONU/PORTUGAL (a 4 de Agosto) em que se reconhece a Guiné-Bissau como Estado independente, participa em várias acções de preparação e transferência de poderes no território da Guiné e integra missões de contacto e acolhimento dos primeiros dirigentes do PAIGC, tais como Luís Cabral, Manuel dos Santos, Vasco Cabral, Julio Carvalho, Juvêncio Gomes, Francisco Mendes, Pedro Pires e outros.

Já antes, de Maio a Julho, por acções legitimadas pelo MFA e por Carlos Fabião e pelo decurso dos processos de negociações, de (Londres e Argel) é alvo de perseguição pelo então General A.Spinola, sobretudo depois duma entrevista dada em Agosto,em Bissau, à RTP (a J.Letria) denunciando que militares portugueses e guerrilheiros do PAIGC já confraternizavam com normalidade. Chegou a ser chamado a Lisboa e a receber ordens para encerrar o Jornal; acções a que se opôs o Governador Carlos Fabião que, apesar de considerado militar "spinolista",após chegado a Bissau em 7 de Maio, opta definitivamente pelas posições do MFA.

Como convidado pelo PAIGC esteve, em Madina do Boé, nas comemorações do primeiro aniversário da independência da Guiné Bissau,em 24 de Setembro de 1974.

Com o processo na Guiné resolvido em 15 de Outubro de 1974 (data do regresso a Lisboa do ultimo contingente militar português) o Capitão Duran Clemente regressa a Lisboa onde, com um grupo significativo de oficiais que se tinham distinguido em Bissau, integram a 5ª Divisão  do Estado Maior General das Forças Armadas.
Aí se organizam numa das estruturas mais destacadas no Processo Revolucionário até ao 25 de Novembro de 1975.
O Capitão Duran Clemente foi, nesta estrutura, um dos responsáveis pelo Centro de Esclarecimento e Informação Pública coordenando programas de Rádio e Televisão e integrando a redacção do Jornal quinzenal “ O Boletim do MFA” editado durante um ano ( 25 exemplares ).

Na sua actividade, extra militar,  é ainda em 1974 convidado para Vice-Presidente da Associação de Amizade Portugal / Guiné-Bissau ,associação que viria a constituir-se formalmente em 1977 e a cujo acto eleitoral assiste Pedro Pires. Rogério Paulo e Duran Clemente são eleitos Presidente e Vice Presidente desta Associação.
  
Foi Secretário-geral da Assembleia do MFA sendo dela seu porta-voz depois do 11 de Março e até Setembro/75 (Tancos).
Na data de 11 de Março/75 aos microfones da então Emissora Nacional alerta o País, durante o noticiário das 13.00, da invasão do RALIS e do golpe que Spínola perpetrava.
Os avisos feitos são fundamentais ao alertar os próprios militares envolvidos em eminente confronto junto ao RALIS (paraquedistas e artilheiros).

Está pouco divulgado que por esta acção é dos raros oficiais que no período revolucionário é formalmente “louvado” pelo Chefe do EMGFA e Presidente da Republica /General Costa Gomes.

Mantém-se firme nos seus princípios e convicções no período mais conturbado do PREC, nomeadamente no chamado “Verão quente” revelando-se como “gonçalvista” assumido.

Quis o destino que fosse a última voz do Movimento das Forças Armadas (revolucionário) em 25 de Novembro de 1975, ao defender a revolução nos ecrãs da Televisão.

Após este acontecimento recusou submeter-se ao mandato de captura e ser preso no Portugal democrático.

Esteve ausente do país, exilado em Cuba e na R. P. Angola durante dez meses. Regressou em 9 de Setembro de 1976, foi expulso administrativamente do Exército. Foi reintegrado, quatro anos depois, por decisão Judicial, após amnistia, sendo promovido a Major e posteriormente reformado "compulsivamente".

Três  anos depois de ter sido  aprovada( em 1999 ) a Lei que impôs a reconstituição das carreiras aos militares que pela sua intervenção em 1974 e 1975 foram afastados e “perseguidos”, ascendeu  ao posto de Coronel (reformado) .Posição que deveria ter desde 1991 e que a Lei só repôs em 2002.
  
Exerce, desde 1977, ou seja nos últimos trinta e cinco anos, a actividade de consultor na área de administração, gestão, planeamento e organização  e desenvolvimento regional, tendo apoiado a cooperação portuguesa na Guiné-Bissau onde chegou a ser consultor por parte da Comissão da União Europeia num programa especial de dinamização ao desenvolvimento.

 Antes disso e através dum Gabinete de Estudos Económicos (SNEDE/Sociedade Nacional de Empreendimentos e Desenvolvimento Económico, S.A) foi, entre 1978 e 1987,director de projectos de desenvolvimento. Colaborou ainda em 1980,com Mário Murteira num curso de formação de quadros superiores, em Cabo Verde. 

Foi desde 1991/2011 (durante mais de 20 anos)  colaborador e adjunto  da administração da Câmara Municipal do Seixal.

Foi membro do Conselho de Administração da CDR, Agência de Desenvolvimento Regional de Setúbal. Foi, até à sua extinção (Nov/2014),membro da direcção da Direcção da Associação Parque Industrial do Seixal.Ainda é, sem qualquer remuneração, membro da direcção Ambiental (AEERPPAS) ligada a esta autarquia.

Foi candidato à Assembleia da Republica, pelo círculo de Setúbal pela CDU, em 1999.Em Setembro de 2001,substituiu no parlamento Octávio Teixeira, cedendo esta posição ao candidato seguinte, Bruno Dias.

Foi autarca eleito, durante 12 anos como Presidente da Assembleia de Freguesia em Santa Catarina – Lisboa, pela Coligação PS/PCP.

Foi candidato por esta coligação PS/PCP em 2001 à Câmara Municipal de Lisboa. Em consequência foi Vereador (substituto), na oposição (2001/2005), nesta autarquia.

