sábado, 20 de junho de 2015

AS NACIONALIZAÇÕES * CONSELHO DE MINISTROS (15 de Abril de 1975)

AS NACIONALIZAÇÕES
CONSELHO DE MINISTROS (15 de Abril de 1975)

«O Conselho de Ministros reuniu em sessão plenária em 15-4-75, tendo aprovado um conjunto de programas decorrentes das grandes linhas políticas adoptadas pelo Conselho da Revolução.

«Assim, foram aprovadas as bases gerais de um Programa Nacional de Emprego visando o máximo aproveitamento dos recursos humanos disponíveis, através de redução ao mínimo da tendência à redução de postos de trabalho de eficácia económica e social, no quadro geral de uma economia de transição para o socialismo; criação de postos de trabalho produtivos e remunerados, através de projectos e acções com eficácia económica e social; acções visando a reconversão e formação profissionais de recursos humanos nacionais; acções destinadas a amortecer a pressão da procura de emprego.

«Foi, em seguida, aprovada uma política de preços tendo por objectivos principais, por um lado, garantir o poder de compra das classes trabalhadoras, e por outro lado aumentar os rendimentos dos pequenos e médios agricultores. Nesta base garante-se a estabilização dos preços dos bens essenciais, em especial os alimentares, sendo congelados até ao fim do ano os preços de uma série de produtos entre os quais se destacam, para já: pão, carne, leite, açúcar, azeite e hortaliças. Prevê-se a redução do preço do óleo de amendoim, bem como da manteiga. Outros produtos essenciais, como sejam o peixe, vinho, fruta e hortaliças, estão a ser objecto de análise, dependendo a estabilização do seu preço do saneamento dos respectivos canais de distribuição, nomeadamente através da actuação das empresas públicas a criar nestes sectores. Relativamente ao aumento dos rendimentos dos pequenos e médios agricultores, foi decidido aumentar imediatamente o preço do leite ao produtor para 6$40/litro e 5$20/litro, conforme seja da qualidade A ou B; aumentar imediatamente o preço
1 As medidas de nacionalização aqui previstas foram sendo concretizadas legislativamente nos meses subsequentes, pêlos decretos-leis 206-A/75, de 15 de Abril (Sacor, Petrosul, Sonap e Cidla), 205-B/75, de 15 de Abril (C. P.). 205-C/75, de 15 de Abril (Companhia Nacional de Navegação), 206-D/75, de 15 de Abril (Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos), 205-E/75, de 15 de Abril (T. A. P.), 2G5-F/75, de 16 de Abril (Siderurgia Nacional), 206-G/75. De 15 de Abril (empresas produtoras, transportadoras e distribuidoras de electricidade), 221-A/75, de 9 de Maio (cimentos), 221-B/75, de 9 de Maio (celulose).
Da carne de bovino ao produtor, em cerca de 10 por cento; aumentar, na próxima colheita o preço mínimo de garantia do milho para 4$00/quilo, acrescido de um subsídio de 1$00/quilo entregue no Instituto dos Cereais perfazendo um total de 5$00 por quilo ao produtor. Salienta-se que estes aumentos de preço não terão reflexos no consumidor.



«Foi seguidamente considerado o programa de controlo dos sectores básicos da Indústria e Energia, tendo sido aprovadas as seguintes medidas: nacionalização da produção de electricidade e da sua distribuição em alta-tensão, simultaneamente com disposições de controlo da distribuição em baixa-tensão e sua posterior nacionalização; nacionalização das empresas nacionais de refinação e distribuição de petróleo, bem como do capital nacional da empresa transportadora de petróleo em bruto (Soponata); nacionalização da Siderurgia Nacional, S. A. R. L.; estudo e subsequente aplicação das medidas de controlo, incluindo a nacionalização, quando apropriada, dos principais jazigos de minério e das indústrias de tabacos, cerveja, celulose, adubos, produtos sódicos e clorados, petroquímica, cimentos, metalomecânicos pesados, construção naval e farmacêutica, esta última em conjugação com a aplicação de medidas a cargo do Ministério dos Assuntos Sociais, do Ministério do Comércio Externo e das Forças Armadas; exame crítico da política de concessões de prospecção no «on-shore» e «off-shore» e reforço da capacidade de fiscalização e avaliação da aplicação dos contratos em vigor ou que venham a ser celebrados, continuando o Estado Português a honrar integralmente todos os compromissos decorrentes de contratos anteriormente celebrados com empresas estrangeiras, sem prejuízo das eventuais revisões a esses contratos, a efectuar por acordo entre as partes, após negociações.
«Foram igualmente aprovadas medidas a curto e médio prazo no sector dos transportes e comunicações, designadamente: nacionalização, reestruturação e recuperação dos grandes operadores de transporte ferroviário, rodoviário, aéreo e marítimo, e de comunicações - C. P., C. N. N., C. T. M., T. A. P.; nacionalização, reestruturação e recuperação dos operadores de transportes de massa urbanos e suburbanos, nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto; formação de cooperativas e de comunidades de transporte em torno dos pólos regionais de desenvolvimento; melhoria radical dos sistemas de transporte colectivo em prioridade sobre o transporte privado; revisão dos padrões de segurança e dos níveis de qualidade de serviço; estabelecimento de normas de informação ao público por forma a promover a utilização racional dos meios de transporte disponíveis; promulgação da legislação adequada, assegurando a articulação dos diversos participantes - Municípios, órgãos de gestão, utentes e trabalhadores do sector, sob a égide do Ministério dos Transportes e Comunicações; estabelecimento de um fundo único de financiamento do sector de transportes e comunicações, podendo abranger as indústrias construtoras e reparadora; criação do Gabinete de Planeamento de Transportes e Comunicações na dependência directa do Gabinete do Ministro e integrando os órgãos para o conjunto de intervenções indispensáveis à recuperação e reestruturação do sector.

«Foram seguidamente aprovadas medidas no quadro da reforma agrária, e que obedecem a duas grandes directrizes: uma de apoio aos pequenos e médios agricultores; outra visando resolver a grave questão da propriedade e da exploração da terra no Sul do País. Assim, serão constituídas equipas fixas de técnicos do Ministério, actuando ao nível de concelho ou grupos de concelhos, equipas que se querem o embrião do futuro Serviço Nacional de Extensão Agrária. As primeiras equipas seguirão para o campo dentro de poucos dias, instalando-se nos distritos de Aveiro, Porto, Braga e Viana do Castelo.



«No que respeita à intervenção a levar a cabo ao Sul, vai o Governo publicar legislação com os objectivos seguintes: intervenção nos prédios rústicos que, no todo ou em parte, se situem nos perímetros dos aproveitamentos hidroagrícolas levados a efeito com investimentos públicos, pertencentes a indivíduos ou sociedades que sejam proprietários, no conjunto dos perímetros, de uma área superior a 50 hectares de terra, ajustável tendo em conta as diferenças de rendimento de vários perímetros; garantia de propriedade a favor dos atingidos pelas medidas de intervenção de uma área de 50 hectares; expropriação das propriedades de sequeiro de área superior a 500 hectares de terra média, ajustável em função do rendimento, com garantia de propriedade a favor dos expropriados de uma área de 500 hectares; expropriação de propriedades rústicas irrigadas, da área superior a 50 hectares, ajustável em função do rendimento, com garantia de propriedade a favor dos expropriados de uma área de 50 hectares.

«Outras medidas se impõem também desde já:
«Serão extintas as coutadas e adoptadas medidas de ordenamento cinegético; será publicada legislação definindo inegibilidade, com vista ao saneamento imediato dos corpos gerentes das cooperativas; o Estado intervirá nas cooperativas de transformação onde se encontrem investidos vultosos capitais públicos e com diminuta participação do capital social no montante global dos investimentos, de modo a garantir o pleno aproveitamento dos equipamentos, coordenando a produção das diferentes unidades e promovendo uma gestão eficaz.
«Serão lançadas, enfim, duas campanhas:

«A primeira será uma campanha contra as bruceloses, sendo indemnizados os proprietários dos animais cujo abate se imponha; a segunda é uma campanha de promoção da produção de cereais forrageiros, em especial de milho, visando reduzir a nossa dependência do exterior quanto a estes produtos. Esta campanha tem como objectivo um incremento significativo da produção anual. Será realizada em especial nas zonas de minifúndio e integrará acções para melhoria técnica das explorações e apoio ao associativismo agrícola.

«Após apreciação destes programas, o Conselho de Ministros aprovou uma proposta apresentada pelo ministro dos Transportes e Comunicações no sentido de ser revisto o montante disponível para aumentos de salários, anteriormente fixado pelo Governo.
«Finalmente o Governo considerou uma proposta de reestruturação apresentada pela administração dos C.T.T.-T.L.P., deliberando não ser de pronunciar-se sobre ela dado que não fora previamente discutida entre a administração e os trabalhadores.

1 As medidas de nacionalização aqui previstas foram sendo concretizadas legislativamente nos meses subsequentes, pelos decretos-leis 206-A/75, de 15 de Abril (Sacor, Petrosul, Sonap e Cidla), 205-B/75, de 15 de Abril (C. P.). 205-C/75, de 15 de Abril (Companhia Nacional de Navegação), 206-D/75, de 15 de Abril (Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos), 205-E/75, de 15 de Abril (T. A. P.), 2G5-F/75, de 16 de Abril (Siderurgia Nacional), 206-G/75. de 15 de Abril (empresas produtoras, transportadoras e distribuidoras de electricidade), 221-A/75, de 9 de Maio (cimentos), 221-B/75, de 9 de Maio (celulose).

  
VASCO GONÇALVES:

«O Conselho da Revolução apreciou a situação da economia, na actual fase do processo revolucionário português, verificando, designadamente, a deficiente utilização da capacidade produtiva do País, em recursos humanos e materiais, acompanhada da redução do nível de investimento, o crescente desequilíbrio da balança de pagamentos e a persistência da pressão inflacionista, embora em atenuação nos últimos meses. Tal situação é consequência natural do desenvolvimento de um processo revolucionário, que tem vindo a desmantelar o poder do capital monopolista, agravado pela reacção dos seus detentores, que a todo o custo têm tentado Impedir a perda dos seus privilégios. Vivemos, assim, uma crise, largamente resultante, não só da herança das estruturas económicas do fascismo e colonialismo, como da desagregação do sistema capitalista em Portugal.
É agora necessário e imperioso reconstruir a economia, por uma via de transição para o socialismo; está em causa consolidar os primeiros passos concretos da nossa Revolução Socialista e realizar novos avanços nessa direcção, atendendo a dois objectivos primordiais:
- Garantir a independência nacional, no arranque para um socialismo verdadeiramente português, evitando situações extremas de crise económica, que nos coloquem em reforçadas e delicadas dependências externas;
- Identificar a dinâmica da classe trabalhadora com o projecto de construção do socialismo.
«O Conselho da Revolução analisou os trabalhos em curso, no âmbito do conselho económico, relativos à preparação dos programas de medidas económicas de emergência, tendo definido as seguintes orientações gerais:

a) É necessário que os trabalhadores sintam que a economia já não lhes é estranha, ou seja, que a construção socialista da economia é tarefa deles e para eles. Isto implica a afirmação clara do princípio do controle organizado da produção, pêlos pelos trabalhadores, para objectivos de produção e eficiência, coordenados pelos órgãos centrais de planeamento, segundo esquemas a definir com brevidade.

b) É indispensável estabelecer uma limitação dos consumos a partir do princípio de máximo nacional de rendimento disponível, extensível aos titulares de todos os rendimentos e não apenas ao trabalho por conta de outrem.

c) Igualmente se torna indispensável garantir a contenção dos preços de bens essenciais, sobretudo alimentares.

d) Deverão ser completados os passos já dados no sentido da nacionalização dos sectores básicos de actividade económica (indústria, transportes e comunicações).

e) Deverá ser aplicado um programa progressivo de reforma agrária, integrado num todo coerente de medidas de política económica. Verificadas as condições anteriores, será legítimo fazer apelo à mobilização dos trabalhadores para o emprego produtivo, mobilização necessária à construção da sociedade desejada pelo Povo Português.

