sábado, 1 de fevereiro de 2014

UCRÃNIA : as opções

UCRÂNIA: "A opção europeia será também a opção militar a favor da NATO"


*por Jean -Marie Chauvier [*]
<http://resistir.info/varios/ucrania_27jan14_p.html#asterisco> entrevistado
por Jean Pestieau *

*Quais são os problemas económicos enfrentados pelo povo ucraniano,
principalmente os trabalhadores, pequenos agricultores e desempregados ? *

Jean-Marie Chauvier: Desde o desmembramento da União Soviética em 1991, a
Ucrânia passou de 51,4 para 45 milhões de habitantes. Esta diminuição
deveu-se a uma baixa da natalidade, um aumento da mortalidade, em parte
devido ao desmantelamento dos serviços de saúde. A emigração é muito forte.
Cerca de 6,6 milhões de ucranianos vivem hoje no exterior. Muitas pessoas
no leste da Ucrânia foram trabalhar para a Rússia, onde os salários são
sensivelmente mais elevados, enquanto os do oeste são mais dirigidos para a
Europa Ocidental, por exemplo, em estufas de Andaluzia ou no sector da
construção em Portugal. A emigração faz entrar por ano na Ucrânia, 3 mil
milhões de dólares.

Enquanto o desemprego é oficialmente de 8% na Ucrânia, uma parcela
significativa da população vive abaixo da linha de pobreza: 25%, de acordo
com o Governo, até 80 % de acordo com outras estimativas. A pobreza
extrema, acompanhada de desnutrição é estimada entre 2 e 3 % até 16%. O
salário médio é de 332 dólares por mês, um dos mais baixos da Europa. As
regiões mais pobres são as áreas rurais no oeste. As ofertas de emprego são
baixas e limitadas no tempo.

Os problemas mais prementes são agravados pelos riscos de assinar um acordo
de livre comércio com a União Europeia e a implementação das medidas
recomendadas pelo FMI. Existe, portanto, a perspectiva de encerramento de
empresas industriais, especialmente no Leste, ou a recuperação,
reestruturação e desmantelamento pelas multinacionais. No que diz respeito
à terra fértil e à agricultura, está no horizonte a ruína da produção local
que é actualmente assegurada pelos pequenos agricultores e sociedades por
acções, herdeiros dos colcozes e com a chegada em grande das multinacionais
agro-alimentares. A compra massiva de terra rica vai acelerar-se. Assim
Landkom, um grupo britânico, comprou 100 mil hectares e o *hedge fund *russo
Renaissance comprou 300 mil hectares.

Para as multinacionais há, portanto, bons nacos a apanhar: algumas
indústrias, oleodutos, terra fértil, mão-de-obra qualificada.

*Quais são as vantagens e desvantagens de uma aproximação com a União
Europeia? *

JMC: Os ucranianos - em primeiro lugar a juventude - têm o sonho da UE, a
liberdade de viajar, as ilusões de conforto, bons salários, prosperidade,
etc. Sonhos com os quais os governos ocidentais contam. Mas, na realidade,
não é questão da adesão da Ucrânia à UE. Não é questão de livre circulação
de pessoas. A UE oferece poucas coisas, apenas o desenvolvimento do
comércio livre, a importação maciça de produtos ocidentais, a imposição de
normas europeias nos produtos que podem ser exportados para a UE, o que
levanta barreiras formidáveis para a exportação ucraniana. A Rússia, por
sua vez - em caso de acordo com a UE - ameaça fechar o seu mercado a
produtos ucranianos. Moscovo ofereceu compensações tais como a baixa de um
terço dos preços do petróleo, uma ajuda de 15 mil milhões de dólares, a
união aduaneira com ela própria, o Cazaquistão, a Arménia... Putin tem um
projecto eurasiático que abrange a maior parte do antigo espaço soviético
(excepto os países bálticos), fortalecendo os vínculos com um projecto de
cooperação industrial com a Ucrânia, a integração de tecnologias que a
Ucrânia estava realizando no tempo da URSS: aeronáutica, satélites,
armamento, construção naval, etc, modernizando os complexos industriais. É,
obviamente, o leste da Ucrânia que está mais interessado nesta perspectiva.

*Pode explicar as diferenças regionais na Ucrânia? *

JMC: Não há Estado-nação homogéneo na Ucrânia. Há contradições entre as
regiões. Há diferenças históricas. A Rússia, Bielorussia e Ucrânia tiveram
um berço comum: o Estado dos Eslavos Orientais (século IX a XI ), a capital
Kiev, foi chamada de "Rous", "Rússia" ou "Ruthénia". Mais tarde, os seus
caminhos diferenciaram-se: línguas, religiões, filiações estatais. O Oeste
esteve muito tempo ligado ao Grão-Ducado da Lituânia, aos reinos polacos,
ao Império Austro-Húngaro. Após a Revolução de 1917 e a Guerra Civil,
nasceu a primeira formação nacional chamada " Ucrânia", co-fundadora, em
1922, da URSS. A parte ocidental anexada, em particular, pela Polónia, foi
"recuperada" em 1939 e 1945, em seguida, o actual território da Ucrânia
ampliou-se para a Criméia, em 1954.

O leste da Ucrânia é mais industrializado, mais operário, mais russófono,
enquanto o oeste é mais rural, de língua ucraniana. O leste é Ortodoxo,
ligado ao Patriarcado de Moscovo, enquanto o Ocidente é tanto católico
grego ("Uniata") e ortodoxo, ligado ao Patriarcado de Kiev desde a
independência em 1991. A Igreja Uniata Católica, em particular no Oeste em
Galicia, tem sido tradicionalmente germanófila, muitas vezes em conflito
com a Igreja Católica da Polónia. O centro da Ucrânia, com Kiev, é uma
mistura de correntes Leste e Oeste. Kiev é esmagadoramente de língua russa,
as suas elites são pró-oposição e intimamente ligadas aos ultra-liberais de
Moscovo.

A Ucrânia é pois partilhada - histórica, cultural, politicamente - entre o
Oriente e o Ocidente, e não faz nenhum sentido lançar uma contra a outra, a
não ser para se colocar um cenário do início da guerra civil, o que é,
provavelmente, a intenção de alguns. À força de impor a divisão, como estão
a fazer os ocidentais e seus pequenos soldados no local, pode vir o tempo
em que a UE e a NATO poderão ter o seu "pedaço", mas onde também a Rússia
tomará o seu! Não seria o primeiro país que se faria deliberadamente
explodir. Todos devem estar cientes de que a opção europeia também será
militar: a NATO virá a seguir e em breve se vai levantar a questão da base
russa em Sebastopol na Crimeia, maioritariamente da Rússia e
estrategicamente crucial para a presença militar no Mar Negro. Pode-se
imaginar que Moscovo não vai deixar instalar uma base dos EUA naquele
lugar!

*O que acha da forma como o actual conflito é apresentado em nossos meios
de comunicação? *

JMC: É um western! Há os "pró-europeus" bons e os maus "pró-russos". É
maniqueísta, parcial, ignorante da realidade da Ucrânia. Na maioria das
vezes, os jornalistas vão ter com pessoas que pensam como eles, que dizem o
que os ocidentais querem ouvir, que falam Inglês e outras línguas
ocidentais. E depois, há as mentiras por omissão.

Logo de inicio há uma notável ausência: o povo ucraniano, os trabalhadores,
os camponeses, submetidos a um capitalismo de choque, à destruição
sistemática de todas as suas conquistas sociais, aos poderes das máfias de
todos os lados.

[image: Nacionalista ucraniano ou fascista ucraniano?] Depois, há a
ocultação ou minimização de um fenómeno que é conhecido como "nacionalista"
e que é, na verdade, neo-fascista ou mesmo claramente nazi. É
principalmente (mas não exclusivamente), localizado no partido Svoboda, seu
líder Oleg Tiagnibog e a região ocidental que corresponde à antiga "Galicia
oriental" polaca. Quantas vezes tenho visto, ouvido, lido na Comunicação
Social, citações do partido e seu chefe como "opositores " e sem outra
qualificação?