É membro e activista, fundador do Movimento cívico "Não Apaguem a Memória" tendo sido considerado arguido e julgado (e absolvido) em Tribunal a 21 de Dezembro (2006) por uma acção de protesto, em 5 de Outubro de 2005,  junto das antigas instalações da PIDE/DGS, por se expor, indignado, ao branqueamento do significado da transformação urbanística, ali em curso, em plena Rua António Maria Cardoso, de trágica " má memória". 

Em Março de 2007 foi eleito para a Presidência do CPPA, Conselho Português para a  Paz e Cooperação e reeleito em 2013

É associado, desde a sua fundação, da Associação 25 de Abril.

É fundador da Associação Conquistas da Revolução constituída em 2011, sendo eleito membro da sua Direcção e designado coordenador da sua “Folha Informativa”. Renunciou a estas actividades em Setembro de 2014 tendo colaborado na edição dos livros publicados por esta.

Por ocasião dos aniversários da Revolução já realizou centenas de intervenções em Escolas e Sessões Públicas em autarquias, colectividades e associações por todo o país.

No mesmo sentido fez intervenções junto da emigração portuguesa em Paris, Bruxelas, Espanha, E.U.A, Cabo Verde, Guiné/Bissau e Angola.

É autor do livro “ Elementos para a Compreensão do 25 de Novembro “, Edições Sociais, 1976.
É co-autor do livro “30 anos do 25 de Abril “ (painel  “a conspiração na Guiné”), edição Casa das Letras, 2005,coordenado por M. Barão da Cunha, e da brochura “ O Paradoxo do Militar Libertador: da Guerra Colonial ao 25 de Abril” apresentado na Universidade de Saint Dennis/Paris em 1999.

É autor de diversos  artigos e intervenções na comunicação social, escrita e falada, destacando-se os últimos artigos  "Não Apaguem a Memória -Se arguidos somos todos, todos fomos absolvidos" e "Pode nascer um país" ( do ventre duma chaimite ) este, citando o poeta Ary dos Santos, numa alusão ao país que queríamos ser e ao que somos,"Reconciliação connosco próprios...no 25 de Abril: E hoje? E ainda “Economia Real versus Economia Virtual/O ultraliberalismo Global e a Crise Europeia”, “O estado Social e o Neoliberalismo” e “Urbano Tavares Rodrigues, até já amigo e  texto de homenagem a  Varela Gomes nos seus 90 anos.”

Apresentou à Conferência da Paz/CPPC (7.12.2013) e à Convenção Democrática Nacional (8.12.2013) a comunicação “25 de Abril-Sonho, Luta, Revolução e Esperança”.

Editou recentemente a brochura ”A Guiné, o 25 de Abril e o reconhecimento da sua independência”.

No passado dia 22 de Fevereiro de 2014, por ocasião do 131º aniversário da Voz do Operário, esta instituição, como faz todos os anos, distinguiu-o como sócio honorário e na homenagem de personalidade de mérito do ano“pelo reconhecimento do seu importante papel no desenvolvimento da revolução do 25 de Abril (que este ano comemorava o 40º aniversário) bem como a luta em defesa dos trabalhadores e do povo, pela Dignidade, Liberdade e Democracia.” (citando excerto da carta da Direcção da VO).
Colaborou na edição dos Livros “Conquistas da Revolução” e de “Vasco,nome de Abril publicados pela Associação Conquistas da Revolução, respectivamente em 23 de Abril e 18 de Julho, deste ano de 2014, quando ainda era seu director e membro do grupo de trabalho de edição.
Foi fundador em 1993 e membro da primeira direcção, em 1993 , da Associação “Os Amigos da Fundação das Casas Fronteira e Alorna” entidade cultural prestigiada e é sócio honorário desde 27 de Abril de 2016.!

Continua na sua luta constante de esclarecimento, sob o ponto de vista progressista, sobre os factos políticos nacionais e internacionais, para que a memória não se apague.

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 Abril de 2017


sexta-feira, 17 de março de 2017

Fundação das Casas de Fronteira e Alorna Associação de Amigos da Fundação....

Fundação das Casas de Fronteira e Alorna
Associação de Amigos da Fundação....

Sou sócio fundador e da primeira direcção da Associação Amigos da Fundação das Casas de Fronteira e Alorna..Palácio do falecido Marquês da Fronteira.....Fernando Mascarenhas ,por acaso um antifascista monárquico....onde tivemos reuniões conspiratórias antes do 25 de Abril.O Palácio é a poucos metros dos Pupilos do Exército em S.Domingos de Benfica,onde estudei e de onde partiu a oportunidade de ter uma longa amizade com o Fernando ,sua mãe (seu padastro Arquitecto Frederico George) e avós maternos ,familiares e bons Amigos,e não só, desde 1957...e até 2014 (ano da sua morte).Na ultima AG da Associação dos Amigos -AAFCFA,-em 2016,que tem mais de 20 anos,fui eleito sócio honorário vitalício ,o que muito me honra.