«Na realidade, esta sociedade, que todos nós desejamos construir, tem que ser, antes de mais, obra do Povo Português. Pensamos que, ao tomar as medidas que hoje acabámos de tomar, damos mais um passo irreversível e inequívoco no sentido dos objectivos que nos animam. Estes factos devem ser profundamente meditados pelas classes trabalhadoras, porque as condições que se põem aos trabalhadores, em matéria de relações económicas, de relações com o Estado, de relações de trabalho, são hoje diferentes daquelas que se punham antes do 11 de Março. Os passos que o Governo Provisório e o Conselho da Revolução têm dado, mostram, inequivocamente, o sentido em que queremos encaminhar a nossa Revolução. Nós queremos consolidar a democracia em Portugal e, por uma via de transição, passar ao socialismo, que é o nosso objectivo a longo prazo, o nosso objectivo último. Mas a construção do socialismo e o percurso por essa via de transição, que é cheia de escolhos e dificuldades e de luta quotidiana, em todos os momentos e em todas as horas, não é possível sem que os trabalhadores estejam nisso sincera e conscientemente empenhados. Essa obra de construção, será obra deles e não só deles como das outras camadas da população portuguesa, interessadas no progresso da sua pátria. Isso impõe aos trabalhadores que meditem sobre os objectivos imediatos e a prazo, das suas lutas, que estreitem as suas relações e a sua confiança no Governo Provisório e com o Movimento das Forças Armadas, se mais é possível estreitar-se essa relação Povo - M. F. A. Nós pensamos que estamos a caminhar, pela via do futuro, pela via do progresso da nossa pátria, pela via do progresso político, económico e social, pela via da liberdade, da verdadeira conquista da liberdade. É por isso que hoje foi dado o relevo às decisões que tomou o Governo Provisório. Nós pensamos que todo o Povo Português deve meditar bem nestas decisões que estão na construção de outras, que tomámos logo após o 11 de Março. Procuramos, quotidianamente, pôr em prática os objectivos que nos propusemos ao desencadear a Revolução do 25 de Abril. As pessoas serão julgadas por aquilo que fazem e não pelas suas palavras.

«Penso, pois, que as decisões hoje tomadas são actos pelos quais o Governo Provisório e o Conselho da Revolução devem ser julgados pelo Povo Português.»

domingo, 14 de junho de 2015

LIBERDADE

DOCUMENTO DE CONTESTAÇÃO APRESENTADO á Hierarquia Militar em 1973

Excelência

MANUEL ANTÓNIO DURAN DOS SANTOS CLEMENTE, capitão do Serviço de Administração Militar ( 50474411 ) em serviço na Direcção do Serviço de Fortificações e Obras Militares e na Corporação das Indústrias, ao abrigo do Artº 12º do Estatuto do Oficial do Exército, requere a Vª Exª passagem ao Quadro Complemento do Exército, pelos motivos que passa a expor:

O requerente foi aluno do Instituto Técnico Militar dos Pupilos do Exército, onde completou o Curso Geral dos Liceus e ainda o curso técnico/bacharel de Contabilidade, tendo sido sempre o primeiro classificado nos mesmos.
O requerente foi aluno da Academia Militar onde completou, após tirocínio na EPAM, o curso de Administração Militar, como primeiro classificado.
Uma análise concreta e exaustiva do que tem sido a sua vida – constante evolução de formação pessoal e consequente modificação dum estado consciente do que o rodeia – o signatário, considerando que toda a forma de consciência é uma reacção a um estilo ou conhecimento de vida anterior e uma assimilação de realidades novas, admite ter sido sujeito, até ao momento, a três distintas fases de consciência. (*)

É sobre elas que tece as seguintes considerações:


(*)

1ª fase: Primeira Consciência – o condicionamento do processo reflexivo do conhecimento

2ª fase: Segunda Consciência – a flutuação do condicionamento do processo reflexivo do conhecimento

3ª fase: Terceira Consciência – o conhecimento reflectido


I. Primeira Consciência – condicionamento do processo reflexivo do conhecimento.

Oito anos de vida interna duma escola que integra um ensino secundário tradicional num ambiente inteiramente militar ( no caso presente, desde os onze aos dezanove anos de idade ), correspondem sensivelmente à passagem por esta fase. Por circunstâncias havidas nas ocasiões próprias como muito positivas – bom aluno, comportamento exemplar, prémio de honra, medalha de ouro, comandante do batalhão escolar, etc. – foi o requerente submetido, para além do que já era condução normal, a um tipo de heteronomia ( fase da educação em que o educando ainda é incapaz de se governar a si próprio ) especial, que inevitavelmente o levaram ao ingresso na Academia Militar. Este processo insere-se num sistema de formação da personalidade do educando, visando um objectivo. Este objectivo surge, assim, na consciência do indivíduo como o objectivo mais centrado, mais focalizado, mais conhecido, mais familiar, menos inseguro. E surge exactamente na idade ( adolescência ) em que o “ o adolescente sente o seu desequilíbrio intelectual, afectivo, social e anseia pelo equilíbrio: procura firmeza e coerência; sente o encantamento dos grandes ideais, o exemplo das personalidades fortes. Nenhuma idade da vida apresenta mais promessas e mais ameaças nem um tão abundante e espontâneo desabrochar de energias formativas e de tendências desagregadoras. “ ( Mauro Laeng – Pedagogo italiano ).

Aos dezanove anos uma pessoa a quem vestiram uma farda desde os seus onze anos, que obtém ( com o maior brio pessoal de adolescente, e até foi estimulado a fazê-lo ) um conjunto de conhecimentos em que a faceta militar toma na vida proporções especiais, quase únicas, só acidentalmente esse indivíduo poderá tomar consciência duma panorâmica mais ampla do conhecimento em geral e seguir um rumo mais de acordo com as suas características e capacidades intrínsecas.


II. Segunda Consciência – flutuação do condicionamento do processo reflexivo do conhecimento.

Ao entrar na Academia Militar, ao requerente como a todos os presentes, na primeira formatura ainda trajando civilmente e de uma forma simultaneamente grave e ligeira, foram dadas vinte e quatro horas para nelas decidir se desejava ou não continuar na Academia Militar. A partir daí era o irreversível? Praticamente era. Restavam dois tipos de solução para sair da referida Academia. Dois tipos de solução de carácter violento e agressivo para com a estrutura pessoal de cada um:

a) A expulsão através dum Conselho de Disciplina após ter atingido em faltas sucessivas 40 dias de detenção ou 20 dias de prisão escolar;
b) A eliminação por falta de aproveitamento escolar em dois anos.

Pelos factores que a seguir aponta o requerente terá iniciado, pouco tempo depois da sua entrada para a Academia Militar, aquela a que designou de “ Segunda consciência “. Os factores aludidos são os seguintes:

Iº O estabelecimento de fins obrigatórios ( ou deveres ) e o enunciado de ordens ( ou imperativos ), a que se juntavam as matérias gerais ou especiais de carácter universal, ligados ao nível do conhecimento militar processa-se na Academia Militar ao tempo do requerente ( I96I a I964 ), duma forma muito menos densa e intensiva relativamente ao que se passa numa escola militar de ensino secundário interno. Há um desagregar de conceitos e de limites no contacto e vivência diária com a nova estrutura circunstante à pessoa. Jovens que vieram do liceu, jovens que vieram de colégios particulares, jovens que vieram dum “ mundo “ mais amplo do que aquele em que viveu o requerente, passam a ser seus companheiros no dia a dia e com estes os professores que desfilam perante a aguda observação da juventude que os vê satisfazerem uma rotina, e com estes também os oficiais-instrutores, cuja maioria se esforça para não deixar que se veja neles uma mal contida frustração. Todos eles faziam parte da estrutura acima referida e diminuem muito a chama acesa pela instabilidade da adolescência e pelo ambiente condicionadíssimo duma escola interna militar de ensino médio e secundário.
2º A avidez do conhecimento mais directo do mundo levou o requerente a iniciar um processo de assimilação desse mesmo mundo que praticamente desconhecia ou conhecia através dum prisma deformador do mesmo. Essa assimilação surge substituindo o que até aí era acomodação. O regime semi-interno da Academia Militar permitia o acelerar da substituição ( do conformismo ) da adaptação pela ( luta e inconformismo ) da assimilação, isto é, da adequação da inteligência às coisas como a verdade de cada um e a da certeza de que o que é o conhecido só poderá ser conhecido á maneira daquele que é sujeito a esse conhecimento. ( Faculdade cognoscitiva ).

Em presença de tais factores o requerente passados cerca de oito meses dá conta dos condicionamentos anteriores porque o fizeram passar e tem presente ( duma forma ainda débil ) o irreconciliável da estrutura para onde caminha com a estrutura da sua pessoal verdade, isto é, não ratifica como conformes com a sua própria natureza racional os princípios e normas sobrevalorizados na sua adolescência.

E isto é perfeitamente normal. O requerente sente encaminhar-se para a independência pessoal de indivíduo responsável ( adulto ) para atingir a sua autonomia considerada por muitos autores como a última etapa do processo, cujas fases precedentes são na infância a ausência de lei ( anomia ) e na adolescência a legislação proveniente do exterior da pessoa para governo de si própria ( heteronomia ). É claro que a autonomia é uma aquisição gradual com vários níveis de desenvolvimento e tanto mais lenta e gradual quanto mais sensível a formas anteriores for esse indivíduo. Nos diferentes níveis de desenvolvimento dessa autonomia vão aparecendo vários tipos de autonomia: autonomia sensório-motora ( andar ); autonomia expressiva ( linguagem ); autonomia ética ( liberdade moral, segundo princípios universais transformáveis ).

Assim, face à impossibilidade de sair da Academia Militar duma forma harmoniosa, facto que se abstém de classificar, o requerente vê-se obrigado a optar por uma das duas soluções de carácter violento. Na expectativa duma expulsão ausentou-se por alguns dias. Encontrado por seu pai, cerca de seis dias depois, é conduzido por este à anterior situação. Nesta situação o requerente apresenta longa exposição que é queimada à sua frente.

Considerada a sua “ imaturidade militar “ (!), acrescentadas, à justificação da sua ausência, apreciações subjectivas por parte dos seus superiores ( em que a atitude do requerente é tida como fruto de “ desvairamento de ordem passional “ ) este nem teve tempo, envolvido num clima de vertiginosa recuperação heterónoma, de se aperceber que não era a sua nova consciência e a sua ( débil ainda ) autonomia, que estavam a ser analisadas. Era sim a imagem, reflexo de uma outra pessoa, que oito anos de adolescência vividos num “ mundo especial “ tinham construído. Construção essa que parecia prometer passada a “ crise “, portanto, considerada momentânea, a fabricação de mais um prometedor Oficial do Exército.