Estamos a falar de jovens simpáticos "voluntários de auto-defesa", vindos
de Lviv (Lwow, Lemberg) para Kiev, mas trata-se de comandos levados pela
extrema-direita para esta região (Galicia), que é o seu bastião. Pesada é a
responsabilidade daqueles - políticos, jornalistas - que jogam este jogo, a
favor de tendências xenófobas, anti-Rússia, anti-semitas, racistas,
celebrando a memória do colaboracionismo nazi e da Waffen SS e de que a
Galicia (e não toda a Ucrânia!) foi a terra natal.

Finalmente, os meios de comunicação passam em silêncio as várias redes
financiadas pelo Ocidente (EUA, UE, Alemanha) para a desestabilização do
país, a intervenção directa de políticos ocidentais. Imagine-se a área
neutra de Bruxelas ocupada durante dois meses por dezenas de milhares de
manifestantes exigindo a renúncia do rei e do governo, atacando o Palácio
Real e aclamando na tribuna ministros russos, chineses ou iranianos!
Pode-se imaginar isto em Paris ou Washington? Mas é o que acontece em Kiev.

O meu espanto cresce dia a dia observando a diferença entre "as
informações" emitidas pela nossa Comunicação Social e aquelas que posso
colher nos meios de comunicação ucranianos e russos. As violências
neonazis, as agressões anti-semitas, as tomadas de assalto das
administrações regionais: nos nossos meios de comunicação, não há nada
disso! Só temos um único ponto de vista: o dos opositores de Maidan (Praça
de Kiev, onde os pró-europeus se reúnem (Nota do Editor). Na Comunicação
Social, o resto da Ucrânia não existe!

*Quais são os principais actores em presença? *

JMC: A oligarquia industrial e financeira, beneficiária das privatizações,
é compartilhada entre a Rússia e o Ocidente. Viktor Yanukovich e seu
Partido das Regiões representam os clãs (e a maior parte da população) no
leste e sul. O Partido das Regiões venceu as eleições, tanto presidenciais
como parlamentares, no Outono de 2013. Ele também tem bases sólidas a
Oeste, na Transcarpácia (também conhecida como Ucrânia sub-carpática), uma
região multiétnica que resiste ao nacionalismo. Mas a crise actual, as
hesitações e fraquezas do presidente podem custar-lhe muito caro e
desacreditar o seu partido...

O poder é largamente responsável pela crise social que beneficia a
extrema-direita e as enganosas sereias da UE e da NATO. O poder no terreno
é impotente, de facto, e defende uma parte da oligarquia. Ele favoreceu a
disseminação da corrupção e das práticas mafiosas.

Perante ele, há três partidos políticos que se baseiam especialmente no
Ocidente e também no centro da Ucrânia. Batkivschina ("A Pátria"), cujo
líder é Arseniy Yatsenyuk. Ele sucedeu a Yulia Tymoshenko, doente e presa.
Em seguida, o partido Oudar (Partido democrático das reformas), cujo líder
e fundador é o ex-boxeur Vitali Klitschko. É o querido de Angela Merkel e
da UE. Os quadros do seu partido são formados pela Fundação Adenauer.
Finalmente, a Svoboda ("Liberdade"), partido neo-fascista liderado por Oleg
Tiagnibog.

Svoboda é um filiado directo da Organização dos Nacionalistas Ucranianos
(OUN ) - fascista, sob o modelo de Mussolini - fundada em 1929 no leste da
Galicia sob o domínio polaco. Com a chegada de Adolf Hitler em 1933, o
contacto é feito com o slogan "vamos usar a Alemanha para avançar com as
nossas reivindicações". As relações com os nazis são por vezes tumultuosas
- porque Hitler não queria uma Ucrânia independente - mas todos estão
firmemente unidos no seu objectivo comum de eliminar comunistas e judeus e
escravizar os russos. Os fascistas ucranianos opõem a natureza "europeia"
da Ucrânia à "asiática" da Rússia. Em 1939, Andriy Melnik é o chefe da OUN,
com Andriy Cheptytskyi, Metropolita (Bispo, Nota do Editor) da Igreja
greco-católica (Uniata) germanófila, "líder espiritual" da Galicia, passada
em 1939, para o regime soviético. Em 1940, o radical Stepan Bandera cria
uma dissidência: o seu OUN-b forma dois batalhões da Wehrmacht, Nachtigall
e Roland, para participar na agressão pela Alemanha e seus aliados contra a
União Soviética em 22 de Junho de 1941. Imediatamente cria uma onda de
*progroms.
*

Após várias eleições, após a "Revolução Laranja" de 2004, a influência de
Svoboda cresceu na Galicia e em toda a Ucrânia ocidental, inclusive nas
grandes cidades, com 20 a 30% dos votos. No conjunto da Ucrânia, Svoboda
tem 10 % dos votos. Svoboda é "dominado" por grupos neo-nazis ainda mais
radicais do que ele.

As três formações políticas Batkivschina, Oudar e Svoboda, apoiadas pelo
Ocidente, reclamam há dois meses o derrube do governo e do Presidente da
República. Eles exigem novas eleições. Svoboda vai ainda mais longe,
organizando um golpe de Estado localmente. Lá, onde ele governa com o seu
reinado de terror, Svoboda proíbe o Partido das Regiões e o Partido
Comunista da Ucrânia.

O PC da Ucrânia apela à razão há várias semanas. Ele recolheu mais de três
milhões de assinaturas pedindo um referendo que deve decidir se a Ucrânia
quer um acordo de associação com a UE ou uma união aduaneira com a Rússia.
A situação insurreccional deve-se, não só aos três partidos da oposição,
mas também ao poder, que ofereceu o país e o povo "de bandeja" aos líderes
da pseudo oposição, aos grupos de extrema direita neo-nazis, às
organizações nacionalistas violentas, aos políticos estrangeiros que apelam
às pessoas a "radicalizar os protestos" e "lutar até ao fim". O PC destaca
os problemas sociais. Ele tem a posição mais democrática entre os partidos
políticos. Mas sua influência é limitada à Ucrânia oriental e meridional.

*Qual o jogo das grandes potências (EUA, UE, Rússia) no confronto actual? *

JMC: Zbigniew Brzezinski, influente geostratega, cidadão dos EUA de origem
polaca, traçou na década de 1990, a estratégia dos EUA para controlar a
Eurásia e instalar permanentemente a hegemonia do seu país, com a Ucrânia
como elo essencial. Para ele, havia uns "Balcãs mundiais", de um lado a
Eurásia, do outro o grande Médio Oriente. Esta estratégia deu os seus
frutos na Ucrânia com a "Revolução Laranja" de 2004. Instalou uma rede
tentacular de fundações norte-americanas - como Soros e a reaganiana
National Endowment for Democracy (NED) - que pagam a milhares de pessoas
para "fazer progredir a democracia". Em 2013-2014, a estratégia é
diferente. É especialmente a Alemanha de Angela Merkel e a União Europeia
que estão no comando, ajudados por políticos americanos como John McCain.
Arengam às multidões na Maidan e em outros lugares com grande
irresponsabilidade: para atingir facilmente a meta de fazer balançar a
Ucrânia para o campo euro-atlântico, incluindo a NATO, eles contam com os
elementos mais antidemocráticos da sociedade ucraniana. Mas esse objectivo
é inatingível sem partir a Ucrânia entre o Oriente e o Ocidente e com a
Crimeia que se tornará a juntar á Rússia como o seu povo deseja. O
parlamento da Crimeia declarou: "Nunca viveremos sob um regime fascista". E
para Svoboda e os outros fascistas, esta é a vingança de 1945, que eles
vivem. De qualquer forma acho que a grande maioria dos ucranianos não quer
esta nova guerra civil ou a dissolução do país. Mas a sociedade está em
reconstrução...
Para mais informações: Jean-Marie Chauvier, Euromaïdan ou a batalha da
Ucrânia<http://www.mondialisation.ca/euromaidan-ou-la-bataille-dukraine/5366185>,
25/Janeiro/2014; Ucrânia:
"que posição"?<http://www.mondialisation.ca/ukraine-quelle-position/5361486>,
13/Dezembro/2013, publicado pela revista *Política
*(Bruxelas) e reproduzido em www.globalresearch.ca; OUN e a Alemanha nazi:
referências, ver *Le Monde
Diplomatique*<http://www.monde-diplomatique.fr/2007/08/CHAUVIER/15050>,
Agosto/2007 .