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

OUTRA VISÃO

Texto de ANTONIO RIBEIRO ,que pessoalmente subscrevo inteiramente.MDC.
QUE VIVA CUBA!
« Não me sinto o mais indicado para tecer loas a Fidel Castro. Não é que ele não as merecesse e garanto-vos que merecia mesmo! Liderar um país que era miserável em 1960 contra os interesses da mais agressiva superpotência mundial, e tudo isso a apenas 150 quilómetros de Key West (Miami), que em matéria de valores e de estilo de vida é uma espécie de América ao quadrado, não há-de ter sido nada fácil. É aliás obra de gigante, isso podem crer. Nacionalizar os sectores monopolistas americanos (hotéis de luxo, batota casineira, tráfico de droga, prostituição à escala industrial, banca, produção e distribuição de electricidade e exclusivo das comunicações) sem pagar nada aos donos daquilo tudo foi uma empreitada e pêras! Logo a seguir convém lembrar as tentativas de assassinato, a nojenta aventura da Baía dos Porcos orquestrada pela CIA, a questão irresolvida de Guantánamo e, sobretudo, o escandaloso boicote comercial que deixou o país à míngua de tudo, incluindo os sobressalentes indispensáveis para manter máquinas e equipamentos em estado operacional. Muita gente não sabe, ou já esqueceu, que o embargo não era só anti-Cuba, era também contra todas as companhias do mundo inteiro que teimassem em manter negócios com Cuba, em exportar para Cuba, em voar ou navegar para lá, entidades às quais era automaticamente vedado ter relações comerciais com companhias americanas. Uma chantagem política miserável, inumana e desproporcionada, que pretendia esmagar um povo inteiro e estimulá-lo à insurreição contra os seus dirigentes. De maneira que os EUA transformaram-se eles mesmos, a propósito de Cuba, numa imensa "baía dos porcos". Se a América tivesse querido ser um país decente teria recorrido para os tribunais internacionais, teria negociado nos bastidores diplomáticos compensações adequadas e faseadas no tempo, mas não teria feito o terrorismo de estado que de facto fez contra um povo inteiro. Sim, porque o que a América fez a Cuba, em retaliação pelo facto de ela ter ousado revoltar-se, foi um formidável genocídio social, sem paralelo algum no mundo moderno, seja em intensidade, seja em duração. Neste contexto dramático e violento, que vive de factos que não são propaganda mas absolutamente testemunhados e comprovados ao longo de décadas, não faz qualquer sentido vir agora invocar erros, exageros e violações de certos direitos. Nunca fui esquerdista, sou apenas um social-democrata à esquerda, mas tenho de contextualizar tudo o que aconteceu na Cuba de Fidel para poder valorizar as coisas boas e as coisas más que lá aconteceram ao longo de quase seis décadas. E o saldo que Fidel legou à História é algo de formidável. À cabeça, a noção de que um país não se verga à agressão e que um povo unido jamais será vencido. Nós conhecemos esse slogan em Portugal, mas lá é que ele fazia todo o sentido, na pureza integral das ideias e dos ideais. Mas há muito mais. À falta de direitos económicos e a impossibilidade prática de empreendedorismo privado, Fidel respondeu da única maneira possível num estado sitiado: construiu um sistema de educação gratuita, um sistema de saúde gratuita, um sistema em que todos tinham direito a um tecto para viver. Chama-se a isso direitos sociais, que não substituem os outros direitos transitoriamente comprimidos, mas que não são menos importantes do que os direitos das liberdades abstractas, que em certas condições políticas e sociais não servem para nada. Fidel encostou-se à antiga URSS? Pois sim, mas que alternativa tinha ele, se ele não aceitava capitular? Fidel não foi gentil com os seus opositores, mas que alternativa tinha ele se não queria entregar o poder ao inimigo? Cuba é um caso à parte no panorama internacional. Leiam o livro magnífico da filha do chefe da PIDE de Salazar que emigrou para Cuba e lá teve uma vida de mão cheia em termos de sucessos pessoais e profissionais. Leiam que Silva Pais (o chefe da PIDE de Salazar) teve autorização para ir visitar a sua filha em Cuba, não obstante a extrema diferença ideológica entre ambos os regimes. Eles não impuseram que a Filha não contactasse com os seus Pais! Falem com as elites das sociais-democracias escandinavas, que tanto ajudaram Cuba e Fidel, e percebam por que motivo dirigentes políticos que nada tinham de "comunistas" sempre acarinharam e apoiaram o regime cubano, mesmo enfrentando o desagrado americano. Neste momento histórico, e mesmo tendo presente que algumas coisas desagradáveis não precisavam de ter acontecido, eu vos digo: Que Viva Cuba! E parabéns a Fidel, que deixou uma marca indelével na História. A marca de independência nacional, da resistência ao imperialismo e da autonomia política dos povos. Que grande lição ele nos deu!» António Ribeiro.
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Obs.1- Em 1975 a filha de Silva Pais esteve em Portugal com o poeta Cubano N.Guillên.Tive o prazer de os conhecer e termos ido a Évora comer um ensopado de borrego e ver de perto as transformações no Alentejo….o resto depreende-se! MDC.

Obs.2-Em Janeiro de 1976,após o 25 de Novembro, embarquei para Havana na sua companhia aérea, a partir de Madrid, com Varela Gomes e Costa Martins e fomos muito bem recebidos como exilados. .Onde permanecemos durante mais de uma mês até chegarmos a Angola.Em Cuba vivia-se muito melhor que nas antigas colónias espânicas….MDC

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Guerra Colonial A operação "nó górdio"do século vinte e um!

Simplesmente GUERRA!
A operação "nó górdio"do século vinte e um!
 
apontamento sobre os "prós" dos "contra" a Liberdade,
ou como se vive uma época de mistificação e manipulação!
 
Não é o facto de ter caído numa armadilha, ao ter aceite o convite para estar presente, no último programa da RTP "prós e contras" que me obriga a este apontamento. É um desabafo e uma preocupação, sobre como no mundo de hoje é fácil para alguns mentir e branquear e para outros dialogar, apresentar elementos históricos provados e até poderem explicar com serenidade as causas da distorção, do erro, do engano ou maldade alheia.
 
O desabafo:
 
O formato e condução do programa não são sérios. Não vale a pena o eufemismo de referir isenção ou neutralidade, porque há muito esses princípios andam arredados de muito jornalismo escrito, falado ou televisionado!
Quem viu o programa, em causa, do passado dia 15 de Outubro terá constatado o favoritismo escandaloso entre, não só, o número dos escolhidos ou convidados "pró-guerra" e os de opinião contrária, como o tempo de antena dado a uns e o retirado (ou não dado a outros) pela moderadora (!?).
 