A debilidade da autonomia a que não era alheia a resistência duma educação anterior manifesta-se. O espectro da autoridade de grau constante durante a adolescência impõe-se e marca profundamente a reacção do requerente à pressão a que é sujeito após a sua falhada tentativa de saída da Academia Militar.

Autoridade que deveria modificar-se com, o crescer em idade, discernimento e responsabilidade do educando que se emanciparia a pouco e pouco da tutela do educador com o fim deste, bem preciso, de lhe facilitar e não lhe impedir a obtenção da maturidade. “ Autoridade educativa, como diz Laberthonnière, que não é escravizadora mas libertadora “. Autoridade educativa que apoia e reforça o processo através do qual o educando se conquista a si próprio, fomentando a auto-consciência e o auto-governo. Autoridade educativa que atinge o seu fim tanto melhor quanto melhor conseguir a persuasão, a concordância, a colaboração do próprio educando, de maneira a promover nele, com uma gradual transferência de responsabilidade nas formas de auto-educação e de auto-governo, a obtenção da autonomia e da liberdade próprias do adulto. “ O próprio adulto permanece, porém, sujeito às autoridades naturais e às autoridades legitimamente construídas ( para cuja formação, de resto, ele pode contribuir de modo directo ou indirecto ). O abuso da autoridade ou despotismo, leva à sua esclerose e inflexibilidade lançando as premissas da sua própria destruição “ ( Lessico Pedagógico – M.L. ).

A influência duma autoridade exacerbada controla no requerente a evolução da sua autonomia e manifesta-se nos seguintes exemplos:
I) Abulia, por estado depressivo, a que corresponde ausência de reacção às novas forças exteriores colocadas perante a sua vontade;
2º) Atraso do processo de “ assimilação “ da sua verdade pelo regresso à “ acomodação “ anterior, a que novas facetas, escolares e extra-escolares, o conduzem atordoando-o e desviando-o das suas verdadeiras preocupações.

Essas facetas resumem-se como se segue:

a) O requerente relativamente à sua falta de natureza disciplinar ( ausência ilegítima ) é castigado apenas com 15 ( quinze ) dias de prisão escolar, ficando ( surpreendentemente ) aquém dos ( pretendidos ) 20 ( vinte ) dias para ser expulso. O requerente tem consciência de que a sua falta era normalmente punida com muito mais do que vinte dias de prisão escolar. Para o efeito ( expulsão ) terá actuado ( causa ) conforme actuou. Também aqui a inobservância do normal efeito devido a uma normal causa procede para com o ser actuante ( o requerente ) como linha de força exterior à sua vontade, tal como o motivo ( obrigatoriedade rígida de continuação na Academia Militar ) e reforçam a referida “ acomodação “.
b) O requerente passados dois meses, apesar das atribulações, novamente motivado por um aparente prestígio pessoal, consegue aproveitamento escolar e passa o primeiro ano. Cimenta-se a “ acomodação “.
c) Simultaneamente, ao sucesso escolar, o requerente é convidado a tomar parte nos “ II Colóquios Culturais entre as Academias Militares Espanhola e Portuguesa “ em que o requerente, passados quatro meses do ponto culminante da sua “ Segunda consciência “, vê o seu trabalho literário ser o primeiro classificado, e, após comparticipação destacada nas intervenções dos mesmos colóquios em Saragoça, receber por escrito o louvor que a seguir transcreve:
“ Louvado por Sua Exa. o General Comandante da A.M., porque tendo tomado parte no Concurso aberto na Academia para elaboração das duas teses e apresentar pelos seus alunos no II Colóquio com a Academia General de Saragoça, obteve a melhor classificação no trabalho que apresentou em uma delas, com o título: “ Camões: o homem, a sua época e a obra “. Neste trabalho o Cadete-aluno Santos Clemente manifestou, além, de viva inteligência, uma capacidade de investigação, um poder apreciável de análise e síntese e marcada elegância na redacção que são tanto mais de realçar quanto é certo que os alunos dispuseram de tempo relativamente curto para o estudo da vasta bibliografia sobre Camões e Cervantes, e para a completa elaboração do seu trabalho, que em grande parte teve de ser realizada durante os períodos lectivos paralelamente aos trabalhos escolares. O brilho e poder de argumentação que o Cadete Santos Clemente revelou nas duas intervenções durante os debates do colóquio, constituíram outra faceta que julga dever focar, porque permite augurar-lhe futuros êxitos em actividades culturais designadamente nas de discussão e polémica e merece, por isso, uma palavra de caloroso estímulo que lhe dirige com muita satisfação. ( O.S. da A.M. nº 30 de I963 ).

Cimenta-se ainda mais a acomodação? Não. Isso acontece só aparentemente pois no subconsciente e em função do grau de consciência do conhecimento adquirido, o requerente nunca mais regressa ao ponto anterior. Por força duma situação que lhe é imposta, o requerente sente-se “ sem esperança verdadeira e sem angústia verdadeira, como se tomasse banho de algodão, seguro e confortável “ ( Alain Tanner ) mas vai gradualmente deixando vir ao de cima as bases da construção duma autonomia que assim cresce e com a qual cresce a consciencialização da sua enorme frustração.

“ Diário de 8 de Janeiro de I964 – À medida que caminho interrogo-me sobre o meu futuro. Para tanto tento observar esta plataforma onde me situo agora. Aqui estou, para muitos e para mim próprio, acabando o curso desta Academia Militar, Daqui a uns tempos, eu sei e todos sabem, poderei ser oficial do exército. É verdade!...

Sabes então o que se passa? À medida que caminho, a cada interrogação que profiro, eu obtenho sua resposta… Vou sentindo que a vida se me escapa… que vou morrendo aos pedaços, pouco a pouco, deixando de ser “ eu “. Corrói-me a própria resignação imposta, destrói-me o próprio conformismo imposto… Todo este meu lutar é de resultado supérfluo, todo ele é o construir duma armadura que me cegue, que me transforme para poder caminhar sem ver para onde, nem como. Assim, a própria atmosfera é a minha prisão. Sou como condenado arrastando pesadas grilhetas… em vão.

Só me resta agir, agir para que este “ em vão “ se torne precioso, útil.

Estes últimos anos da minha existência têm sido vividos de baixo de loucas hipóteses. Atravesso o que não é coerente comigo na esperança do “ mais tarde “. Mais tarde conseguirei? Assim, me tenho e me têm iludido também!

À medida que caminho, reparo que esse “ mais tarde “ é uma traição. Esse mais tarde só poderá existir com uma loucura, com algo a que chamem loucura; e eu nesse “ mais tarde “terei forças para lutar?

As horas que passam sobre cada um de nós, vão-nos enfraquecendo e transformando… se nos encontramos em certas atmosferas…

“ Mais tarde “arreigado a uma cómoda situação, doente duma enfermidade incurável “ eu “ já não existiria. De mim haveria o meu nome e comigo as recordações… Peça duma máquina habituada ao vai-vem do dia a dia… alcatruz da nora… sem nada construir, sem nada transportar!

Viajo triste por estas encruzilhadas.

Eu não posso ser alegre aqui… aqui suicidando-me! Sou-o por vezes quando a sensibilidade me desvia a outras paragens. Mal acaba esse desvio e caio na minha realidade volto a acrisolar-me na minha tristeza e então todos os dias me parecem sem sol, amargos e cinzentos!

Sinto-me doente… doente assim nesta amargura que é a própria cama onde hoje me deito… onde só depois de mil voltas consigo adormecer. E que há em cada destas voltas?

Um pensamento, uma tortura, uma suposta solução, o entrechoque de mil e uma coisas…

O que hoje quero já não é novidade para mim… O que hoje quero já o quis antes! Pensaram-me, então, doente. Desenharam diagnósticos a meu respeito e receitaram-me remédios…

Para eles eu vou recair. Para mim quero ressuscitar completamente.

Oxalá consiga expulsar de meu corpo os resíduos dessas falsas panaceias… que ainda me entorpecem os membros e os sentidos…!

Oxalá a minha ânsia não prolifere a minha cegueira aqui iminente. Não me interessa ser feliz, por ter tudo o que vejo, sendo cego.

Prefiro que a minha integridade não quebre mais a um reajustamento, a uma adaptação incoerente, despropositada, absurda e até desumana.

Quero a VERDADE COMO ARMA E O AMOR COMO ESCUDO… Sinceramente que mais posso procurar?

Que o futuro me traga o eco destas palavras e me encontre noutro sítio para as poder ouvir com outro tom. “
( FACTOS E FACÇÕES – livro não publicado. Autor: o requerente ).


Em face do estado de espírito que se infere da análise do que expôs anteriormente e do que esta última transcrição manifesta, o requerente no seu último ano de Academia Militar ainda iniciou, perante um muito decidido “ agora ou nunca “, nova insistência para sair daquilo que não queria. Nessa ocasião o seu projecto era reprovar dois anos seguidos. Ainda se recorda de que em todas as “ primeiras provas de frequência “ a nota mais alta que obteve foi oito valores. Ainda se recorda que a sua tentativa para reprovar numa cadeira semestral, foi em vão tentada. Ainda se recorda de que se sentiu incapaz para levar a bom termo um processo que ainda ia demorar mais dois anos, num ambiente que já não suportava naquele instante. Ainda se recorda que, perante tudo isso, desistiu confiando que futuro imediato lhe trouxesse a oportunidade de ser atendida a sua humana e legítima pretensão.

III. – Terceira consciência – o conhecimento reflectido.

Ao requerente existe, sem dúvida, dificuldade em expor o que se passa durante um período da sua vida de uns longos oito anos a que corresponde esta terceira fase, ou seja o período entra a saída da Academia Militar e o actual momento. Essa dificuldade é tanto maior quanto é certo ter sido o requerente obrigado a uma redobrada vigilância sobre si, e cuidada atenção, ao viver como que duas vidas distintas:

a) Uma , no cumprimento das exigências militares como carreira profissional, para a qual não se sente nunca vocacionado mas se sente impelido em bem servir ( por razões diversas: quase totalmente relacionadas com o brio pessoal e profissional ou com a dependência da sua catuação de bem-estar e bem-servir de terceiros: soldados, sargentos, funcionários civis e até oficiais );
b) Outra, a vivência ávida, em períodos de tempo muito mais escassos, de actividades extra-militares muito mais de acordo com a sua estrutura pessoal.