  *Política anti-social da oposição revelada por WikiLeaks *

Viktor Pynzenyk, ex-ministro das Finanças e, agora, membro do partido da
oposição Oudar, de Vitali Klitschko, em 2010 explicou ao embaixador dos EUA
o que queria para a Ucrânia:
O aumento da idade de aposentadoria em dois anos a três anos
A eliminação de reforma antecipada
A restrição das pensões para os aposentados que trabalham
A triplicação do preço do gás para as famílias
O aumento dos preços da electricidade em 40%
O cancelamento da Resolução do Governo que exige o consentimento dos
sindicatos para elevar os preços do gás
O cancelamento da disposição legal que proíbe os fornecedores municipais de
cortar o fornecimento ou multar os consumidores em caso de não pagamento de
serviços municipais
A privatização de todas as minas de carvão
O aumento dos preços dos transportes, o cancelamento de todos os benefícios
A abolição de subsídios do governo para nascimentos, refeições gratuitas e
livros escolares (está escrito: "As famílias devem pagar ")
Cancelamento de isenções de IVA para produtos farmacêuticos
Aumento dos impostos sobre a gasolina e aumento de 50% nos impostos sobre
veículos
O pagamento dos subsídios de desemprego, só após um período mínimo de seis
meses de trabalho
O pagamento de benefícios de licença médica só a partir do terceiro dia de
folga
O não aumento do ordenado mínimo vital (embora introduzindo opções de
pagamento adicionais para os necessitados).

Fonte: 10KYIV278 telegrama diplomático revelado pelo Wikileaks
www.cablegatesearch.net/cable.php?id=10KYIV278&q=elections+ukraine
27/Janeiro/2014


Capitães/MFA- A conspiração na Guiné

Capitães/MFA- A conspiração na Guiné


(ESTE TEXTO É PROVISÓRIO,PORQUE EDITAREI,ANTES DE ABRIL , UM TEXTO MAIS COMPLETO E COM A SEGUNDA PARTE  PÓS 25 DE ABRIL....JÁ COM ALUSÃO AO RECONHECIMENTO DA INDEPENDÊNCIA DA GUINÉ-BISSAU)
Capitães/MFA- A conspiração na Guiné


...( este relato pretende ser apenas um contributo, com uma perspectiva pessoal e vivida pelo autor, para que outros surjam a fim de compilar-se um trabalho que se aproxime dos acontecimentos então vividos...é pois um desafio a quantos tiverem coisas para contar  )....


A ideia lançada de que a “revolta dos capitães” começou na Guiné não merece discussão. Têm tanta razão os que a defendem como os outros. A revolta começou em cada um de nós, o espaço não foi temporal nem fisicamente circunscrito a uma qualquer latitude, mas  de facto a Guiné marcou muito os militares e era ressonante o seu efeito como um vulcão de conflitos e desafios.

Efectivamente na Guiné viviam-se tempos favoráveis à  reflexão e ao debate. De forma mais aberta ou mais  reservada a contestação convivia com a humidade e o calor tropicais. Seria injusto não reconhecer a quota parte que se deve à personalidade do General Spinola na criação desse ambiente. As  circunstâncias fizeram o resto; tornaram a colónia da Guiné um laboratório de experiências e de vivências  particulares. Muito pelo seu clima, muito pelo seu tamanho, muito pelo abandono do colonizador e bastante pela forma de actuação do PAIGC e do seu líder Amilcar Cabral.

Talvez se deva considerar, como primeira pedrada no charco, na  Guiné- Bissau, a reacção e repudio dos Oficiais do Quadro Permanente ao               “ Congresso dos Combatentes do Ultramar”. Almeida Bruno, Dias de Lima, Monge, Otelo e outros, puseram ao corrente o general Spínola do descontentamento que se apoderou dos Oficiais em geral. Tratava-se dum Congresso, que mais não era do que uma encenação do governo com o aproveitamento de antigos oficiais milicianos, que desde 1961 haviam cumprido comissões militares no Ultramar. Esse descontentamento chegou a Lisboa pela via hierárquica mas não só. Chegou também a Ramalho Eanes, Hugo dos Santos e a Vasco Lourenço, que encabeçavam na Metrópole, um vasto movimento de protesto.
Quatrocentas assinaturas de Oficiais do Q.P., assinaram em Bissau, protesto idêntico ao ocorrido no Continente.
Um telegrama de Bissau foi enviado para o Porto, onde se realizaria o dito evento (de 1 a 3 de Junho de 1973) assinado por Marcelino da Mata e Rebordão de Brito ( Oficiais naturais da Guiné, ambos com a “Torre e Espada” ) com o seguinte texto:
        
“ Os oficiais do Q. P. Em serviço no teatro de operações da Guiné:
1.       Não aceitam outros valores nem defendem outros interesses que não sejam os da Nação;
2.       Não reconhecem aos organizadores do I Congresso dos Combatentes do Ultramar, e portanto ao próprio Congresso, a necessária representatividade;
3.       Não participando nos trabalhos do Congresso, não admitem que pela sua não participação sejam definidas posições ou atitudes que possam ser imputadas à generalidade dos combatentes;
4.       Por todas as razões formuladas se consideram e declaram totalmente alheios às conclusões do Congresso, independentemente do seu conteúdo ou da sua expressão.”

A este propósito no seu livro “Alvorada em Abril” é com oportunidade que Otelo afirma a pgs. 114: “ Esta autêntica manifestação colectiva poderia ter constituído um sério sinal de alerta para o Regime “ que conclui o parágrafo dedicado ao Congresso, dizendo ainda “ os jovens leões rugiram, mansos, a princípio. Ganhando consciência da sua força, foram deitando as garras de fora e, rugindo mais forte, lançaram-se ao ataque. A partir daí, quem poderia realmente travar o seu desenfreado galope? “

Estava pois criado o ambiente e lavrado o terreno para o que viria a seguir.

Cheguei a Bissau a 28 de Julho de 1973.Fui enviado para lá por "castigo" em reacção ao requerimento/manifesto que fizera em Abril e entregara à hierarquia militar e espalhara em Aveiro no Congresso da Oposição Democrática!!! Com oficiais de Engenharia (eu era Chefe de Contabilidade da DSFOM/Engenharia) já tinha começado a conspirar em Lisboa!
                                                         ***
O meu companheiro de viagem e de lugar no avião, que então me levou para a Guiné , foi o Capitão Piloto-Aviador Pinto Ferreira.
Ainda que contemporâneos na Academia Militar (1961/64) já não nos víamos há muitos anos. Fixava-me com olhar inquieto. Estava do lado da janela e nunca olhou o céu. Regressava após meses antes, ao seguir atrás do “Fiat” do seu comandante, Ten.Coronel Alves Brito, assistir ao desintegrar do avião em estilhas e chamas. Escapou porque ao ver o reflexo, de algo vindo do solo, guinou instintivamente o seu “Fiat” (avião-parelha) que conduzia. Foi isto que  me contou, acrescentando em desabafo: “vai ser difícil esquecer”!!!

                                                          ***
Na noite do dia seguinte , à minha chegada, reunimo-nos no Agrupamento de Transmissões depois de jantar. Consta do registo das presenças  os seguintes nomes e especialidades dos militares reunidos. Capitães do quadro: Jorge Golias (Eng.Transmissões),Duran Clemente(Administração Militar),Matos Gomes (Comando),Jorge Alves(Eng.FA). Capitão miliciano J. Manuel Barroso (sobrinho de Mário Soares). A reunião moveu-se pela curiosidade em ser lido um documento (exposição/requerimento) que eu tinha feito à hierarquia militar ,com 40 folhas de papel selado, e que pelo seu teor de manifesto contestatário (e pelo facto de o ter distribuído em Aveiro, em 8 de Abril, pelos congressistas da Oposição Democrática, onde estive)tinha contribuído para levar o pontapé até Bissau.