É preciso ter nervos de aço ou ser profissional da manipulação (ignorante) para não se ficar perturbado ao ouvir tanta distorção histórica, por parte de intervenientes zangados com o 25 de Abril e até ouvir um Embaixador, como o da Guiné-Bissau"reduzir o massacre das docas de Pidjiguiti (em Junho de 1959) em Bissau a uma mera reivindicação laboral. Não sabia que um dos principais activistas tinha sido Carlos Correia (mais tarde Ministro das Finanças e Primeiro Ministro), então trabalhador da Casa Gouveia (...não é nome que esqueça a um guineense com estas responsabilidades...) e ainda fui eu que (sentado próximo do Sr. Embaixador) tive de lhe servir de "muleta", ao sussurrar-lhe o nome desse "homem grande" e activista dessa greve, pessoa humilde, íntegra e patriota com quem tive o gosto de trabalhar e conviver durante dez anos de Cooperação em Bissau (desde o final dos anos 70 até ao dos anos 80).
 
Quem é que escolheu esta personagem? Este Sr. Embaixador que não sabe que Pidjiguiti representa mais de 50 mortos, de uma centena de feridos, dos sobreviventes deportados para S. Tomé, e que um mês e meio após este acontecimento ("apenas laboral" no dizer do Sr. representante de Bissau), já com Carlos Correia (e outros que conseguiram fugir) e juntar-se aos nacionalistas, comandados por Amílcar Cabral, a Direcção do PAIGC (ainda só P.A.I., ou seja, Partido Africano para Independência) abandonou a «acção política e social» e declarou -se a favor da luta conta o colonialismo português «por todos os meios possíveis incluindo o da luta armada» .Lê-se em declarações de Amílcar Cabral «a luta armada era a única resposta à força das armas e a acção não deveria ser desencadeada nas cidades... mas antes privilegiar a força camponesa». E foi o que aconteceu com escolas de formação, para quadros políticos, instaladas junto da Direcção política, no vizinho país, em Conakry.
 
«O ensino militar que vocês receberam, as armas que os colonialistas vos deram para matar a nossa gente, o material de guerra e as munições que estão em quartéis à vossa guarda. Tudo isso pode ser posto ao serviço da luta de libertação dos nossos povos. Estamos seguros de que é o que vocês vão fazer, com prudência, com cuidado e inteligência...» mensagem de Amílcar Cabral, em Outubro de 1960. Com o pseudónimo de Abel Djassi.
 
Numa outra mensagem aos colonos portugueses, Cabral avisa, «...o colonialismo português tem os dias contados e vós sabeis isso muito bem. Não deveis consentir, como homens conscientes, no absurdo de amarrar o vosso destino ao destino do colonialismo português....»
 
Ainda em 15 de Novembro o P.A.I. dirige-se ao governo português num memorando: «a via pela qual vai ser feita a liquidação total do colonialismo português... depende exclusivamente do governo português. (...) Ainda não é tarde para proceder à liquidação pacífica da dominação colonial portuguesa nas nossas terras. A menos que o governo português queira arrastar o povo de Portugal para o desastre de uma guerra colonial».
 
Não adivinhava Amílcar Cabral que esta característica de negociador (verdadeira ou insinuada) lhe iria ser fatal. Da facção militar guerrilheira, mais ortodoxa, sedenta de Poder, iria sair o plano para o matar em Janeiro de 1973, instigados ou não pelo boato, lançado pelas hostes spinolistas, de que ele, A. Cabral e Aristides Menezes, queriam ou teriam querido negociar.
 
 
 
A preocupação
 
Acrescento uma preocupação sobre os episódios que estão a passar, na RTP 1, sobre a Guerra (do Ultramar, Colonial ou de Libertação... ai.... a semântica e a dificuldade de passados 33 anos ainda haver quem tenha medo de chamar "os bois pelos nomes!!!")
 
Espero que a frase do Joaquim Furtado, que tenho como um profissional sério e íntegro, (na apresentação da síntese dos nove primeiros episódios, a que alguns de nós assistimos na própria RTP, na tarde de 15 próximo passado." ...de ter procurado, na realização dos filmes, não ferir susceptibilidades..." não resvale, no receio de magoar os responsáveis (quer da altura quer os seus correligionários actuais) exactamente aqueles que nos atiraram para aquela desgraça de treze (ou mais anos) e que ainda tentem "desonrar" o nosso 25 de Abril...como lastimavelmente esteve à beira de acontecer no famigerado programa dos "Prós e Contras" da passada segunda-feira, com a convergência dos factores já descritos no meu desabafo.
 
Entre os dislates ouvidos de saudosistas e conservadores ignorantes, destaco um que nos diz especial respeito. Alguém pretendeu pôr em causa a honorabilidade do nosso 25 de Abril, procurando apagar as suas verdadeiras razões para justificar a sua argumentação "revanchista" e falsa, com o argumento, de que só se fez o 25 de Abril por uma questão corporativa, por causa do Decreto-Lei 353/73...
Ora... Quantos de nós, já antes do decreto, havíamos começado a sentir a necessidade de acabar com a impostura???
 
Lembro-me do desabafo, já em Nacala — Moçambique (1970) — no navio Niassa, quando cerca de dez capitães, que eu já tinha visto passar por Nampula, acabados os mais de dois anos de guerra colonial, preparados para regressar a Lisboa, são forçados a interromper tal esperança e chamados (por Kaúlza) a regressar "ao mato" para integrarem a Operação "Nó Górdio"... perante o meu espanto, exclamaram: TEMOS DE ACABAR COM ISTO, ANDAM A GOZAR CONNOSCO...!!!
 
Lembro-me dos capitães que a partir de 1965, e particularmente após Maio de 1968, começam a informar-se mais e a dialogar melhor com a sociedade civil e com os alferes milicianos, enquadrando nas suas consciências as contradições do Regime, das revoltas abafadas desde 1927 até 1961, Chaves, Porto, Lisboa, Madeira, Beja. Das personagens Norton de Matos, Sousa Dias, H. Delgado, H. Galvão, e tantos outros.... Da efectiva mentira e da ficção do Grande Império (perdido a partir de 1580, mais perdido ainda depois de 1820 (Brasil), praticamente nas mãos da estratégia dos Ingleses, já desde 1640 - como paga da aliança primeiro contra Castelhanos e depois contra Franceses – e mais acentuadamente, a partir do século dezanove, proibindo o "mapa cor-de-rosa" e escoando e coordenando a exploração dos minerais, café, chocolate, chá... algodão, tabaco... portos e caminhos-de-ferro... etc. ... deixando "umas sobras para português ver" a algumas famílias nacionais, tudo isto com a benevolência dos nossos Ministros da Colónias e outras dignas altas esferas). Lembram-se que em Moçambique até o trânsito se fazia pela faixa esquerda como no Reino Unido???
 