Estas duas formas de vivência sujeitas a agudas observações e sensibilidade, ampliam de forma intensiva o conhecimento fazendo desfilar pelo requerente tomadas de consciência multiformes, julgando a propósito oportuno transcrever ( com sublinhados livres ):

“ Livre cultura… A liberdade da Cultura – ou não será melhor dizer, pura e simplesmente, a LIBERDADE? – não é benesse que por suposta magnanimidade se outorgue ou se nos ateste “ post factum “ – à laia de nota de bom comportamento; é sim objecto de conquista permanente e de indefectível defesa e de ciosas vigilância de hora a hora. “ ( Medalha Goethe de Ouro, - discurso: PAULO QUINTELA )

“ O ministro da Educação acentua que “ Portugal não constitui mundo à parte “. Uma sociedade nunca pode constituir mundo à parte. Desde a sociedade familiar à freguesia, à cooperativa, à oficina, ao concelho, distrito, país e continente, nenhuma sociedade pode viver isolada, como nenhuma fonte pode verter água sem o veio que a une à madre; estamos integrados “ na Europa e num mundo em evolução cujas conquistas nos são presentes nas nossas casas todos os dias”. Já citámos estas palavras do ministro e vamos repeti-las. Estaremos tanto mais presentes, e actualizados quanto mais em comunicação com os outros e seremos tanto mais respeitados quanto mais respeitemos o pensamento e a maneira de ser dos outros. Por não ser um mundo à parte é que uma sociedade é núcleo sempre em evolução e de geração para geração, mudam, desaparecem os homens, mudam as famílias, novos contactos e novas fronteiras se firmam para as províncias e para as nações. As quezílias dos avós raras vezes são as más vontades dos netos e as raças proscritas de hoje, são as dominadoras de amanhã. Uma sociedade constrói-se, mas não pode cristalizar, sob a pena de se condenar a si mesma. Evoluciona sempre e tanto mais quanto mais vigor tiver, quanto menos receio mostrar do caminho que pisa. Fala-se muito de blocos, de matéria firme, de barreiras intransponíveis. Quando na verdade a força de uma sociedade, o seu poder de penetração são dúcteis. Vêm do espírito. Mole é a água e rebenta rochedos, ninguém viu o pensamento e é ele que destrói todas as violências, imponderável é o amor e só por ele a espécie se continua. A sociedade que ambicionamos será o que nós quisermos que ela seja. Ma só pela força da razão e pelo entendimento humano. Tudo o mais é desperdício, condenado a ficar para trás na caminha dos povos. Cisco ou rebotalho postos à margem. Só o homem conta. “ ( Editorial: Momento. Da “ República “ de 22/3/I973 )

“ O certo é que o homem, neste intranquilo pós-guerra, quanto mais se abisma nos mistérios dos cosmos, tanto mais sente a urgente necessidade de dobrar-se sobre si mesmo, na intimidade da sua inconsciência, no sentido do eu profundo, cujo ser é o seu dever ser, onde se entrelaçam liberdade e valor, ser e dever ser, indivíduo e sociedade, existência e transcendência: só então o homem se sente na plenitude de seu ser como pessoa, valor-forte de todos os valores, a prescindir do qual não teriam sentido as mais rigorosas e verificáveis conquistas das ciências. “ ( Pluralismo e Liberdade – MIGUEL REALE )

“ A liberdade na vida social deve dar a todo o homem a possibilidade efectiva não só de satisfazer as necessidades da sua existência, mas também manifestar as suas energias criadores e realizar a sua vocação. Por outras palavras, o significado real e verdadeiro da liberdade exige da sociedade uma organização que garanta a cada homem a possibilidade material de trabalho e da criação. “
( O Cristianismo e a Luta de Classes – N. BERDIAEFF )

“ O mundo é um conjunto de processos, no qual as coisas e as suas imagens mentais, ou seja, os conceitos não estão parados mas se alternam continuamente “
( Sobre Fenerbach – F. ENGELS )

“ Não convém admitir outras causas dos fenómenos da natureza além daquelas que são verdadeiras e suficientes para os explicar “.
( NEWTON )

“ Por meu lado, estou quase em crer que não haverá um único Sábio que admita existir um único homem que cometa faltas de bom grado e que, voluntariamente, pratique acções indecorosas e más. Muito ao contrário, os Sábios não ignoram que todos os que praticam indecorosas e más acções o fazem contra sua vontade. “
( Protágoras, 345 – PLATÃO )

“ Deus não pode saber de antemão, as coisas de um modo distinto do modo por que as conhece na vontade humana. Omito o outro modo monstruoso de clamar: eu não poderei querer mais do que aquilo que por necessidade tenho de querer… A nossa vontade não seria tal se não estivesse em nosso poder o querer e o não querer. E porque isto está no nosso poder, por isso somos livres. Na verdade, não seríamos livres se não estivesse no nosso poder. Donde Deus é omnisciente em nosso poder e de nosso poder… “
( Ideário. A Evódio. SANTO AGOSTINHO )

“ O homem possui livre-arbítrio, porque sem ele seriam vãos os conselhos, exortações, preceitos, proibições, recompensas e castigos. Para demonstrá-lo até à evidência é de notar que há seres que agem sem ajuizar, como a pedra que cai, como todos os seres desprovidos de conhecimento; outros que agem ajuizando, mas sem ajuizamento livre ou seja o caso dos animais irracionais; pois a ovelha, quando vê o lobo, julga que deve fugir mas este juízo é puramente natural e não livre, porquanto não julga por comparação mas por instinto natural, igual ao de todos os animais irracionais. O homem, no entanto, age ajuizando, pois que pela sua faculdade cognoscitiva julga que deve fugir disto e procurar aquilo, e porque este juízo não é naturalmente instintivo no referente a acções particulares, mas sim racionalmente discursivo, age em liberdade de ajuizamento, podendo decidir-se entre coisas opostas, pois, no que se refere a coisas contingentes, a razão pode entre os contrários, como pode ver-se nos silogismos dialécticos e na persuasão oratória, e uma vez que as acções particulares são coisas contingentes, o julgamento da razão pode optar entre resoluções opostas, e não é obrigada a optar uma com necessária exclusão da contrária. Portanto, necessariamente, sendo o homem um ser racional é por isso mesmo livre o seu arbítrio. “
( Summa Theologia – SÃO TOMÁS DE AQUINO )

“ A FILOSOFIA não é um engodo para embair o povo, nem é própria para a ostentação; não consiste em palavras, mas sim em obras. Também não tem por objectivo passar o dia como um entretenimento aprazível, para tirar a náusea à ociosidade: ela forma e modela a alma, ordena a vida, governa os actos, mostra o que se deve fazer e o que se deve omitir, está sentada ao timão para dirigir a rota entre as dúvidas e as flutuações da vida. Sem ela, ninguém pode viver isento de temores; ninguém pode viver com segurança, em cada hora acontecem inúmeros acidentes que reclamam um conselho que, só a ela, se deve pedir”… “ Sustém-no e afirma-o para que aquilo que é o ímpeto da tua alma chegue a ser o hábito da tua alma. “ ( Carta VXI a Lucílio – SÉNECA )


Que pretende significar o requerente com as transcrições que acaba de fazer e com as que faz em anexo? Demagogia? Diletantismo? Adesão a todas as ideias-força que fez desfilar com pretendida exaustão?

O requerente pretende significar o abismo existente entre o conhecimento limitado por condicionamentos já referidos e um conhecimento avidamente apreendido, analisado e interiorizado ao longo dos anos da passagem pela vida; preocupado por ter desta uma consciência evolutiva, séria, autêntica, honesta… libertando dia após dia os condicionamentos anteriores do processo reflexivo do conhecimento em geral. Conhecidas que são já as bases ( tão frágeis e tão impostas ) duma carreira profissional iniciada sob o signo da violentação da verdadeira estrutura da pessoa que lhe trouxe esse conhecimento mais vasto, mais disperso e reflectido? Vejam-se algumas transcrições do requerente do seu livro não publicado: CÍRCULOS E CICLOS.

“ … a intensidade, a força e a profundidade que tu viveste, uma enorme quantidade de acontecimentos de toda a ordem, alguns até seriamente traumatizantes, que por si só ou transformam as pessoas ou aceleram tremendamente a sua evolução. “

“ Eu sei que tudo isto está claro para ti. E sei que apesar da claridade com que o vês, e por cima da consideração que deves a terceiros e antes mesmo de analisares em qualquer momento as possibilidades de sair do impasse em que te encontras, tu te interrogas a ti mesmo sobre se estás equivocado, se a razão não estará do outro lado, se não és tu o que está falhando… Eu julgo que tens razão e que tudo está certo em ti. Refiro-me ao fundamental neste problema. Logo, é a partir daqui que tens que analisar a situação, sem perder mais energias interiores em interrogações que quando são muito insistentes levam realmente a um estado de auto-sugestão em cadeia nada construtivo e até um pouco doentio psicologicamente. “

“ … Pergunto-te: queres actuar cerceada desta forma a tua liberdade? A partir de um ponto determinado serás incapaz e já não é só culpa tua? Será incapaz de agir e de funcionar como o tens feito no desenvolvimento duma actividade em que tens dado o melhor de ti próprio? Serás incapaz de discernir e de assumir responsabilidades, de cumprir o que é imposto? Em suma os excessos ( do exterior para ti e de ti para o exterior ) sobre as tuas funções fisiológicas e psicológicas terão decidido antes de ti? Criaram eles a estrutura da libertação do condicionamento dum processo? “

“ De análise em análise é oportuno perguntar, ainda: foram certas atitudes do exterior que adoeceram certos homens ou foi a reacção a essas atitudes que lhes deu a saúde suficiente para enfrentar esse exterior? “

“ Há o concreto da coisa que é imposta. É imposto fazer ou ser isto. É vedado em dada ocasião deixar de fazer ou de o ser. Não se impõe ignorância. Nenhum regulamento impõe desconhecimento, nem impões a construção do conhecimento. Nem impõe qual o conhecimento. É impossível. Pode estar regulamentado o conhecimento útil mas carecerá sempre o regulamento de ratificação subjectiva. E depois, bem assim que dizer da honestidade e da verdade defendidas? Se o desconhecido de ontem bate hoje à porta dum conhecimento que se abre a outra verdade… que dizer da honestidade que passa serena e incorrupta? Obrigar o utente desta a fugir, a exilar-se longe onde não estorve?! Onde está o cidadão do mundo? Porque o deixaram nascer? Há que destrui-lo? Destrui-lo longe ou perto? “ “ E existem tantas formas de destruição e de agressão… umas claras; outras espectaculares – muito condenadas nos meios de divulgação pública – outras, essas, silenciosas. A maior parte das vezes as pessoas desconhecem estas e quando chegam ao conhecimento público o bem comum é escudo que cobre muito egoísmo, muita desonestidade mental, muita incompetência, desde logo muita destruição e muita agressão e não raras vezes os agredidos são os provocadores. Pode ser uma questão de escala que só consente uma medida ou de prisma só com um lado; e o absurdo fecha-se sobre si próprio com um ousado e descarado ciclo vicioso. “

“ E depois há os casos dos indivíduos inertes, psicologicamente acabados para o exercício de funções que deixaram de ser capazes de executar e que não dão conta disso antes de chegar ao tal ponto de irreversibilidade do conhecido posterior para o desconhecido anterior. Chegados a esse ponto jamais serão, voluntariamente, homens inertes e psicologicamente acabados ( só aparentemente ) e a sua luta processa-se no mesmo terreno dos incoerentes e demagogos, dos que possuem quase todos os outros meios que desequilibram no conserto dos homens o equilíbrio a que só o pensamento e as ideias constroem. “