Estávamos muito preocupados com a situação nacional e com o uso  dos oficiais do Q.P. (Quadros Permanentes).Tínhamos a noção de que estes estariam a tomar consciência, missão após missão, do logro. Mas era lento e doloroso o processo. Combinámos criar um núcleo. Este que passarei a designar por “núcleo dinamizador” (A . Spínola uns anos mais tarde apelidou-o de “célula soviética” no seu  Portugal sem Rumo) nunca mais se desintegrou e funcionou curiosamente até ao dia da liberdade. Constituiu nossa prioridade editar um documento a distribuir por todos os oficiais das FFAA, no sentido de os sensibilizar, para o que se estava a passar , nos mais diversos aspectos e sectores da vida do país. Distribuímos tarefas. Cada um encarregava-se de uma matéria especifica.  Ficámos, de numa próxima reunião, reflectir sobre a forma de fazer chegar a informação aos Camaradas militares, Oficiais do Q.P., onde quer que se encontrassem, nas Colónias ou na Metrópole. “Como obter os endereços de todos?” era o desafio.

Não foi preciso.

Graças à publicação do celebérrimo Decreto-Lei nº. 353/73 que facultava a “entrada de oficiais do Quadro Especial de Operações no Quadro Permanente através de curso intensivo na Academia Militar” os acontecimentos precipitam-se. A questão era saber aproveitar o facto. Assim nos propusemos como núcleo dinamizador e agora fortemente animados. Não podíamos perder a oportunidade.
A nossa segunda reunião foi toda ocupada pondo a criatividade ao serviço de uma estratégia que efectivamente colocámos em andamento e não mais pararia.

Ainda ninguém conhecia bem qual era o conteúdo do referido diploma. Constava que se aplicava às Armas operacionais de Infantaria, Artilharia e Cavalaria.

Só em meados de Agosto tomámos conhecimento do seu  completo teor. Até aí, bastou-nos adivinhar qual o seu espírito para que recebêssemos aquele brinde de braços abertos.

Há que explorar com sucesso o” tremor de terra “ que tal diploma veio causar sobre os capitães. E assim foi. O núcleo entrou em acção.
Promoveram-se reuniões. Espalhou-se a palavra para os Capitães reunirem na Sala de Jogos do Clube Militar.
Confortou-se a “ convocatória “ com a adesão por solidariedade ( e não só) dos Capitães que mesmo não pertencendo às três Armas atingidas, deviam comparecer. Assim aconteceu a 17 de Agosto de 1973, sábado pelas 16.00.

No espaço de oito dias, efectuaram-se quatro reuniões. As três últimas, realizaram-se no Agrupamento de Transmissões.

·        ( síntese das reuniões em anexo)

Resultou dessas reuniões a decisão de endereçar uma “carta-protesto”  ao Presidente da República, Presidente do Conselho, Ministro da Defesa e Exército, Ministro da Educação e     Secretário de Estado do Exército

Com a data de 28 de Agosto a referida  carta teve as  assinaturas de quarenta e seis Capitães, recolhidas em Bissau e nas guarnições próximas (em 66 possíveis no todo do CTIG), às quais se juntaram ainda as de  quatro subalternos (em estágio) e foram enviadas, por correio registado, para os destinatários a cinco de Setembro.


O então Capitão Otelo Saraiva de Carvalho, pôs o seu serviço de secretariado em marcha para a tarefa de bater a carta à máquina em “ stencil “ e de comunicar aos Capitães em serviço no interior, o seu conteúdo e explicar-lhes a atitude de protesto colectivo, como afirmação frontal do nosso descontentamento.

Ficámos a aguardar a reacção.

O Almeida Coimbra iniciou então o contacto com Hugo dos Santos ( em Lisboa) de quem passamos a obter informação sobre os acontecimentos na Metrópole.

Na sua primeira informação ficamos a saber que toda a actuação prevista em Lisboa era fortemente tocada pela legalidade, pelo menos, aparentemente.
Esta (e todas as informações que iam chegando) foram lidas nas reuniões de Capitães que começaram a realizar-se periodicamente e numa das quais, ainda em Setembro, é eleita a primeira Comissão Coordenadora do Movimento de Capitães na Guiné,constituída pelos Maj. Almeida Coimbra, Cap. Duran Clemente, Cap. Matos Gomes  e Cap. António Caetano ( que mais tarde seria substituído pelo Cap. Sousa Pinto).
O núcleo preparou a reunião. Matos Gomes que tinha vindo a Lisboa trouxera ,no regresso, alguns exemplares do recente livro de Sottomaior Cardia “Para uma Democracia Anticapitalista”. Divulgámos boa parte do seu conteúdo e o acto funcionou como campanha eleitoral. Valeu-nos a eleição de dois de nós (M.Gomes e eu próprio) do referido “núcleo dinamizador” para a aludida comissão.

Entretanto soubemos da reunião de Évora, (9 de Setembro) onde se encontraram mais de 130 oficiais do Q.P. Ficámos mais confortados.

Foi deliberado que se desse conhecimento ao Comandante Militar da existência das reuniões. Achou-se que era melhor que soubesse por nós próprios que nos reuníamos. Formalmente avançamos motivos  profissionais como justificação. Ficou claro que só lhe era transmitido aquilo que se achasse conveniente. E assim aconteceu.

Na primeira reunião e única que tivemos com o então Comandante Militar Brigadeiro Alberto Banazol ( irmão do Ten. Cor. Luís Ataíde Banazol )  este saudou a  atitude e deu-nos a devida autorização para reunirmos na Biblioteca do Quartel-General,instalada fora deste, no Batalhão de Intendência em frente (do qual eu era 2ºComandante) . Assim e  sem querer autorizou-nos a conspirar...contra o sistema.
Mas foi peremptório ao reprovar expressamente a nossa manifestação colectiva. Referiu a nossa carta, enviada às mais altas hierarquias do Estado, censurando o gesto.

Para mostrar aparente solidariedade connosco, foi ao ponto de nos convidar para um jantar volante em sua casa. O que aconteceu com a comparência da esmagadora maioria dos Capitães, então disponíveis em Bissau.

Tal jantar teve um final conturbado pelas intervenções acaloradas, de Otelo e do signatário, não só porque, à evidência de que as “altas esferas” estavam a deixar resvalar a Guiné, para um caso semelhante ao de Goa,Damão e Diu, o Comandante Militar Brigadeiro  Banazol respondia com evasivas e não disfarçava aproveitar-se do gesto de anfitrião e de máximo superior hierárquico ( no Exército) para nos anestesiar e adormecer com a retórica habitual e com a fundamentação oficial do regime.

A partir daí , o Comandante Militar nunca mais teve informações desta Comissão Coordenadora de Bissau, mais por desinteresse seu do que nosso.Não consta que se preocupasse muito com “ os ventos fortes “ que corriam. Talvez não nos tenha levado a sério ou lá no fundo estivesse connosco, como ( até ) suspeitávamos.

Tanto assim é, que no próprio dia 25 de Abril, foi vitima de si próprio. Quando soube dos acontecimentos  continuou “ abraçado ao seu lazer “ na ilha de Bubaque,  não se apressando a retomar o seu posto em Bissau. Atrasou-se  em fazer o que alguns fizeram com boa dose de hipocrisia. Outros, bem mais alérgicos à Revolução, acabaram por apanhar o comboio com todo o vapor que o oportunismo ( e nós ) lhes permitimos. O Brigadeiro Alberto Banazol não quis mostrar que estava do nosso lado e do lado  do seu irmão Ten.Coronel Luís Banazol.
                                                    ***
Aliás curiosamente foi aquele (irmão) que me apresentou este, no último sábado de Dezembro de 1973,a caminho da piscina do Clube Militar. Não me esqueço das palavras então trocadas: “Você é que é o Clemente ? Há cá mais algum ? ”Esta era a senha trazida de Lisboa. A minha resposta foi : “capitão só eu “. ”Então é  você. Trago indicações de Lisboa para lhe falar !!!” Reagindo ao meu esgar, descansou-me: “...não se preocupe, aqui o meu irmão Brigadeiro é um democrata”.
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                                                   ***
As cartas seguiram também para Lisboa, numa segunda via, levadas pelo Cap. Ayala Botto (ajudante de campo do Gen.Spínola)  para as fazer chegar aos destinatários caso os originais se perdessem.
Convirá recordar que a 6 de Agosto de 1973 o Gen.Spinola regressara a Lisboa. Fim de missão, inicio de outros voos. O seu lugar de Governador e de Comando Chefe só seria preenchido em Outubro pelo General Betencourt Rodrigues.