Império sem gente, sem poder, sem motivação desenvolvimentista, sem meios materiais e sequer bélicos!!! É o que se encontra no princípio do século vinte, antes das ditas "guerras da pacificação" (1920/1930).
Timor -Leste, pouca gente se lembra, esteve nas mãos do Japão e da Austrália, mais de quatro anos de 1941 a 1945.
Pouco ou nada muda até o pós Segunda Grande Guerra.
As fronteiras das colónias são então demarcadas. A Casamança, dita portuguesa, na Guiné, passa para o Senegal, é trocada por uma parcela de pedras, a Leste, perto de Konakry, por despacho dum alto dirigente português a troco dum bairro em Paris.
Os países coloniais começam a resolver politicamente as inevitáveis descolonizações.
 
As "nossas" parcelas da Índia são defendidas com "chouriços" e não fora o bom senso de Vassalo e Silva teria havido um massacre inenarrável. Efectivamente, nem armas havia e quando alguns caixotes são abertos, felizmente são mesmo chouriços e outros produtos congéneres que se encontram. Conta quem lá esteve.
 
A Guiné estava na mão da CUF (Casa Gouveia) e o seu povo na miséria continuava. As riquezas exploradas, mancarra, arroz e cajú não davam para fazer escolas, hospitais, estradas, etc.. O desenvolvimento era nulo. (Estive lá, antes e depois da Independência)
 
Cabo-Verde tinha metade da população emigrante! (igualmente conheci, antes e depois da Independência)
 
S. Tomé e Príncipe vivia de "escravos" que alimentavam as roças dos senhores. Sendo das terras mais bonitas que já alguma vez conheci (estive lá em 1962) nem sequer as riquezas do café ao cacau e frutas serviram para desenvolver. E o turismo tinha a desculpa do paludismo e do clima equatorial.!!!! Leia-se o livro o Equador de M. S. Tavares e já entenderão porque é bom não esquecer os nosso velhos "aliados ingleses" e um pouco do que era a realidade, agora ficcionada pelos saudosistas.
 
 
Era este o Império onde em Angola (14 vezes maior que Portugal) em 1960 havia 1.500 militares portugueses e cerca de 5.000 africanos integrados. Onde o desenvolvimento à semelhança de Moçambique (nunca sustentado nem coerente com as potencialidades naturais) começou a dinamizar-se com o início da Guerra Colonial. Era precisa autorização do Terreiro do Paço para tudo e para nada, com medo da independência Branca e Unilateral. Também conheci estas duas colónias antes e depois das suas Independências. Até para uma "barragem agrícola" era preciso licença de Lisboa... Assisti a isso.
 
Os capitães, da geração do 25 de Abril, foram sabendo isto e muito mais, nas três frentes de combate. As grandes potências tinham ou estavam a perder as guerras semelhantes (Indochina, Argélia, Vietname) e a célebre APSIC (acção psicológica) colocou o capitão muito próximo do então "terrorista". Na quadrícula, o capitão não era só chefe militar no terreno, era uma personagem com um vasto leque de missões de carácter civil. Nesse entrosamento apreendeu e aprendeu que o verdadeiro inimigo estava no Terreiro do Paço. Viu de perto, durante excessivo tempo, o que certos saudosistas, já não inebriados "com a cruz e a espada contra o sarraceno" não quiseram ver porque não arrancaram a armadura vestida nos quartéis (antigos conventos) e talhada com atributos "moralizadores, pedagógicos e cívicos" para o cumprimento de missões transcendentes, defender uma legalidade constitucional e garantir a independência da Nação, una e indivisível. Isso substituiu o que se perdeu de "teológico" (a cruz e a espada). Há que compreender que o "velho" militar, que tal assimilou, dificilmente possa desconstruir em si esta assimilação, sentimento, dinâmica ou vulgo "lavagem ao cérebro". A culpa não terá sido sua mas do sistema. Quase me arriscava a solicitar a condescendência.
 
Lembro-me de capitães e primeiros-tenentes que encontrei no Congresso do MDP/CDE em Aveiro, em Março de 1973, e dos que já antes se interrogavam, na hipótese de acção, mesmo em 1969.
 
Lembro-me de ter chegado a Bissau, por castigo, e de ter começado, no dia seguinte, com outros capitães, a conspirar, sem saber da existência de Decreto nenhum. Não vou negar hoje que a saída deste célebre 353/73 nos deu jeito, mas como é que ele era corporativo se só dizia respeito às Armas de Infantaria, Cavalaria e Artilharia? Foram só os capitães destas que se revoltaram? Claro que não.
Desde logo se solidarizaram outros capitães e equivalentes de outros Ramos da FFAAs. Capitães de Engenharia, Administração, Transmissões, Saúde, Material, etc... e da Marinha e Força Aérea, no sentido de em conjunto se aprofundar o que estava em causa.
E o que estava em causa?
Uma Guerra perdida politicamente, porque os políticos não estavam nem com os ventos da História nem com o povo (e deste nós, os militares de carreira, com duas, três ou mais comissões, fora do ar condicionado, cansados da mentira e da hipocrisia... e bem assim os conscritos desmotivados e acomodados).
 
Enfim muito para dizer e que já é repetição. Mas as novas gerações merecem a Verdade.
 
Citando Alexis de Tocqville convém não esquecer que "as revoluções que triunfam fazem desaparecer as causas que as produziram e tornam-se por isso incompreensíveis para as novas gerações".
 