“ Cá estou em Paris.
Descobri o adjectivo para determinado estado de alma: é PARIS. Assim, dar-me-á mais sentido de verdade dizer que mulher tão paris, ou que homem tão paris, ou mesmo referir que ambiente tão paris…
Parisiemos as coisas se estas nos tocam como ou através deste Paris ( verdadeiramente tão complicado de exprimir e complexo tão difícil de saber – ser – totalmente ).
E até por isso fascinante. Delicioso. Pareço embriagado se existir pouca atenção sobre mim. Não de vinho; mas da alma, sim. Consegui conjugar em certo belo no humano ( sempre a perseguir-me ) é bom, ou melhor, é algo a que os vulgares adjectivos tiram significado e não mostram a sua força. É neste momento; é neste instante ( longo naco da eternidade ) PARIS… é, é de facto ( fechando o ciclo ) o adjectivo que me satisfaz, que me chega.
Comecei estas palavras pensando em vós, estrutura onde me adenso. Sois para mim maior absurdo. O de não ter conseguido sintonizar-vos; sentir nessa sintonização a FORÇA e COMUNHÃO DE VIDA-VIVA. Também em ti pensei, meu caro capitão. No que me pareces significar para mim próprio: centro – força – pessoa – personalidade, de mim mesmo. Lembrei-me. Escrevi. Tu ficaste lá. Aí está a perspectiva duma distância reduzida que me satisfaz saber como dimensão linear: a que se separa de dois olhares da mesma pessoa e neles dois estados de espírito. “

“ Meu querido filho. Há no teu olhar a verdade do mundo.
O que o mundo é não sei nem amanhã saberei.
Se não ousasse ter um ponto de apoio onde fixe meus pensamentos ( que este corpo alimenta ) nada existiria que me merecesse respeito…
Mas tenho-te.
Tenho no teu olhar a verdade do mundo. E não sei como ela é. Sinto-a com o teu olhar. Cheia de amor. Cheia de ternura. Cheia de uma paz que não sou capaz de ver em mais ninguém. Sinto-a, na sua fragilidade doce e funda. Tanto e tão funda que também ninguém lá chega. Todos clamam por ela, mas são demasiado conscientes e a sua voz perde-se num vendaval de cuidados. Mas tu não. Tu, até EXISTES, e no bulício de hoje que abraças com teu “ ser “ está todo o sentido duma manhã cheia…
… cheia de irrequietude.
… cheia de irreflexões.
… cheia de vazios, a preencher logo a seguir.
… cheia dum sol que não queima.
… cheia de uma tempestade-bonança.
… cheia de FORÇA… duma força que transborda e chega até mim.
Pai… “

“ Minha frágil pequenina. És a igreja da minha aldeia. Nela vão rezar os fiéis do meu pensamento, deste substrato homem-divino que todos somos. Já o és também, minha pequenina flor, quase botão de ontem, o outro sol que amanhã virá… És toda a minha certeza dominada pela paisagem doce de uma vivacidade que extasia – desafio imparável de elementos, imperscrutáveis, superiores, transcendentes, sobre-humanos. Mas já és! E desse dom em que te vestes linda, queria eu vestir o mundo que te espera. Basta querê-lo eu sei. Mas mesmo que não aconteça, se o mundo te receber nu, não perdoará a fraqueza duma coexistência incoerente do amor que trazes com aquele que te acompanhará de nós, dos outros. E vamos nessa ocasião ser perspicazes, profundos, e com humildade vestir o mundo nu com o AMOR que nos vais trazer. Então venceremos e o teu exemplo dará frutos sãos. Contigo seremos mais… mais dois olhos onde há a verdade do mundo. “

“ Deitado sobre esta areia semeada de pedras roliças à beira do rio Sor que passa tranquilo a caminho de jusante, passo eu a caminho do amanhã… A dinâmica não é diferente. Só o estado de espírito – aquela tranquilidade – esse, sim, é bem o que separa duas condições: a de rio e a de homem; já dizia Fernando Pessoa: « se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras; e se os rios tivessem êxtases ao luar, os rios seriam homens doentes » “.

Não há geito de diário que baste para condensar, utilizando estas tão estafadas palavras, aquilo que passa por cada um de nós em determinados momentos da vida. Mas que importa tal insuficiência?! Há um objectivo: desabafar. Escrevendo-me sinto-me sossegar. O que está em mim a transbordar fica no papel e fico mais eu à minha medida. Não sou capacidade saturada. Sou uns quantos litros de VIDA comportáveis em mim, que me equilibram para o momento que vem a seguir e no qual preciso de me inserir em plenitude equilibrada comigo próprio e não em plenitude demasiado mística equilibrada com outro ser – o Deus talvez – do qual só sou, ou serei, sua imagem e semelhança.

Sinto-me bem. Há uma estranha certeza que nada tem que ver com a certeza-pessoa. É a certeza-vida que tem a ver comigo e com todos e com tudo o que a minha RAZÃO vê e abarca. E certeza, porquê? Porque ( para além das soluções e do provir ) me sinto vivo e vivo com uma dinâmica e vivacidade que pode suportar o bom e o mau das soluções. Um bom e um mau cada vez mais ilusórios. Aparentes, circunstanciais. Que pode suportar a vida em desafio constante, prenhe de sabores e sensações de vitória ou de derrota. E no fundo o que conta é que não acabemos nós; não acabemos nós próprios nessa vitória ou nessa derrota. O que interessa é saber continuar. Ter a certeza-vida para receber esse sol que todos os dias sobe o muro, quem sabe se com tamanha dificuldade!? É que pode acontecer que um dia essa dificuldade se torne inultrapassável e ele deixe de ter força para a escalada. Ou então o muro cresça, cresça, cresça… e se faça aquela escuridão apocalíptica!

É urgente agarrarmo-nos à VIDA, termos a certeza dela, e conjugar nessa atitude o mais sublime acto de verdade que floresce vida, que brota vida: existir em plenitude com a dimensão onde cabe cada um de nós. Por isso é bom, mesmo certos da vida, sentirmo-nos pequeninos para podermos ver sem esforço as paredes da estrutura dessa nossa dimensão – qual cromossoma dum ser limitado com a marca do infinito. E assim pequenino estou não para ganhar, não para perder mas sim para CONTINUAR, ganhando ou perdendo na circunstância, mas não ganhando ou perdendo a VIDA, continuando-a, sem alienação… “

“ Em dadas ocasiões a melhor consciência que se faça da vida é pesada penitência. Outras ocasiões há em que essa consciência é bem fogueira a aquecer-nos e chama a conduzir-nos com serenidade; com uma maravilhosa serenidade. E a VIDA-VIVA, círculo permanente, constante alteração da consciência que temos do que está dentro e fora de nós, longe e perto. O resistir-lhe com muito respeito e com lúcida noção do que somos interioriza a RAZÃO, adequando-a à medida de nós próprios, em todas as situações: no caminhar, no ser, no construir, no amar… e no reconstruir. “

( CIRCULOS e CICLOS. Livro não publicado. Autor: o requerente ).

Que lhe trouxe o conhecimento mais vasto, mais disperso e reflectido?

Com esse conhecimento e tendo no desempenho da sua carreira profissional militar desenvolvido o melhor das suas possibilidades ( em anexo nota sumária das suas funções militares, louvores e condecorações ) mesmo condicionadas à sua frustração e angústia diárias, o requerente sente-se extraordinariamente enfraquecido por esse esforço desenvolvido. Defrontou dentro de si próprio incompatibilidades estruturais de vária ordem, conforme expõe, sem deixar que essa luta interior transpirasse. Esse esforço teve efectivamente o seu preço, como é perfeitamente concebível. O exercício subjectivo de estimular, por muito mais tempo, todo o seu contexto psico-somático para prosseguir, ( contendo em si, o mínimo de condições exigíveis por si próprio, para realizar as funções de Oficial do Exército ) estava efectivamente a chegar ao fim. Como uma das últimas etapas o requerente submeteu-se a tratamento psicanalítico ( Dr. MÁRIO AFONSO MADEIRA – Avenida S. Dumond, 48 – 8º - Lisboa ) durante alguns meses, na séria intenção de procurar auxílio e esclarecimento, como imperativo da sua designada “ terceira consciência “, no que sentia desvanecer-se ou revigorar-se. Este tratamento mais revigorou ainda o seu estado de espírito.

Houve contudo quase um ano de meditação sistemática e hoje perfeitamente situado e livre das pressões de qualquer ordem, pouco lhe importa já a classificação em que integrem esse estado de espírito. Certo de que a exaustão continuada o conduzirá a agravamento psicológico irreversível, e, de que a situação é demasiado penosa para que lhe importassem classificações. Nas palavras por rotineiras, se perde quase sempre, por maior eloquência ou sinceridade, o grave do que elas exprimem; enquanto por dentro de cada pessoa, nestas circunstâncias, um vendaval de preocupações se agrava em tempestade ou se dilui em abulia apática.

Assim, o requerente, não deseja sobre si nem mais nem menos atenção, deseja apenas a justa, e nesta, longe de pretender aferir a justiça alheia, pede a universalidade do espírito e o direito do respeito humano individual, pelo que, respeitosamente.

PEDE DEFERIMENTO

Lisboa, I de Abril de 1973


Anexos: - Transcrições referidas na folha I0;
- Nota de funções, louvores e condecorações.