                                                   ***             
Através dos camaradas que gozavam férias na metrópole, ou dos que a esta voltavam por fim de missão (ou pelos que entretanto chegavam em início)  ou ainda através de correspondência, já com linguagem um tanto codificada, as informações iam-se cruzando entre Bissau e Lisboa. O Hugo dos Santos passou a ser o “ Pedro “ e outros heterónimos deram à luz, por precaução, mais tarde justificada.

A conspiração desenvolveu-se no sentido prioritário e fulcral de angariar o maior número possível de “ adeptos para a causa “ e para a libertação.

Aguardavam-se instruções da “coordenadora” de Lisboa.

O trabalho de sensibilização e de informação foi sendo feito com método e sistema. Os resultados iam sendo, a pouco e pouco, muito gratificantes, na medida em que paulatinamente se foi conquistando para o nosso lado a maioria de Oficiais colocados em posições ( de comando ) estratégicas e essenciais para o que “desse e viesse”.

A Marinha aderiu em força. Com a sua tradicional organização ( meticulosa e serena ) dispôs as suas pedras com todo o cuidado e aceitou o repto. Destacaram Oficiais que passaram periodicamente a reunir-se connosco, para troca de informações e análise da situação. Inicialmente os 1ºs Tenentes Marques Pinto e  Pessoa Brandão e mais tarde  Manuel Serrano e Rosado Pinto.

A Força Aérea destacou desde sempre os capitães Jorge Alves e Faria Paulino e depois Sobral Bastos e Albano Pinela (Paraquedista).

Em Outubro tive oportunidade de efectuar uma reunião com quatorze oficiais  pilotos-aviadores do Q.P., acompanhado de Faria Paulino.
Lá estava também o meu companheiro de viagem Lisboa/Bissau.O trauma da bola de fogo do companheiro perdido estaria a transformar-se iluminando as consciências.
Como é sabido as iniciativas da Força Aérea estavam praticamente paralisadas depois de nos primeiros meses de 1973, seis aviões entre Fiat, T-G e DO 27, terem sido abatidos, após a introdução de mísseis terra-ar ( os Strela), na equipagem do PAIGC.
Nesta reunião com os Pilotos-Aviadores, ficámos com a sensação de que quase todos, se não mesmo todos, tinham aderido ao Movimento,ou pelo menos, não lhe eram hostis.

No Exército contavamos com mais aderentes à medida que íamos, progressivamente, com maior segurança, alargando a malha de contactos e de informações e  consolidando as estruturas organizativas  por cada unidade operacional.

Paralelamente um movimento de Oficiais milicianos, foi-nos acompanhando e ia-se consolidando, tendo como principais mentores os Alferes Milicianos Barros Moura, Celso Cruzeiro e o já referido capitão Miliciano José M. Barroso ( reflectindo efectiva e curiosamente  três tendências diferentes ).

Os ânimos confortaram-se ainda mais à medida que da Metrópole iam chegando as notícias da evolução do processo.

A partir de Dezembro começa-se a ver mais claro qual o sentido do Movimento, após as reuniões que na Metrópole apontavam para a mais que provável decisão de “pegar em armas” para derrubar a situação. A “profecia” que  Jorge Golias lançara como repto em Agosto(numa das primeiras reuniões)...”quem sabe se isto só se resolve pela via armada!??”estava mais perto de se enxergar.
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Também na Guiné foram conhecidas as três hipóteses, colocadas para reflexão (decisão) aos Capitães   na reunião de Óbidos em 24 de Nov.73, que eu próprio trouxera após a minha deslocação a Portugal em Nov..

a. -Conquista do poder para com uma Junta Militar criar no país as                   condições que possibilitem uma verdadeira expressão nacional;

 b. -Dar oportunidade ao governo de se legitimar perante a Nação através de eleições livres, devidamente fiscalizadas pelo Exército, precedidas de um referendo sobre a política ultramarina;

 c.-Utilizar reivindicações exclusivamente militares como forma de alcançar o prestigio do Exército e de pressão sobre o Governo.

Também soubemos a seu tempo do resultado do escrutínio.
Nele nos concentrámos para o correspondente apoio como retaguarda e reforço.

A decisão de que  na Guiné  também optaríamos pela tomada de poder pelas armas já estava tomada há muito; daríamos no entanto a possibilidade  à hierarquia militar   no Comando Territorial Independente da Guiné /CTIG para se pronunciar. Quem não estivesse connosco seria devolvido a Lisboa. No caso de insucesso das operações do Movimento em Portugal a nossa estratégia era a tomada de poder na mesma. Teríamos esse trunfo para jogar na defesa das nossas convicções. Por outras palavras, constituir-nos-íamos numa grande pedra no sapato e dor de cabeça para o Governo Português, com uma Colónia sublevada. Para isso, tínhamos de ter o  completo domínio do comando em todos os Sectores e Ramos das n/ FFAA, instaladas no teatro de operações da Guiné. Iríamos ter.

No final do ano de 1973 só nos faltava o Regimento de Paraquedistas que virá a aderir em Fevereiro de 74, após o conhecimento do conteúdo do livro “Portugal e o Futuro” do Gen. Spínola.
 O Comandante do Batalhão de Paraquedistas, Major Mensurado, manda formar o Regimento. Faz uma palestra. Adverte os seus homens da eventual necessidade de terem de cometer uma acção e indisciplina a “Bem da Nação”. Quem não estiver de acordo deve dar um passo em frente.

Ninguém deu. Todos concordavam. Era a vontade dos Povos a mandar!

Mesmo assim, veio a Lisboa, com um nosso delegado do Movimento, perguntar pessoalmente ao General Spínola se “avalizava” o seu procedimento.

Regressou aliviado e mais feliz.

E nós também, porque era uma unidade indispensável.

Antes, porém, tivemos de “travar” a ansiedade do Ten. Coronel Luís Ataíde Banazol ( que aqui e hoje sempre prestarei homenagem pela sua atitude na reunião de Cascais em 24 de Nov. 73 e de Óbidos, em Dez. ) que ao chegar à Guiné com o seu Batalhão – que estacionou uns dias no Cumeré – antes de chegar ao seu destino: Bambadinca, queria tornar o poder ocupando o Palácio do Governo da Colónia.

Após aturadas reuniões connosco “ os jovens e pálidos Capitães da Guiné “, como ele se refere num dos seus livros, conseguimos dissuadi-lo. Sobre isso o Jorge Golias tem muito que contar.
Tive oportunidade, mais tarde, de lhe prometer que seria dos primeiros a saber quando ganhássemos.

                                             * * *                                                     
E soube. No dia 25 de Abril, pelas nove horas – o meu subalterno comandante de Destacamento de Intendência (Alferes Mota), sediado em Bambadinca( com quem tinha ligação telefónica directa) foi dos primeiros a quem dei a noticia para a retransmitir ao Ten.Cor.Luis Banazol : HOUVE REVOLUÇÃO: ganhámos.
                                              * * *                                                  
Voltando aos  primeiros meses do ano é de assinalar o seguinte e de forma resumida:estreitaram-se os contactos com Lisboa.Em Fevereiro estive pessoalmente com V. Lourenço na Trafaria, após ter vindo a Lisboa para receber informações mais actualizadas. Tive oportunidade de referir que o pessoal na Guiné estava com acentuado nervosismo. Vasco Lourenço apelou à serenidade e afiançou que a “acção” se daria antes do 10 de Junho.Foi esse o recado que trouxe então.
Em 4 de Março avisamos Lisboa ( Hugo dos Santos) de que os Majores Casanova Ferreira e Manuel Monje regressavam à Metrópole no dia seguinte e estavam cheios de entusiasmo. Denotavam extrema vontade de intervir. Haveria que dar o melhor enquadramento à sua dinâmica.Otelo distraiu-se do meu aviso e ocorreu o 16 de Março…
Em finais de Dezembro anterior estes oficiais, com mais cinco oficiais superiores, manifestam também adesão ao Movimento. Assinaram na minha presença uma carta (por mim redigida) enviada ao General Spinola confortando a sua decisão e colocando-se ao seu dispor na mudança.