Isto para dizer que se assim for e se os episódios de Joaquim Furtado se remeterem apenas ao seu profissionalismo de contar uma «história» sem o devido enquadramento Histórico, ou seja, se estiver em perigo essa Verdade e ousar-se o branqueamento do trágico erro Histórico que foi a Guerra Colonial e da ficção do Grande Império, julgo que a A25A não pode ficar calada.
 
É uma especulação académica, um exercício de estilo, discutir se foi Guerra do Ultramar, Guerra Colonial ou Guerra da Libertação.
Para mim, foi guerra Colonial. Mas o mais importante é que foi uma guerra ordenada e mantida por um governo retrógrado, liderada por um chefe rural e retrógrado que tão mal fez a Portugal... cujos efeitos nefastos ainda hoje se sentem.
Os povos em confronto ganharam a guerra da Liberdade... mas ainda não ganhámos (lá e cá) a Guerra da Igualdade e da Fraternidade.
É aí que está um verdadeiro "NÓ GÓRDIO do século XXI.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

INTERVENÇÃO NA RTP em 25 de NOVEMBRO DE 1975 no telejornal (interrompida)


INTERVENÇÃO NA RTP em 25 de NOVEMBRO DE 1975 
(1.-O texto é uma recolha dos autos do tribunal e correspondem, mais ou menos, ao improviso feito pelo Cap. Duran Clemente entre as 20h30 e as 20h49 daquele dia no Telejornal .
2.-Durante a tarde deste dia, às 15H00, forças militares da Escola Prática de Administração Militar, coordenadas pelo Cap. Duran Clemente, então 2º Comandante daquela unidade, facultam o acesso aos “ecrans” a uma comissão de Para-quedistas, do Regimento de Tancos, com a intenção de esta explicar a razão da sua operação efectuada na noite anterior na Região Centro, considerada apenas de tomada de posição contra o seu Chefe do Estado Maior.)


1.     A.   Improviso dito no Telejornal:


“Infelizmente a RTP não está a ser ouvida em todo o país. Isto acontece porque o emissor da Lousã já está a servir os estúdios do Porto. Há um corte feito por via administrativa e determinado não sei bem por quem!

Relativamente à antena de Monsanto ( Lisboa ) tivemos noticias de que haveria movimentações dos Comandos ( de Jaime Neves ) para, no local, ela ser desligada e na sequência ser interrompida a emissão destes estúdios.

Aqui ( nos estúdios da RTP/Lumiar ) a situação é calma e as forças militares estão perfeitamente dispostas a defender aquilo que é de todos nós, sobretudo do povo trabalhador!

Contrariamente a determinadas insinuações e calúnias, é evidente que não pretendemos a desordem, não pretendemos a falta de autoridade, não pretendemos a indisciplina…nada disso!

Pretender uma sociedade socialista não é querer a sociedade da “tanga” ou uma sociedade de austeridade inconfortável ou da anti-cultura ou de tudo quanto se difunde pejorativamente…

Isso é um completo disparate, propalado por forças de direita (por forças da reacção), com o intuito de impressionar os portugueses… Mais uma vez especular e explorar a falta de consciência política. Enfim, aproveitar o obscurantismo de tantos anos…  de tantos anos em que o fascismo manipulou o povo português.

Temos de acabar, de uma vez para sempre, com estas especulações; com esta outra face da exploração, que é mais uma forma de repressão do povo trabalhador português.

Nós queremos, de facto, a ordem democrática, a disciplina consentida, uma disciplina revolucionária, uma autoridade não-repressiva.

Queremos sobretudo que as novas estruturas, que as transformações neste processo, sejam criadas sob o ponto de vista dos explorados, sob o ponto de vista dos trabalhadores… isto é, sob o ponto de vista duma maioria que são efectivamente os desfavorecidos face a uma minoria que são (ou têm sido) os exploradores, seus intermediários ou seus lacaios.

É importante que as pessoas tenham consciência disso!

Queremos também que não haja mais ambiguidades neste processo. Que se clarifique, de uma vez para sempre, o MFA ( um MFA que tem sido ambíguo ), um MFA cheio de contradições… através das quais se tem afastado cada vez mais das metas a que se propôs.

Não é recuando…

É não ter perspectiva histórica, não ter uma perspectiva revolucionária. Não podemos continuar a recuar para atingir o objectivo de uma sociedade socialista.

O que nós vemos é que ainda há estruturas… ainda há organismos onde existem reaccionários muitas vezes até sem querer sê-lo, sem consciência disso, mas que objectivamente o são. Pessoas que por estarem em determinado lugar através da sua acção: através dos papeis, através das burocracias boicotam muitas vezes até o que já foi decretado pelo Governo.

Nós sabemos que muitas das pessoas, muitos dos pequenos e médios agricultores, muitos dos pequenos e médios comerciantes têm sido postos contra o processo revolucionário português. É preciso ter a perspectiva de que não são os erros das forças progressistas que põem as pessoas contra o processo.

Quem o faz é a acção da “reacção”: é a direcção internacional capitalista. Esquecemo-nos que ela existe? Existe e actua… e aproveita-se, neste País, da ingenuidade, da falta de consciência de muitos de nós e, sobretudo, dos problemas e das alienações, dos vícios e das mentalidades dos próprios militares e, até dalguns dos oficiais do MFA, quando constituídos como sua vanguarda: a das Forças Armadas.

O MFA não era mais do que uma vanguarda das Forças Armadas contendo oficiais com determinado grau de consciencialização politica… mas muitos outros não tinham qualquer consciencialização política.

No 25 de Abril o MFA tinha oficiais que sabiam o que era o Socialismo ou a Democracia, mas tinha, muitos que não sabiam o que isso significaria…. Por isso, posso dizer, alguns atingiram o seu “princípio de Peter”, como se costuma dizer, isto é, atingiram o seu limite de competência revolucionária.

Isto não pode ser!