Anexo A – Complemento das transcrições referidas na folha I0.
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“ As frases gerais preliminares com as quais se julga sobre o bem e o mal, sem tomar em conta as causas que originaram um determinado fenómeno constituem ditames abstractos, gerais e insatisfatórios. Não existe uma realidade abstracta: a realidade é sempre concreta. “
( Ensaios – N. G. CHERNISCHEVSKI )
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“ O pensamento enquanto actividade da razão apoia-se em definições categóricas que se excluem umas às outras. Estas abstracções limitadas apresentam-se como solidamente existentes.
Assim por exemplo ao estudar a natureza distinguem-se várias substâncias, forças, espécies, etc. e consideram-se como se elas estivessem isoladas. O triunfo posterior da ciência consiste em passar do ponto de vista do juízo para o ponto de vista da razão, estudando cada um destes fenómenos – que o juízo recompõe como partes separadas por um abismo de todas as outras – no processo da sua passagem a outro fenómeno no processo da sua aparição e aniquilamento. “
( Obras, tomo I, I930, HEGEL )
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“ Experimentemos evidentemente que está entregue ao nosso arbítrio fazer ou não fazer algo, para o que fazemos uso da nossa razão, do nosso discurso e deliberação, preferindo uma coisa em vez de outra: logo, encontra-se nas nossas mãos a escolha; caso contrário, como observa acertadamente S. João Damasceno, ter-nos-ia sido inutilmente dada essa faculdade de deliberar e consultar. “
( Disputationes Metaphisiace – FRANCISCO SUAREZ )
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“ Muitas considerações poderia fazer, neste momento, sobre o simples direito de votar em todos os actos de soberania, direito que ninguém pode roubar aos cidadãos; ou do direito de emitir opinião, de propor, de estabelecer, de discutir, que o governo, com todos os cuidados, só quer reconhecer aos seus membros; mas, esta matéria tão importante exigiria um tratado à parte e, por isso, não posso aqui dizer tudo. “ … “ … Há uma única lei que, por sua natureza, exige um consenso unânime: o pacto social: porque a associação civil é o mais voluntário dos actos da sociedade humana; tendo todo o homem nascido livre e senhor de si mesmo, ninguém pode, seja qual for o pretexto que apresente, escravizá-lo sem o seu consentimento. Decidir que o filho de um escravo nasce escravo é decidir que não nasce homem. “
( Contrato Social – J. J. ROUSSEAU )
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“ Uma vez que a sociedade tome posse dos meios de produção, ela não produzirá mais mercadorias; isto quer dizer que ela porá fim à forma de apropriação dos produtos em virtude da qual, como já vimos, o produto domina o produtor. A anarquia na produção social dará lugar a uma organização consciente e sistemática. A luta pela existência individual desaparecerá. Só a partir deste momento poderá dizer-se em certo sentido, que o homem saiu definitivamente do reino animal em condições realmente humanas. O conjunto das condições de existência que, até aqui, dominaram os homens, serão submetidas ao seu controlo. Ao tomarem-se senhores da sua própria organização social, tomar-se-ão, por isso mesmo, e pela primeira vez, senhores reais e conscientes da natureza. As leis que regem a sua própria acção social têm-se até aqui imposto aos homens como impiedosas leis da natureza, exercendo sobre eles uma dominação vinda de fora; doravante, os homens aplicarão estas leis com pleno conhecimento de causa, e por isso mesmo, emancipar-se-ão. O modo pelo qual os homens se organizam em sociedade, será obra da sua livre iniciativa. As forças objectivas que até aqui dirigiram a história, como seres plenamente conscientes do que vão fazer, sabendo que as causas sociais que vão dinamizar produzirão de forma sempre crescente, os efeitos requeridos. A humanidade sairá enfim da fatalidade para entrar no da liberdade. ( Socialismo utópico e socialismo científico – F. ENGELS )
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“ Quem me dera que fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando…
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Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira…
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Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo…
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Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse…
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Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena… “
( De “ O guardador de rebanhos “ – XVIII – FERNANDO PESSOA )
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“ Enquanto o individuo não conquistou esta liberdade mediante esforço viril do pensamento filosófico não se mostra ainda plenamente senhor de si mesmo e, com os seus próprios sofrimentos morais, paga um tributo vergonhoso à necessidade em relação à qual se enfrenta. Mas, em contrapartida, quando este mesmo indivíduo se liberta do jugo dos terríveis entraves e opróbrios, surge logo uma vida nova, desconhecida até então e a sua livre actividade converte-se numa expressão consciente e livre da necessidade. O Indivíduo converte-se numa grande força social e nenhum obstáculo pode nem poderá já impedi-lo. “
( O papel do indivíduo na história – JORGE PLEKANOV )
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“ Esta tese, aceita e alargada por Renouvier, reconhece a presença
do acto de vontade na origem de todo o juízo; por consequência, tudo o que afirmamos como verdadeiro e, portanto, a própria ciência humana, recebe o impulso do acto livre da vontade, é livremente que afirmamos a verdade.”
(0 Exercício da vontade – G. DWELSHAUVERS)
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“ A concepção do homem, pelo contrário, pertence ao circulo espiritual, Os seus direitos, absolutos e inegáveis, estão enraizados no mundo do espírito e não no civil e politico, sempre transitório, instável e efémero. Porém as declarações do direito não podem unicamente enunciar os direitos do homem como ser espiritual:
devem aprofundar até às esferas inferiores e às mais recônditas do ser.”
(O cristianismo e a luta de classes – N. BERDIAEFF)
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“O desenvolvimento da consciência individual e o dos conhecimentos colectivos da humanidade mostra-nos, a cada”passo, “a coisa em si”, desconhecida, que se transforma depois em “coisa para nós”, conhecida, e a necessidade cega, desconhecida, a “necessidade em si ”, transformando-se em “necessidade para nós”conhecida”…. “A liberdade da vontade não significa, portanto, outra coisa senão a faculdade de decidir com conhecimento de causa.”
(Materialismo e Empirocriticismo - V . UTANOV)
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“A última liberdade das coisas, que se encontrar para além de todas as determinações, foi sussurada por Galileu – “E pur si muove” – a liberdade dos inquisidores para pensarem erradamente, de galileu para pensar acertadamente, e do mundo para mover-se, independentemente de Galileu e dos inquisidores.”
(Processo e Realidade. A.N.WHITEHEAD)
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“Na verdade, é a superfície do eu que toca o mundo exterior; e como esta superfície conserva a marca das coisas, o eu associará por contiguidade termos que terá apreendido jutapostos: é às ligações deste género que a teoria associacionista convém – ligações de sensações extremamente simples e, por assim dizer impessoais. A medida, porem, que se escava abaixo desta superfície, à medidas que eu volta a ser ele próprio, os seus estados de consciência vão deixando de se interpenetrarem para se fundirem conjuntamente, para cada um deles se tingir da coloração dos outros.”
“… Já ficou demonstrado que nós conhecemos, as mais vezes por refracção através do espaço que os estados de consciência se solidificam em palavras, e que o nosso eu concreto, o nosso eu vivente, se reveste de uma crosta exterior de factos psicológicos nitidamente desenhados, separados uns dos outros e. por consequência, fixos.
(Dados Imediatos da Consciência. – H. BERGSON
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“O objecto em que se fixa o juízo depois de uma deliberação reflexiva é o que a intervenção prefere,”uma vez que se deixa de indagar como deve agir-se desde o momento eu se encontrou a causa da própria acção que submeteu esta à faculdade que em nós dirige e governa todas as demais faculdde, porque ela é que escolhe e governa com intenção.”…”Assim, pois, sendo sempre o objectivo da nossa preferência sobre o qual se delibera e o qual se deseja, uma coisa que depende de nós, poderá definir-se a intenção ou preferência dizendo que é o desejo reflexivo e deliberado das coisas que dependem sòmente de nós próprios; porque nós julgamos depois de ter deliberado e, portanto, desejamos o objecto conforme à nossa deliberação e à nossa resolução voluntária.”
(Moral a Nicómaco. - ARISTÓTELES)
……………………………………………………………………………………………. È necessário, sem duvida, dizer ao homem que nasceu para ser feliz, mas lembrar-lhe igualmente que a conquista da felicidade foi sempre difícil e que o é, talvez mais do que nunca, num mundo em que todos os antigos elementos de estabilidade desaparecem, Não se lhe deverão esconder as provas da vida em sociedade nem as vida interior, bem maiores. Não é preciso dizer-lhe que o desenvolvimento científico e técnico vai facilitar maravilhosamente o seu desenvolvimento espiritual: pelo contrário, deverá explicar-se-lhe porque motivo a actual transformação do mundo o põe em risco de destruir o que ele tem de mais precioso se não multiplica a sua atenção. Numa palavra, se pretende que o homem possa ser feliz é preciso, antes de mais, dizer-lhe a verdade.
QUEM PÀRA, A SI PROPRIO SE ENGANA. É uma bela divisa e podemos aplicá-la em certos casos, tanto no domínio da reflexão como no da acção. Peço-lhe que seja fiel.”
(Carta a Louis Pauwels - PAUL SÉRANT)
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- Aspirante a Oficial do Exército
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Na ESCOLA PRÁTICA DE ADMINISTRAÇÃO MILITAR – LISBOA…………………………………………………………………………………………......
a) – OUTUBRO a DESEMBRO de 1964:
- Instrutor de escola de recrutas – especialidades do serviço de Intendência.
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No 1º GRUPO DE COMPANHIAS DE ADMINISTRAÇÃO MILITAR – Póvoa do Varzim
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b) – JANEIRO a MARÇO de 1965:
- Instrutor do Curso de Sargentos Milicianos – especialidade de ALIMENTAÇÃO do Serviço de Intendência.
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- Aspirantes a oficial do Exército – Outubro de 1964 a 31/1/65
- Alferes – (1/8/1965 a 16/5/1967)
- Tenente – (17/5/19617 a 31/8/1968)
………………………………………………………………………………………...........
Na ESCOLA PRÁTICA DE ADMINISTRAÇÃO MILITAR – LISBOA
…………………………………………………………………………………………….
c) MARÇO de 1965 a MAIO de 1968
- Instrutor de vários Cursos de Oficiais Milicianos;
- Instrutor de vários Cursos de Sargentos Milicianos;
- Instrutor de várias Escolas de Recrutas;
- Tesoureiro do Conselho Administrativo da E.P.A.M.;
- Chefe da Contabilidade do mesmo;
- Comandante Interino da Companhia de Comando e Serviços;
- Comandante Interino da Companhia Escolar;
- Gerente da Padaria Escolar;
- Gerente do Matadouro Escolar;
- Director das Escolas Regimentais;
- Gerente da Messe de Oficiais;
- Encarregado da organização da Cantina da Unidade e Gerente da mesma;
- Chefe interino da Secção Técnica e do Gabinete de Estudos;
- Instrutor do Tirocínio de Aspirantes a Oficiais do S.A.M.;
- Instrutor do Curso de Promoção a Capitães Milicianos;
- Encarregado da organização da Sala do Soldado e membro da Comissão da mesma;
- Comandante do Destacamento de Intendência para fornecer alimentação a Peregrinos Militares em Fátima ( 1966 );
- Comandante do Destacamento de Intendência de apoio logístico à S.A.F. da Cruz Vermelha Portuguesa em Fátima, nas comemorações do 50º Aniversário das aparições ( 1967 );
- Perito de contas da sala do soldado do R.I. II;
- Encarregado da organização da nova Messe de Sargentos e Cabos Milicianos;
- Encarregado da organização do projecto de beneficiação da sala de estar e bar dos Oficiais.
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- Tenente ( 17/5/1967 a 31/8/1968 )
- Capitão ( desde 1/9/1968 … )
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Na DIRECÇÃO DO SERVIÇO DE FORTIFICAÇÕES E OBRAS MILITARES
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d) – De DEZEMBRO de1968 a DEZEMBRO de 1969
- Técnico Responsável de Administração Militar do Conselho Administrativo;
- Promoveu a reorganização geral do serviço interno do Conselho Administrativo, com especial significado para o bom funcionamento do serviço:
a) Planificação geral das contas mecanografadas;
b) Intensificação da prestação de contas dos órgãos do Ultramar, relativamente ás obras custeadas pelo Orçamento das Forças Militares Extraordinárias do Ultramar desde os anos de 1963 a 1967;
c) Colaboração na criação da Comissão do Plano de Aquisições do Exército ( CREEFA ) das Infra-estruturas – DSFOM e sua adaptação ao caso das obras;
d) Reorganização do arquivo e criação da sala de fotocópias com material Rank-Xerox.
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NO ULTRAMAR
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Na DELEGAÇÃO DE NAMPULA das OFICINAS GERAIS DE FARDAMENTO E EQUIPAMENTO
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e) – De JANEIRO de 1969 a JANEIRO de 1971
- Chefe da Delegação em Nampula;
- Reorganização dos serviços perante um aumento de vendas na Delegação, de uma média mensal de cerca de 800 contos em 1969 para cerca de 1.500 contos em 1970;
- Reforma total das instalações duplicando em espaço e melhorando o funcionamento dos seus serviços;
- Perito de contas da Cantina da Guarnição Militar de Nampula;
- Perito administrativo ao Batalhão do Serviço de Material em Nampula.
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- Capitão
Na DIRECÇÃO DO SERVIÇO DE FORTIFICAÇÕES E OBRAS MILITARES
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f) – Desde 17 de FEVEREIRO de 1971
- Técnico responsável de Administração Militar do C.A.;
- Promoveu a reestruturação geral do Conselho Administrativo, com mudança de instalações e integração de parte da 1ª Repartição, face a alterações de orgânica administrativa na DSFOM, que propôs e foram aceites;
- Membro da COMPAE-DSFOM ( CREEFA ) como técnico administrativo responsável. Promoveu a sua reorganização criando as bases desta;
- Promoveu a criação da Messe para Sargentos e Funcionários civis;
- Promoveu o reagrupamento das salas de fotocópias com a sala de cópias heliográficas e respectivas alterações de máquinas.
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- LOUVORES e CONDECORAÇÕES
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Louvado pelo Exmº Brigadeiro Director do Serviço de Intendência como Comandante do Destacamento de Intendência, que prestou apoio à Peregrinação Internacional no 50º Aniversário de Fátima e à posterior Peregrinação de doentes militares, pela inexcedível dedicação pela forma a todos os títulos notável, como preparou e orientou o Destacamento, conduzindo criteriosa e eficientemente a sua acção que plenamente agradou. Este jovem oficial, que mostrou competência, capacidade de Comando e espírito de sacrifício, pois exerceu a sua acção, encontrando-se doente, honrou com a sua actuação o 2º G.C.A.M., onde está colocado e o Serviço de Administração Militar a que pertence. Classifico de “ Muito Bom “ o serviço que prestou.
( OS nº 129 de 2/6/1967 da E.P.A Militar )
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Agraciado com a medalha de louvor da Cruz Vermelha Portuguesa, nos termos do único do Artº 4º do Estatuto daquela instituição, promulgado pelo Decreto-Lei nº 36.612 de 24Nov1947.
( OS nº 206 da E.P.A.M. de 1967 )
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Louvado pelo Exmº Comandante da EPAM, pela forma prestigiosa e dedicada em como durante cerca de três anos, desempenhou as várias funções de que foi investido. Oficial inteligente e voluntarioso, conseguiu facilmente adaptar-se à execução de serviços para os quais se exige maturidade, destacando-se do conjunto, o apreciável trabalho realizado na organização da Cantina da Unidade e na Chefia Interina da Secção Técnica. De salientar ainda a dedicação e competência revelados no serviço de instrução, pelo que de toda a Justiça se deve considerar o Tenente Clemente como óptimo elemento e auspicioso Oficial do Serviço a que pertence. ( OS nº 104 da EPAM de 1968 )
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Louvado por Sua Exa. o Director do SFOM porque no desempenho das funções de Chefe da Contabilidade do Conselho Administrativo da DSFOM, durante cerca de um ano, manifestou sempre uma inexcedível competência, dedicação e zelo pelo serviço não se poupando a estudos e trabalhos, apresentando soluções objectivas para os assuntos de Administração dum Conselho Administrativo tão complexo, difícil e de grande responsabilidade como é o Conselho Administrativo da Direcção do Serviço de Fortificações e Obras Militares, no que evidenciou elevadas qualidades de inteligência, compreensão e assimilação, aliadas a excelentes qualidades de carácter e de convívio que lhe granjearam o apreço e a simpatia dos seus chefes e subordinados.
( OS nº 37 de 31Dez68 da DSFOM ).
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Louvado pelo Snr. Chefe da Sucursal das Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento em Lourenço Marques pela forma zelosa e eficiente com que vem desempenhando as funções de Chefe da Delegação de Nampula. Apesar de grandes dificuldades em pessoal e instalações, com mudanças e alterações frequentes, tem conseguido, pelo seu esforço, que a Delegação venha cumprindo satisfatoriamente a sua missão, reduzindo as deficiências consequentes daquelas dificuldades a um nível que as tornam pouco notórias e satisfazendo ao considerável aumento de movimento da Delegação. Pela acção desenvolvida no sentido de melhorar as instalações e dar eficiência aos serviços é o Snr. Cap. Clemente, merecedor da confiança dos seus chefes e do apreço em que é tido como oficial competente do SAM. ( alínea f ) do Artº 6º da OS nº 240 de 19Out970 das OGFE )
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Condecorado por despacho de 24Maio71 de Sua Exa. o Ministro do Exército, com a medalha comemorativa das Expedições das Forças Armadas Portuguesas à Província de Moçambique com a legenda -1969—70 e 71. ( Nota nº 05160 –Pº 1442/71 de 25Maio71 da RJD da DSJD ) ( OS nº 10 de 29Maio71 da DSFOM ).
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Agraciado com o Grau de Cavaleiro da Ordem Militar de Avis ( OE nº 20 – 2ª Série de 15Out71 ) e ( OS nº 22 de 29Nov71 da DSFOM ).
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Louvado por Sua Exa. o general Director do Serviço de Fortificações e Obras Militares, porque desempenhando durante mais de um ano as funções de Chefe da Contabilidade do Conselho Administrativo da DSFOM, manifestou sempre invulgares qualidades de trabalho, competência, inteligência e dedicação pelo serviço, mormente quando da reestruturação do mesmo Conselho Administrativo em face das novas directrizes superiores da Administração, tornando-o mais eficiente. Dando sempre uma leal e proveitosa colaboração a todos os outros sectores da Direcção do serviço de Fortificações e Obras Militares, nomeadamente aos Conselhos Administrativos das Unidades de Engenharia do Ultramar, pôs em evidência altas qualidades de camaradagem, o que lhe grangeou a estima e consideração de todos aqueles com quem privou. ( OS nº 11 de 14Junho72 da DSFOM ).
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Proposto para ser agraciado com a medalha de Mérito Militar.
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sexta-feira, 1 de maio de 2015