Marcelo Caetano continuava nas suas conversas em família a tentar convencer-nos  de que se podia fazer turismo nas nossas “provincias ultramarinas”,mesmo na Guiné!!!
O semanário “Expresso” publica excertos duma dessas conversas em família lado a lado com retalhos do livro “Portugal e o Futuro” do Gen.Spínola.

No principio de Abril uma Delegação de Bissau esteve com o Movimento em Lisboa e recebeu as últimas informações.

Na noite de 24 para 25 de Abril aguardámos no Centro de Comunicações do Quartel General de Bissau o contacto telefónico programado. Não chegou. Uma das poucas acções de retaliação da dita “Legião Portuguesa” foi o corte do cabo telefónico na R.de S.Marçal que servia a Guiné.No meio da nossa ansiedade lá fomos sabendo do que se passava através das agências noticiosas .Pouco a pouco as  teleimpressoras foram ditando os acontecimentos e noticiando a Alvorada de Abril. Exultamos. Pelas oito horas da manhã foram restabelecidos os contactos telefónicos.

As delegações do MFA constituidas por um capitão,um representante dos sargentos e praças tomaram o comando de todas as guarnições militares afastando os comandantes que não aderiram à nova situação.Estes embarcaram para Lisboa de Avião poucos dias depois.

Propriamente no dia 25 de Abril,e em Bissau,  quer o Comando Chefe quer o Comando Militar, não tomaram posição de adesão ao Movimento. Com as unidades em alerta, prontas a avançar, tais como: Batalhão de Comandos, Batalhão de Paraquedistas, Batalhão de Intendência, Grupo de Artilharia e o Agrupamento de Transmissões e de Engenharia e outras, avançou a Companhia de Polícia Militar, que tomou pacificamente as instalações do Comando Chefe. Uma delegação do MFA interpelou o Comando Chefe Gen. Betencourt Rodrigues, que entretanto reunira todos os seus oficiais e aos quais se dirigiu “ vencido mas não convencido “. Ficou à nossa disposição e com outros oficiais que foram seleccionados como não tendo aderido ao nosso espírito, foram  “ convidados “  a seguir, uns dias depois,por avião para Lisboa.

O MFA colocou o Almirante Almeida Brandão como Comandante Chefe ( Interino ) e o Major Eng.Tm Mateus da Silva, como representante da J.S. Nacional, até 7 de Maio, quando chegou o T.C. Carlos Fabião.Este graduado em Brigadeiro passou a ocupar o topo da hierarquia militar e governativa  na ainda Colónia.

Tinha acabado a conspiração: outros desafios nos foram lançados. Sobretudo a luta travada com o General Spínola que desde o 25 da Abril e até 28 de Setembro quis abafar o MFA e impor-se como novo “ditador”.Foram as movimentações e pressão do MFA [de Bissau] que contribuíram para um processo pacifico de reconhecimento da independência da Republica da Guiné-Bissau e de transferência de poderes em dois meses.

Nunca nos passou pela cabeça que no curto espaço de menos de seis meses as NT(nossas tropas) deixassem definitivamente a Guiné-Bissau, como aconteceria a 15 de Outubro de 1974.

(*)Num segundo artigo espero narrar alguns aspectos mais significativos do se passou entre 25 de Abril e o regresso definitivo a Portugal.

                                                                          Manuel Duran Clemente,Coronel reformado.





Anexo/  Síntese das reuniões de Bissau

1ª Reunião
Efectuada em 17/8/73,sábado pelas 16h00, no Clube Militar de Oficiais com 23 capitães

1.  Foi lido o Decreto-Lei  nº  353/73 e as alterações que motivaram nova redacção dos          artigos 3º e  6º .
2.       Constatou-se que com a nova redacção, relativamente aos capitães do Quadro Permanente das armas de Infantaria, Cavalaria e Artilharia, a sua ordem na escala de antiguidade era alterada com a introdução de Oficiais do Quadro Complemento.
3.       Constatou-se ainda ,por outro lado, que um curso superior(Academia Militar)de quatro anos era substituído por um curso de dois semestres. Esta atitude do Governo foi considerada como mais uma das que por sistema vinham desprestigiando os quadros permanentes das FFAA.
4.       Decidiu-se que fosse escrita uma carta protesto ao Presidente da República, ao Presidente do Conselho, ao Ministro da Defesa e Exército, ao Ministro da Educação Nacional e ao Secretário de Estado do Exército.
A  inclusão do Ministro da Educação, nos destinatários, justificava-se pelo facto já referido: curso superior igual a curso intensivo, tipo “curso por correspondência” como alguém referiu.
5.       Foi aceite que uma comissão de oficiais apresentasse até às 14h00 do dia seguinte uma          minuta da carta. Ofereceram-se para escrever essa minuta o recentemente promovido a Major Almeida Coimbra e os Capitães Joaquim Branco, Duran Clemente e Matos Gomes.
6.       Os oficiais presentes que não eram das armas afectadas manifestaram a razão da sua presença. ”Estavam ali por solidariedade e porque achavam que o cerne da questão não era apenas de natureza corporativa. Se de facto o Decreto-Lei  representava uma machadada no prestigio dos oficiais oriundos da Academia pior ainda era a cegueira política de quem governando o país “orgulhosamente sós” não dava as soluções aos problemas quer na Metrópole quer no Ultramar”. Até quando estaríamos dispostos a ser enganados.
7.       Foi considerado urgente o envio da carta cujo conteúdo deveria ser ,apesar de tudo, subtil.
8.       Alguns mais legalistas e receosos apelaram para que se criasse um grupo de advogados por forma a garantir-se cobertura jurídica das atitudes de indisciplina que forçosamente ,face ao RDM, se iriam tomar.
9.       Foi ainda aventada a hipótese de  se estender a contestação aos oficiais superiores que o desejassem fazer. Concluiu-se pela negativa pelo facto e se constatar que, após as alterações no Decreto, os majores e tenentes-coronéis se teriam afastado e desinteressado do protesto.

2ª Reunião

Efectuada em 24/8/73,sábado pelas  14H00 no Agrupamento de Transmissões


1.   Foi lida por um membro da mesa o projecto da carta.
2.       Após algumas rectificações o conteúdo da carta foi considerado pouco acutilante e muito               suave. Alguns chamaram-lhe “carta de amor”. Venceu contudo o consenso. Considerou-se que o mais  importante era o efeito que iria ter a manifestação colectiva.
3.       Efectivamente sendo vedada a manifestação, para além do que era permitido a cada um, teve-se consciência do efeito que iria ter um documento assinado por mais de meia centena de capitães em guerra.

3ª Reunião

Efectuada no mesmo dia, sábado pelas 18H30 no mesmo Agrupamento

 

1.  Foi discutida a questão do risco da atitude da “carta colectiva” quer pelos directamente atingidos pela legislação em causa quer pelos outros que se haviam solidarizado.

2.   Voltou-se a colocar a questão do apoio jurídico.
4.       Acertaram-se aspectos práticos e administrativos. O Capitão Otelo Saraiva de Carvalho ofereceu os seus serviços de secretariado para “escrever e imprimir” a “stencil” a carta. Tínhamos de obter cinco exemplares iguais e assinados.
5.       Por outro lado ter-se-iam que utilizar os meios mais expeditos para obter o maior numero possível de assinaturas dos capitães. Fizeram-se conjecturas para a angariação de assinaturas no mato.
6.       Ficou assente que outras atitudes se teriam que tomar a partir de então: relativamente a possíveis reacções por parte dos destinatários e relativamente ao futuro .
7.       Decidiu-se dar conhecimento do envio da carta ao Comandante Militar.
8.       Por alguns foi novamente colocada a questão da carta não ser objectiva na reivindicação. Um dos oficiais presentes declarou não assinar.
9.       Outro dos presentes declarou não assinar por não acreditar nos resultados da atitude.
10.   Voltou-se à questão da participação dos oficiais superiores. Decidiu-se que a seu tempo poderiam ser úteis se quisessem sê-lo.
11.   No fim da reunião sobressaiu a intervenção de um capitão que avisou para a hipótese ou eventualidade de terem as FFAA necessidade de pegar em armas e actuarem  em conformidade com o mal estar existente não só na sociedade militar como na civil. Claro que houve numa certa minoria alguma apreensão face a tal cenário. (A intervenção foi do capitão Jorge Golias).  