Para bem do povo português, para que efectivamente o processo revolucionário prossiga, há necessidade que as coisas se clarifiquem e que aqueles ( sobretudo os oficiais ) que não são capazes, se atingiram o tal limite ( essa competência )… têm que se afastar dele…

E não podemos permitir que seja nos gabinetes, que seja pela via administrativa………”

( … um técnico da RTP: começa a fazer sinais do lado das câmaras… ) (1)

“Estão-me a fazer sinais, eu não sei se posso continuar… (… dirigindo-se ao locutor, ao pivot” António dos Santos…) … não posso continuar a falar por razões técnicas é isso!?! Não posso?!? Não posso continuar a falar por razões técnicas? Então continuo daqui a pouco, não poderá ser?! Estava aqui a ser … a minha intervenção estava a ser  perturbada pelos sinais dos técnicos… acho que devemos explicar às pessoas com naturalidade… não é verdade?”

(… locutor/pivot, António Santos: - Perturbar no sentido de elucidação!... )

“Tecnicamente eu não posso continuar a falar. Continuaria porque gostava de desenvolver este tema. Até para explicar melhor qual é a nossa posição e o que nos trouxe aqui. Está certo?”

(…António Santos: - Não sei, não sei, realmente qual é o pormenor que neste momento pode limitar ou não…)

[A emissão é transferida para os estúdios do Porto através da actuação técnica a partir da antena de Monsanto ( Lisboa ) já sob o controlo dos Comandos, após ter sido capturado o colaborador da RTP que possuía a “chave técnica” para a operação.]

Observações:

(1)                - Este colaborador da RTP que estava de serviço na antena, em Monsanto, contactou um colega dos estúdios do Lumiar, solicitando-lhe para avisar o Capitão Duran Clemente de que não conseguia manter-se escondido por muito mais tempo e que a emissão iria ser transferida para o Porto logo o apanhassem. É esse o significado dos sinais, feitos do lado das câmaras (que filmavam) que levam à perturbação da intervenção supra descrita.

(2)                - Aliás em comunicado feito na RTP muito antes do Telejornal, Duran Clemente havia dito ,mais do que um vez:

            “ Queria também esclarecer o Povo português, que está preocupado ao ouvir-     nos, que nós, aqui no Lumiar, estamos perfeitamente bem. É provável que nos silenciem a antena, a partir de Monsanto. Não sabemos o que se passa…. Se, efectivamente, deixarmos de estar nos “ecrans”, é porque a antena ( em Monsanto) foi neutralizada.

Não se trata de neutralização(ou prisão) do pessoal que está aqui nos estúdios no Lumiar. Quem aqui está pretendia apenas que a voz dos trabalhadores não fosse silenciada.


Apelo para a serenidade, para a vigilância revolucionária, inteligente e serena de todos os trabalhadores. Unidos venceremos!. “

Cap. Duran Clemente                                         25 de Novembro de 1975


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B.-Um pouco de história (uma síntese) contada hoje


Os capitães para “fazerem” o 25 de Abril tiveram que se organizar. Uma das bases dessa capacidade foi a estreita unidade conseguida em torno dum objectivo, com duas razões:

  * acabar com a Guerra Colonial
  * libertar o país da Ditadura:

Uns, mais pela primeira das razões e outros, pela segunda que implicava a concretização da primeira.
Essa tarefa de agregação de esforços e de vontades, entre os militares, começou a tomar forma mais consistente em meados do ano de 1973,depois do Congresso do MDP/CDE em Abril (Aveiro) e sobretudo depois da contestação “dos futuros capitães do MFA” ao Congresso dos Combatentes em Junho (Porto) e à publicação do célebre Decreto-Lei nº353/73.

Os núcleos dinamizadores desta contestação formaram-se com especial significado na Guiné-Bissau e em Portugal, espalhando-se imediatamente por Angola e Moçambique. Como os militares acabavam as suas missões nas colónias e outros partiam para elas, o intercâmbio entre este movimento, cedo se tornou uma realidade séria e no final de 1973 estavam os capitães decididos a derrubar o sistema, a ditadura!
Não sem que muitas peripécias tivessem acontecido, até se chegar ao dia da Liberdade, mas foram controladas e neutralizadas ou asfixiadas pela organização e unidade do MFA. Sobre isso está quase tudo escrito. Quase…!

Alguns dos sobressaltos havidos antes do 25 de Abril de 1974, curiosamente, já eram um indicativo do que haveria de vir a acontecer entre o 25 da Abril (74) e o 25 de Novembro (75), muito em particular no que concerne à tão falada e propalada (e verdadeira) divisão entre os militares…!

Spínola já fazia avançar os seus homens…para travar os objectivos mais amplos do MFA. Otelo (que começou a conspiração comigo e outros [Salgueiro Maia, por ex.], em Bissau) já denunciava algumas das suas características, e entre os futuros “ MeloAntunistas” e “Gonçalvistas “ era nítida a influência de posições ou simpatias ideológicas, do tipo confronto MDP/CDE(PCP) e CEUD(PS).Duas correntes que conseguiriam estar unidas em questões essenciais…até 28 de Setembro mas cujo percurso comum iria  acabar…e acabou quando, no ultimo trimestre de 1974, resolvida a estratégia Politica (democratização e descolonização) se teve de acertar o passo na estratégica Económica (desenvolvimento)…. E não se conseguiu.

Agudizou-se com a reprovação do Plano Económico Melo Antunes/SEDES…em Fevereiro de 1975 e veio a ser mais contundente com a provocação da “Spinolada” do 11 de Março…que permite aos Gonçalvistas e forças politicas aderentes (mas também aos mais radicais, Otelistas e outros) tentar avançar com os seus projectos de cariz muito mais revolucionário. Nasce o Conselho da Revolução, avançam nacionalizações de sectores fulcrais, a tentativa de uma reforma agrária a sul do país e tenta-se que um projecto inovador, de cariz sócio/politico, tenha pernas para andar.  

Com as eleições para a Constituinte…em que o MFA, com alguma ingenuidade, se faz promotor do SOCIALISMO…(ver cartazes da época) veio a vitória nas urnas dos socialistas, a surpresa(?) de poucos votos para os comunistas e de um nº significativo para os partidos da direita…(revelando um pouco a consequência do obscurantismo e dos fantasmas de meio século de ditadura e de forte influência do clero e de caciques regionais) .
Mas a Democracia representativa é isto mesmo…!!!
Só que a esta democracia respondiam outros ânimos que consideravam (mal ou bem) não dever perder, nos actos burocráticos e formais, aquilo que “as portas de Abril” lhe tinham aberto.