                         É  O   IMPÉRIO, estúpidos

[Um lucido texto de João Varela Gomes aos 91 anos]

       Este pequeno Portugal de prosápias imperiais até 1974 –Império Colonial, Ultramarino, ou o que então mais conviesse – não se mostra  minimamente preocupado pelo facto da Europa e grande parte do mundo estar agora – nesta  década 2 do séc. XXI - subjugado por uma potência imperial capitalista liderada pela dupla USA/NATO; a qual  não esconde a sua ambição para o domínio universal (global, como dizem) em próximo futuro. Sim, parece um retorno aos tempos da loucura nazi/hitleriana nos anos 30 do século passado e  da medonha tragédia que provocou.
Sobre impérios antigos, mesmo remotos, toda a gente ouviu falar desde a escolaridade básica. Começando pelo Império Romano que  submeteu (conquistou) toda a Europa, desde a Península Ibérica ao Mar Negro; depois por cá dominaram  durante largo período os visigodos e outros “bárbaros”vindos do Norte, seguindo-se os árabes que foram sendo repelidos para África pela emergência de um novo poder também ele com ambições universais: a Cristandade. Com efeito, a conversão à fé cristã do esgotado império romano representou a transferência para  Igreja Cristã da herança imperial de uns exaustos imperadores.
Porém, quanto ao actual e presente Império Capitpercepcionar o mundo.... obedecendo como carneiros, sem tugir nem mugir.



alista USA/NATO, quem nunca se apercebeu -ou sofreu- a sua natureza maléfica .... é apenas estúpido/insensível, ou um miserável “colaboracionista”com os seus agentes/lacaios  acantonados nos partidos do “arco do poder”? Ambas as coisas, seguramente. Na primeira fila, para levar com a invectiva na fronte, está a chusma dos opiniocratas  derivados e afins, que opinam todos os dias/horas ensinando ao povo como deve
 Ora sucede algo curioso com a palavra/conceito império: no linguarejar politicamente correcto (neo-liberal) império houve, há e haverá só um e mais nenhum: o império soviético/comunista/russo; quanto ao mundo capitalista ocidental, aí usa-se o sofisma globalização. A opinião pública/política portuguesa segue caninamente His Masters Voice; toda e qualquer iniciativa do imperialismo americano/nato está de antemão aplaudida como um avanço do “mercado global, livre e democrático”. Seja a invasão do Iraque, ou a destruição da Líbia com os respectivos assassinatos; o desmembramento dos Balkans,  com o fomento dos ódios étnicos/religiosos, guerras civis, aviação americana a bombardear uma capital histórica europeia (Belgrado). E continua. O próximo alvo, provavelmente atómico, já está designado: o Iran, a antiga Pérsia; por lá passou o “globalizador” Alexandre (mas teria ido só para abrir o mercado democrático dos tapetes persas?).
Ainda outro pequeno pormenor escapa aos nossos sagazes escamoteadores do império usa-nato. Nada mais nada menos, que a participação militar portuguesa nas suas forças de agressão/ ocupação. A eito: um batalhão em permanência no Kossovo (inventado país nos Balkans); destacamentos diversos no Afeganistão,Iraque,África, etc; fragatas em permanência no Índico; provocações nas fronteiras a expandir (já este ano , na Lituânia frente à Rússia). Desde quando? Quem paga? Ah! Iso sabemos:o contribuinte português.
            Um outro aspecto importante também suscita unânime indiferença por parte da classe político/comentadora cá da aldeia. Trata-se da questão ideológica; isto é, qual o modelo de sociedade que o império capitalista américo-nato está querendo impôr ao globo terráqueo por milénios a porvir. Ora, é exactamente esse modelo, aquele que os obedientes governos constitucionais andam servilmente a procurar cumprir e mesmo exceder. Eles próprios (1ºMin.) assim o proclamam como vassalos sem vergonha.
Mas então, como se compreende  o silêcio geral – qual tabu- sobre a questão ideológica em vésperas de eleições? Nomeadamente da esquerda, em sentido lato; ou seja, dos adversários, dos espoliados/roubados, das vítimas em geral da governança neo-liberal? Sob tutela de agentes capitalistas ?
      Aliás, os apelos ao FMI começaram logo em 1983, com o 1º Governo constitucional de M.Soares, min. das Finanças Medina Carreira  (esse mesmo, agora comentador avençado  TV). O dinheiro já escasseava. Os governanes socialistas faziam via de sátrapas. Ficaram famosas as viagens sumptuosas pelo mundo   
 com comitivas de luxo real. A Dívida Pública – esse espectro que assombra a II República até ao presente descalabro – tornou-se o penhor da nossa subserviência.
          A porca da Dívida foi engordando a cada sucessivo governo  do “arco do poder”- PSD, PS, CDS. Há quem lhes chame –apropriadamente- os três porquinhos na pocilga da política. Claro, que porcos e porquinhos de barriga cheia, não apreciam  a ração  ética/ideológica. Antes pelo contrário. Mais uma razão –uma excelente razão- para lhes atirar com pázadas para cima, nas campanhas eleitorais .....e constantemente.
         Mas para isso, para que todos os que abominam o Império Capitalista possam sustentar um debate/combate vitorioso no campo ideológico, é   imprescindível   “Conhecer o Inimigo”: seu programa, doutrina, ideologia, etc.  Pois parece que no séc. XXI, políticos, politólogos e politiqueiros (não só nacionais), foram novamente apanhados de surpreza – agora pela globalização e pelo neo-liberalismo. Hipocrísia e/ou estupidez, como sucedeu no séc.XX em relação ao fascismo e ao nazismo hitleriano.        Procurando apagar  cobardias e traições, a futura colaboração com o império vencedor, com  credores onzeneiros, com os agentes e agências capitalistas. Eureka!!  È isso mesmo! A figura do colaboracionista com o ocupante nazi no período da 2ª Guerra Mundial, aplica-se perfeitamente a esta choldra abjecta de oportunistas sem honra, que vem governando o Protectorado Português desde Nov 1975.           