4ª Reunião

Efectuada no dia 28/8/73,quarta-feira pelas 21H00 no Agrupamento de Transmissões


1.  Foram obtidas as assinaturas da maior parte dos capitães (destacando delas alguns dos mas conhecidos após o 25 de Abril(*): Otelo S.Carvalho, Salgueiro    Maia, D.Clemente, M.Monge, Sales Golias, Matos Gomes, Sousa Pinto …)e ainda de seis subalternos em estágio.

2.            Foi decidido que se iriam realizar reuniões periódicas e eleger uma comissão que coordenasse as iniciativas em função do que se fosse deliberando.

(*) nota posterior


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

25 de ABRIL/Sonho, Luta, Revolução e Esperança


(Comunicação no dia 7.12 na Conferência da Paz do CPPC e no dia 8.12.2013 na Convenção Democrática Nacional )

25 de ABRIL/Sonho, Luta, Revolução e Esperança
Voltámos a estar em guerra.

Abril vencerá porque Abril é o futuro.
 ………………………………………………………………………
Houve 25 de Abril porque havendo ditadura, colonização, opressão, obscurantismo, repressão, demagogia, isolamento…um pesado policiamento das consciências. queríamos ser Livres, estar…em PAZ, contribuir, com plena cidadania, para a construção do nosso futuro…

Mas

Colonizados e colonizadores, interna e externamente, também houve 25 de Abril porque quisemos acabar com o infortúnio e cegueira duma guerra colonial. 

Todos os que não se sentiam bem…com este estado de coisas… fizeram o 25 de ABRIL.

Fomos um só povo: europeus e africanos. Os do Norte e os do Sul, do Litoral e do Interior:
                       A sentir em português o acto: REVOLTA...
                       A falar em português a palavra: LIBERDADE...

A guerra que travámos tinha várias espécies de “teatro de operações”:
……………………………………………………………………..
O teatro de operações não era só em África, na guerra colonial…era em toda a parte
                           onde se lutava,
                           onde se trabalhava
                           onde se sofria,
                           onde se aprendia,
                           onde se conspirava
                           onde se crescia…
                           onde se queria um 25 de Abril.

A guerra em que nos meteram “Portugal uno e indivisível “ isolou-nos ainda mais …Mas como há sempre verso e reverso, a dialéctica encarregou-se de nos colocar contemporâneos com o rumo de mudança e de concretizar o fim  da
ditadura opressiva de  quarenta e oito anos e  do colonialismo atávico de quinhentos anos.

 ”Libertámo-nos” duma prisão, dum isolamento e dum obscurantismo e quisemos, com os novos ventos da História, enfunar as velas de velhos navegantes rumo a outra Amizade e Cooperação entre os povos.

E…só assim foi possível o 25 de ABRIL

Portugal redimiu-se numa noite e fez surpreendentemente, dum conjunto de jovens militares, emergirem capitães, timoneiros do povo armado…mas também, sob a égide dum povo unido, erguer uma das mais belas alvoradas.

Nós capitães, anos após anos, constatámos que afinal o nosso inimigo não estava na mata tropical mas no Terreiro do Paço…Altas patentes militares e Governantes mentiam-nos sem pudor.
E foi, paradoxalmente, com os conhecimentos adquiridos nessa guerra, que soubemos preparar com profissionalismo e competência a tomada do poder.


Uma Alvorada libertadora, só por si, não faz uma Revolução…mas há Alvoradas que as fazem.  

Nesse dia, há 39 anos, o 25 de Abril sendo um Golpe Militar, organizado, trabalhoso e difícil, teve na estrondosa adesão popular a plataforma para um estado superior  : foi REVOLUÇÃO.

Ao povo, aos cidadãos… foi restituído o que era deles e por isso eles acorreram: a tomar nas suas mãos o que lhe era pertença:
-nas instituições;
-nas fábricas;
-nos bairros;
-nas escolas;
-na terra…no campo…na serra.
………………………………………………………………………………
Hoje, passados trinta e nove anos, o Portugal Democrático não devia já ter nada a ver com o Portugal da ditadura. Não queremos branquear o fascismo mas nos últimos anos infelizmente o 25 de Abril está a ficar distante.

Não confundamos os males de então com os dias extremamente difíceis de  “hoje”,  que já o eram “ontem” e têm vindo a sê-lo nesta caminhada.
Quiçá, terão mesmo alicerces numa data venerada pelos inimigos da Revolução, dum certo Novembro da nossa Primavera.

Os desencantos de hoje e respectivas frustrações nada têm a ver com o 25 de Abril.

Os desencantos de hoje e respectivas frustrações são fruto duma coligação de interesses e conjugação de factores internos e externos.

Às raízes antigas, outras se lhes vieram juntar.

Globalmente são resultado da essência e natureza dum sistema predador:

-Responsável pela miséria, pela fome e pela doença de milhões de seres humanos.
-Responsável pela depauperação de países e pela pilhagem de continentes.

Chama-se: “capitalismo”, com diversas alcunhas:
   -neo-liberalismo,
   -ultra-liberalismo global…
   -e até já, e só, simplesmente da curta palavra “mercado ”.

Em 25 de Abril quisemos que as pessoas, os portugueses participassem no futuro.
Quem deixou, quem permitiu (como e quando) que agora, nos dias de hoje, seja o MERCADO  e os seus tiranetes que mandem em nós ???
…………………………………………………………………………….
Há anos que vimos afirmando que o sistema gera desumanas situações sócio-económicas, com uma aparente e ilusória contrapartida de progresso económico,

onde os ricos tem ficado cada vez mais ricos
e os pobres, cada vez, mais pobres.

Há muito que a economia social foi estrangulada e a vertente financeira (especulação) se sobrepõe à vertente produtiva (economia real). A Banca e a Finança a governar.
Esta é a essência da crise .
Infelizmente, é-o, há muito.

E o que é que isto tem a ver com o nosso 25 de Abril?? Perguntarão.

Tem tudo a ver.

Para nós Capitães de Abril, para a esmagadora maioria de nós, de todos nós, o verdadeiro 25 de Abril assentava numa base programática (o programa do MFA) com os direitos e os deveres do cidadão, dignos dum Estado-Social…e que, graças à luta dos progressistas, a Constituição da República Portuguesa viria a consagrar, em letra, em 2 de Abril de 1976.
Durante cerca de dois anos o MFA e os governos provisórios produziram quase 200 diplomas (Leis, DL e Portarias) que oficializaram as conquistas da Revolução…para alegria e satisfação popular.

Que País e que Estado-Social temos, 39 anos depois?

Há trinta e nove anos quisemos um país novo.
O programa do MFA deu o mote: descolonizar, democratizar e desenvolver. Ter PAZ, como necessidade intrínseca.

Tivemos muitos avanços e grandes recuos. Mas…

Que outra “guerra” ou outras “guerras” nos atormentam?

Dos marcos da Revolução Francesa : Liberdade, Igualdade e Fraternidade (Solidariedade), os poderes instalados só vibram com a Liberdade.
Mas onde andam a Igualdade, Fraternidade e a Solidariedade?
É que a Liberdade, anda de boca em boca, para que haja cada vez mais libertinagem para : “explorar”… “oprimir” … “mentir”…“manipular”.. A mentira e manipulação são a hipócrita bandeira na lapela dos governantes.

Sendo um país diferente :
-muitos sonhos ficaram por realizar,

-muitas situações de injustiça e iniquidade convivem connosco ainda hoje e agora!

-a gravíssima crise interna deve-se à coligação de interesses que nos tem desgovernado!

-e a crise internacional pretendem os poderosos curá-la exactamente com os mesmos falsos remédios que a criaram!

Voltámos a estar em “guerra”.E sabemos onde estão os inimigos.

Estando muito diferentes de há 39 anos, estávamos longe de pensar, que absurdos e negativos indicadores e comportamentos dos governantes hoje nos colocariam próximos duma bancarrota social e financeira, incentivada pelos especuladores agiotas e poderosos da banca e da finança internacional.

Quem nos conduz?