Respirava-se, sentia-se… que os poderosos, que haviam perdido privilégios, se organizavam para os recuperar…e tudo iriam fazer, com justificações habilidosas (entre as quais o papão do comunismo e da guerra civil)…e tudo fizeram para colocar os militares do MFA à zaragata, uns contra os outros, não sem a forte colaboração dos militares(quarta corrente) os “spínolistas” e os que tinham estado de fora da conspiração e da acção libertadora.

Todo o chamado Verão quente é incendiado por acentuada dissidência entre os que queriam reformas profundas no sistema e os que se contentavam com uma leve brisa de revolução…
Uns entenderiam que as organizações de base populares, em são convívio com os partidos e uma disciplina militar consentida, poderiam ser os pilares da arquitectura dum sistema político-social outros satisfaziam-se com  os modelos tradicionais duma Europa…mais rica e preparada.

Em paralelo aos avanços revolucionários dos governos de V.Gonçalves caminhavam os militares “ditos moderados” e a eles se juntaram todas as forças políticas das mais conservadoras (provocadores, extrema-direita, saudosistas, etc.) às mais de centro-esquerda …(onde caberiam muitas e diversas tendências com graus de consciencialização política díspares).

A partir do momento que se permite que a direita e os saudosistas do passado cavalguem a seu belo prazer e [ com apoio directo e/ou indirecto dos militares “ditos moderados”(onde já cabe tudo)] iniciem uma “cruzada” contra os partidos mais à esquerda paradoxalmente também começam (os mesmos/a direita) a propalar a iminência dum golpe de esquerda…(a criação duma comuna de Lisboa,etc.etc.!!!)…

Tal ideia parece não ter sentido, mas tem!
Estava criada a justificação para se preparar exactamente o golpe contrário. Chamar-se-ia um golpe de defesa para rechaçar o outro. E tudo se preparou.

Basta ler o livro editado em 1976 pelo Comandante Gomes Mota A Resistência/Verão Quente”.Este conta todos os pormenores. E nos anos mais tarde Melo Antunes, Jaime Neves, Ramalho Eanes e mais recentemente Vasco Lourenço e Sousa e Castro não se coíbem de narrar pormenores.

Vasco Lourenço (V.L.) afirma que (os preparadores do golpe defensivo) não tem outros objectivos se não os de conseguir que a Assembleia Constituinte culmine os seus trabalhos. Que os objectivos divulgados de:
- afastar Fabião e Otelo, controlar o SDCI(Serviço de Detecção e Controlo de Informação) ,criar o AMI(Agrupamento Militar de Intervenção/órgão superior ao COPCON),destruir a 5ªDivisãoEMGFA,alterar a politica com o MPLA, controlar a comunicação social, resolver os casos Republica e Renascença, eram os objectivos dum plano designado “o Plano dos Coronéis”.

Mas à pergunta da entrevistadora (ver páginas 501 e 502 do seu livro, do “Interior da Revolução”- de Tancos ao 25 de Nov.) de quem eram os Coronéis, ele responde:” «Ramalho Eanes, Tomé Pinto, Aurélio Trindade, Loureiro dos Santos, o José Pimentel e todos os que se vêm a envolver no 25 de Novembro, que estavam no grupo Militar.” …. “as pessoas eram as mesmas. Porque diz então que não eram o mesmo plano?”  Retorquiu a entrevistadora.
Resposta de V.L.:«Pela nuance que já lhe referi. No 25 de Novembro, não assumimos a iniciativa de ataque..»


Como se vê esta justificação não colhe…

E quem dá o pretexto para que este golpe se efectue : seria a saída dos Páraquedistas de Tancoos? É de facto.


Mas é também isso que os páraquedistas tentam explicar na RTP no dia 25 de Novembro, à tarde, quando me pedem para lhes facultar o acesso à RTP em Lisboa.

Para eles era uma mera reivindicação e manifestação contra o seu CEMA, Chefe do Estado Maior da Força Aéra, General Morais Silva e que aliás é explicada no comunicado que emitiram a 27 de Novembro em Tancos!

Quem os faz sair ???
Numa entrevista, há dez anos, ao Público V.L. diz que Otelo lhe confessou ter sido ele. Mas mais tarde nega.

Mas esta é uma falsa questão.
A questão é que a esquerda não tinha em preparação qualquer golpe. Mas ao invés o outro lado tem.

A questão é que os poderosos de então ( da mesma família dos poderosos de hoje)tiveram o braço amigo de uns quantos imprudentes e de todas as forças reaccionárias  nacionais e internacionais; tudo fizeram para travar a genuína REVOLUÇÂO PORTUGUESA e iniciaram um processo que podia estar para o 25 de Abril como o 28 de Maio de 1926 esteve para a 1ª República…e só não foi assim porque os tempos e as circunstâncias  eram  muito diferentes.E ainda porque alguns militares se deram conta dos perigos que eles próprios corriam…e conseguiram travar fortes ímpetos de vingança. É disso paradigmática a intervenção  de Melo Antunes e a acção de militares do MFA do grupo moderado: Vasco Lourenço, Pezarat Correia, Pinto Soares, Victor Alves, Mário Crespo, Franco Charais e outros.

E não foi isso, também, porque as forças progressistas não desistiram nem desistem e têm lutado com todas as suas forças e os meios disponíveis…apesar da insistência com que o sistema capitalista selvagem e predador, com as suas manhas e capacidades, tenta abafar e liquidar a nossa liberdade ,matar o nosso 25 de Abril…que teremos de abnegadamente fazer e reconquistar dia a dia!!!

Há vitórias, há derrotas…nas batalhas…uma guerra ganha-se lutando…



Manuel Duran Clemente                                        25 de Novembro de 2011



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