A esta austeridade suicidária geradora da continuada desaceleração da economia?
Ao exacerbar da pobreza?
À mais alta taxa de desemprego e aumento e generalização da precariedade?
À quebra dos salários, já dos mais baixos da União Europeia? À brutal redução das pensões dos reformados?
A uma despudorada e injusta carga fiscal?
Ao ataque ao direito ao trabalho digno e ao Estado Social com a grave redução dos legítimos direitos na saúde, na segurança social, na educação e na justiça?

Com esta política, Portugal tem vindo a empobrecer e as desigualdades têm vindo a aumentar exponencialmente.

Que se passa?
Desde o operário ao licenciado o português é bom profissional em todo o mundo! Que nos fazem ou deixamos que nos façam em Portugal.

E os sucessivos Governos que têm feito?
O 25 de Abril merece mais, merecia mais.
Merecia e merece outra Politica. Outra classe politica diferente da que tem detido o poder desde os Governos Constitucionais que infelizmente não tem sabido, em muitos momentos, estar à altura da grandeza da LIBERTAÇÃO de ABRIL.

Em 37 anos os sucessivos governos constitucionais têm-se mostrado reféns e amarrados a várias grilhetas internas e externas:

a)-Dentro do País/Internamente, prisioneiros:

*-de uma cultura “de poder pelo poder” em vez “do poder pelas pessoas, pelas nossas gentes” e de uma cultura da mentira e da manipulação.

*-da criação de clientelas e de elites sôfregas por lugares ao sol…e que por aí vão propagando formas de estar e de vivência nada condizentes com o espírito de Abril.

*-do asfixiar das responsabilidades cívicas e dos direitos de participação e da cidadania activa que Abril abriu.

*-do prodígio da incompetência e de estratégia de suicídio…que o mais pessimista de nós nunca esperaria após o25 de Abril.

*-da ilusão de alternativas salvadores mas que apenas têm escondido o papel de afundadores do País de Abril, repetindo e alternando a farsa a que se entregaram nesta quatro décadas subvertendo na prática as normas, os fundamentos e as linhas orientadoras da Constituição  de 1976 e ,pasme-se, até querendo atribuir-lhe, a ela e ao TC, os males do País.

*-pela incapacidade de desmontar uma intensa ofensiva ideológica levada a cabo pelos órgãos de comunicação, propriedade do grande capital, cujo objectivo tem sido criar condições favoráveis à continuação da política dos poderosos e à desqualificação da vida dos trabalhadores.

*do enfraquecimento propositado do aparelho de estado para justificar contratações milionárias a privados.

*-da corrupção, da apropriação, assalto e esbulho aos bens, que supostamente deveriam estar ao serviço de todos os cidadãos, mas têm servido para a criação de coutadas geradoras de lucros e escandalosas remunerações e prémios anuais recordes do mundo .

*Reféns, pecado maior, do mando dos grupos financeiros e económicos nacionais, a cuja subordinação, esta nossa democracia já compete com os piores tempos da ditadura.

b)-Lá fora/Externamente,reféns

*-duma débil e falsa União Europeia (um gigante de pés de barro)para onde partimos (em 1986) apenas com dez anos de democracia e com um estrondoso atraso estrutural económico (herdado da ditadura) que só por si merecia, como muitos avisaram, outro tipo de negociações, outras cautelas, leviana e festivamente, desprezadas.

*-da incapacidade de fazer valerem os pontos de vista nacionais, submissos à abdicação e imposição que nos fragilizaram em sectores económicos vitais (como nas pescas, na indústria e na agricultura…) entre outras malfeitorias semelhantes.

*-à cegueira de não perceber que a crise internacional teve responsáveis…os mesmíssimos que agora a querem curar à custa dos mais fracos e do sacrifício da classe que foi sempre a sacrificada:a classe trabalhadora.

*-cúmplices da ignorância do que tem acontecido aos povos que recorreram à designada “ajuda externa” que não é mais do que um “eufemismo” porque significa tudo menos ajuda. É exploração, é especulação, é ingerência…de agiotas, do mercado usuário.

*-duma lógica de integração capitalista que é o aumento da acumulação e concentração de capital dos grandes conglomerados  de empresas, dos monopólios dos países mais ricos  e desenvolvidos que não só engordam à custa do saque dos países do terceiro mundo, como também dos países menos desenvolvidos da U.E..

*-de não perceber que as ditas crises financeiras resultam das crises do capitalismo e baseiam-se sempre na sobre-acumulação de capital na esfera da produção. Não perceber que perante as crises ou impasses o capital monopolista irá tornar-se mais agressivo, predatório e sem escrúpulos, intensificando a exploração dos trabalhadores. O objectivo é a redução do custo da força do trabalho.

*-de não perceber ou ser cúmplices de que nenhum pacto, mecanismo ou programa de estabilidade, poderá, só por si, debelar a crise ou resolver as contradições do capitalismo, como ataque selvagem e bárbaro do capital contra os direitos e vida dos trabalhadores, das camadas populares e dos jovens.

*-de não compreender que com a continuação das politicas e dos comportamentos ,que teimosamente o Capital impõe ( perante o qual se têm vergado os responsáveis portugueses)…com a continuação dessas políticas o desemprego, a pobreza, e as contradições entre os estados-membros da U.E. irão aumentar, com graves consequências para os povos.

*-não entender que a escalada de ataques anti-populares atingirá todos os estados membros da U.E. porque o Capital Monopolista quer é reduzir o custo da força do trabalho, o seu objectivo fulcral é reforçar a competitividade não só em relação aos EUA, mas também em relação às forças emergentes como China, Índia e outras, com mão de obra muito mais baixa… a questão dos défices e dos endividamentos pode ser apenas e tão somente uma cortina de fumo.

Nada disto tem a ver com o que deu razão e motivou o 25 de Abril….
Tudo isto é contrário ao que aliança POVO-MFA queria, na alvorada libertadora…e afasta-se da Constituição mesmo com as sete alterações já impostas.

É essa política, imposta pelo exterior e acarinhada pela contra-revolução - não raras vezes,executada em frontal desrespeito pela Constituição da República, fora da lei Fundamental do País, de há dois anos para cá, sob a batuta da troika ocupante -  a única responsável pelo estado de desgraça a que Portugal chegou.
É essa política de ódio a Abril que urge derrotar e substituir por um política de sentido oposto, logo inspirada nos valores de Abril.
Por isso iremos comemorar os 40 anos de Abril. Por isso os comemoraremos em luta. Com a firme convicção de que é nos valores de Abril - nas suas conquistas políticas, sociais, económicas, culturais, civilizacionais - que se encontra a solução para os muitos e graves problemas criados pelos governos e pelas políticas da contra-revolução internas e externas.

Em 25 de Abril quisemos que as pessoas, os portugueses participassem no futuro.
Fizemos pontes para o futuro.
O poder hoje instalado “quer fazer do amanhã pontes para o passado”.
Quer regredir aos tempos de antes da revolução francesa.
Quer o empobrecimento de todos nós para que um por cento mande em noventa e nove por cento da humanidade. A austeridade é apenas um instrumento duma estratégia. Querem que se caia num “feudalismo moderno”.

Não deixaremos.

Com a certeza de que a conquista de tal solução depende, no essencial, da luta dos trabalhadores e do povo.
Com os trabalhadores e o povo, com a intervenção organizada de todos os homens, mulheres e jovens identificados com os valores de Abril, conquistaremos um rumo novo para Portugal.

Abril vencerá! Porque Abril é o futuro.

A luta continua e com ela continuará sempre…o sonho, a revolução e a esperança: que fizeram Abril, que deram força a Abril.

Tal como há 39 anos. Tal como durante 39 anos.

Há vitórias e derrotas nas constantes batalhas da Vida...[ já dizia B.Brecht ] mas a grande Vitória é continuar a lutar...a lutar pela paz, igualdade e justiça social.A lutar pelos valores de Abril e suas conquistas da Revolução.

“Sejamos realistas desejando o impossível.” Para além de Maio de 68.

Todos nós somos parte da solução.

Repetimos

Abril vencerá! Porque Abril é o futuro.


Manuel Duran Clemente,Coronel Ref.
[Cap. de Abril]

Membro da Presidência do Conselho Português Paz e Cooperação e vogal da Direcção da ACR/Associação das Conquistas da Revolução. Membro do Grupo de Reflexão da Associação 25 de Abril.