Termino, recomendando aos sinceros inimigos/adversários do Império Global Capitalista a leitura da obra (1996) de dois jornalistas alemães do Der Spiegel na edição port. Terramar  1998, intitulada “A Armadilha da Globalização” - O Assalto à Democracia e ao Bem-Estar Social  -A Sociedade dos 2/10 - etc
 Chamo também a atenção - pasmem, ó gentes – para o livro mais vendido (milhões, dizem eles) de casal Milton Friedman e sua esposa Rose, evangélicos oráculos do neo-liberalismo. O título é “Liberdade para Escolher” , a edição/tradução da “Lua de Papel -2012, Prefácio de João C. das Neves. Um mimo! Estão lá, quase ipsis verbis , todos os programas, orçamentos, reformas, etc. do PSD supostamente português. Mas o que dá maior gozo é lá encontrar  a mão invisível como a explicação científica de toda a doutrina neo-liberal. Os estúpidos nem duvidaram que a metáfora de Adam Smith no Séc. XVIII fosse uma blague irónica. Pois é essa a minha percepção; pela qual assumo direitos de autor e em respeito pela inteligência do fundador do moderno liberalismo. Encobrindo (maliciosamente) com uma imaginària mâo invisivel  o essencial fermento do Capitalismo:   A CORRUPÇÃO  

                                  Lisboa,  Abril 2015-04-27
                                                Fez)
                                            J, Varela Gomes,cor.ref


sábado, 25 de abril de 2015

Entrevista de Duran Clemente ao jornal “Comércio do Seixal e Sesimbra” feita por Maria do Carmo no passado dia 22 de Abril de 2015.[Jornal publicado no dia 24-04-2015]

Entrevista de Duran Clemente ao jornal “Comércio do Seixal e Sesimbra” feita por Maria do Carmo no passado dia 22 de Abril de 2015.[Jornal publicado no dia 24-04-2015]
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Há a ideia de que a política é para os outros, esquecemos que todos somos políticos e que temos de exercer esta cidadania.MDC


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«As pessoas deviam saber pensar»
«Infelizmente a RTP não está a ser ouvida em todo o país. Isto acontece porque o emissor da Lousã já está a servir os estúdios do Porto. Há um corte feito por via administrativa e determinado não sei bem por quem!».
Esta frase iniciava o discurso de Manuel Duran Clemente, então 2.º Comandante da
Escola Prática de Administração Militar, às 20h30 do dia 25 de Novembro, e iria tornar
o rosto deste Capitão de Abril conhecido em todo o país.
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Admite que não queria ser militar “só fui para a Academia por insistência do meu pai, e escolhi licenciar-me em Administração. Cursei o ensino técnico e liceal nos Pupilos do Exército e ingressei na Academia Militar em 1961.
Nunca quis participar na guerra, embora perceba que se tenham de cumprir ordens e orientações, sobretudo políticas, por vezes bastante erradas, como era o caso.”
Manuel Duran Clemente esteve na génese do Movimento de Capitães, participando em reuniões clandestinas e aderindo ao movimento MDP/CDE em 1969 tendo estado presente no terceiro Congresso da Oposição Democrática em Aveiro /Abril de 1973..
“Os ventos da História da década de sessenta abriram os olhos aos portugueses, com a música dos Beatles, o  “make love, not war”, a morte de Luther King, o «black power», a morte de Kennedy, o Maio de 1968, assassinatos repressivos nas universidades e lutas estudantis. Foram anos de contestação muito difícil de esconder porque a censura não conseguia calar tudo. E o Governo achava que tinha um povo adormecido, e deixava passar essas informações, porque eram coisas que aconteciam longe.
E depois era tudo o que os outros países já tinham feito e que Portugal ainda não fizera, porque tínhamos um tipo a governar o país que não compreendia que não nos podíamos continuar a manter «orgulhosamente sós». Havia a questão da descolonização, em que França já tinha dado a independência a oito colónias do lado ocidental de África e Inglaterra dera independência a oito colónias do lado oriental.
Apesar de nos dizermos independentes, Portugal sempre foi colonizado por Inglaterra, desde Filipa de Lencastre, para o bem e para o mal… Nós é que descobrimos o caminho marítimo para a Índia, mas eles é que lá tiveram um Império. Nós é que descobrimos o caminho para a Austrália, mas eles ainda hoje têm coroa lá. Sempre fomos uns “bananas” , dirigidos por interesses de outros e por quem em Portugal servia e serve esses interesses.”
Outro dos aspectos que aponta para o movimento que deu origem à Revolução foi “o contacto que começou a existir dentro das forças militares com os novos elementos”, com a democratização da Academia Militar em 1961.Deixa de haver setenta cadetes de filhos de generais e de famílias ricas, para existirem quatrocentos e tal  cadetes filhos do povo. Mas isso só aconteceu porque era necessário alargar o contingente de pessoal a ir para África, tiveram de abrir as portas. Essa abertura deu origem a um contacto entre elementos que já estavam no activo e os que vinham da universidade, com outros conhecimentos especializados em Historia, Filosofia, Psicologia, que foi bastante positivo.
E porque é que o Movimento se dá com os capitães? São eles que estão próximos da realidade das populações em cenário de guerra, e têm consciência de que algo não está bem e que as coisas não podiam continuar. Havia também um mal-estar com os oficiais superiores, que estavam sentados em gabinetes com ar condicionado, a sustentar teoricamente a guerra, e os capitães, é que estavam no activo e no terreno de guerra. E estes, ao fim de duas ou três missões começaram a abrir os olhos e a defender-se. Não foi por acaso que já foram quase  duzentos capitães entre Julho e Agosto de 1973 a reunirem-se, na Guiné e em Alcáçovas.”
«A Guiné serviu como ‘laboratório’»
Duran Clemente no ano de 1973 interveio no Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, o que veio ditar a sua ida para a Guiné. “Deste Congresso saíram as linhas principais do MFA. “Ali apresentei um manifesto político, onde criticava a falta de liberdade e a guerra colonial. Por causa disso fui “mobilizado”para a Guiné. Mas levei comigo cem cópias desse documento e quando cheguei lá, comecei a reunir com quem já estava preparado para avançar com algo e começámos a desenvolver este processo revolucionário.”
Claro que não fui eu quem deu início, porque a revolta já existia, no seio de cada um de nós. Em 1970, em Nampula, tinha tido ,num navio,  um almoço com capitães que estavam furiosos porque em vez de voltarem para Lisboa, depois de duas missões, foram enviados pelo General Kaulza para a operação “Nó Górdio”.
Tive oportunidade de criar um dos primeiros núcleos clandestinos em Bissau, onde contei com a presença de militares como Otelo Saraiva de Carvalho, Salgueiro Maia, Matos Gomes, entre outros.”
Durante o período de preparação da Revolução, Duran Clemente foi o elemento de ligação do MFA entre Guiné e Lisboa, com Vasco Lourenço e Hugo dos Santos, realizando também o «recrutamento» de militares do Exército, Marinha e Força Aérea.
“A Guiné serviu como «laboratório», porque era uma zona pequena e tinha um líder bastante doutrinário e inteligente, Amílcar Cabral, que seguia uma doutrina muito humana e não tão agressiva como a dos seus militares que o mataram. Além disso, o Spínola permitia que na Guiné se falasse mais à vontade.
Os militares tinham uma disciplina chamada «Acção Psicológica» que nos ensinava como convencer os africanos de que estávamos lá por bem, para os ajudar. Mas no contacto que tínhamos com eles, com famílias que tinham todas elementos nas guerrilhas, eram eles a convencerem-nos que o inimigo não estava ali, mas sim em Lisboa, no Governo.”
Em 28 de Agosto de 1973, Duran Clemente e outros três militares elaboram uma carta que é subscrita por cerca de cinquenta dos sessenta capitães que se encontravam na Guiné, dirigida ao Governo português, onde se antevê uma tomada de posição por parte das Forças Armadas. “O que quisemos fazer com essa carta foi um acto rebeldia. Usámos o argumento do celebérrimo Decreto-Lei nº. 353/73, que facultava a «entrada de oficiais do Quadro Especial de Operações no Quadro Permanente através de curso intensivo na Academia Militar», mas não era nada disso. Era um protesto colectivo, o que era proibido e pretendíamos aborrecê-los, e o Marcelo Caetano admitiu nas suas «Memórias» que tinha ficado «altamente preocupado» quando recebeu a carta.”
Nascimento do MFA
A 9 de Setembro de 1973 decorreu a reunião de Capitães em Alcáçovas, onde nasceu oficialmente o Movimento das Forças Armadas, com a participação de 95 Capitães, 39 Tenentes e 2 Alferes.[ Como os 50 da Guiné estávamos já em revolta quase 200 militares.]
“Mas foi a 24 de Novembro, em Cascais, que decidimos avançar, sobretudo por causa de um tenente-coronel, em vésperas de partir no comando dum Batalhão para Bissau, pai de um dos futuros Capitães de Abril, que no meio de uma reunião dos capitães chegou lá e lhes disse: «não falem mais, decidam já o golpe, então os militares estão a ficar atrás dos estudantes que andam a lutar e a levar “porrada” da polícia e a serem presos. E nós continuamos a olhar, como se não fossemos os fiéis defensores da pátria?»
“Isto deu um forte impulso às nossas ideias. Poucos dias depois, encontrei-o na Guiné, onde também já estava pronto a fazer um golpe, mas dissuadimo-lo a esperar até Abril. Prometi-lhe que logo que as coisas fossem feitas, o avisava. E foi ele a primeira pessoa a quem anunciei que tínhamos ganho.”
No dia 25 de Abril de 1974, Duran Clemente com um grupo de oficiais organizados, tomaram o poder em Bissau e em toda a Colónia, colocando em pontos-chave militares de confiança e integrados no espírito do MFA, depois de remeterem para Lisboa os oficiais conotados com a ditadura. “Todas as unidades da Guiné foram tomadas e não tivemos dificuldades nenhumas porque todos estavam de acordo com o MFA.
Quando estive cá em Fevereiro, tinha avisado o Vasco Lourenço que as coisas na Guiné não estavam famosas, estavam mesmo perigosas.” Ele disse-me para descansar o pessoal que a acção se faria antes do 10 de Junho.”
Durante o período de transição foi nomeado pelo MFA como director do único jornal «A Voz da Guiné» e após o reconhecimento do direito das colónias à independência, participou em várias acções de preparação para a transferência de poderes, após o que regressou a Lisboa em Outubro de 1974.
“Embora não seja a favor do neo-colonialismo, até nisto os portugueses foram muito estúpidos. Enquanto os outros países colonizaram e depois deram a independência, mas ficaram lá como se costuma dizer, «com um pé», no nosso caso até houve quem se preocupasse em trazer rapidamente todos os portugueses, não apenas os que lá foram viver e trabalhar mas também os que lá tinham já nascido. Acabaram por ter tido depois um papel muito importante no país porque embora tenham perdido tudo, traziam ideias diferentes, dinâmicas e empreendedorismo que muito veio servir Portugal.”
Em Portugal viria a ser responsável pelo Centro de Esclarecimento e Informação Pública, da 5ª Divisão do EMGFA coordenando programas de televisão e rádio e integrando a redacção do jornal «O Boletim do MFA», que foi editado durante um ano. Foi ainda secretário-geral da Assembleia do MFA, após o 11 de Março, da qual foi porta-voz até Setembro de 1975.
«A história do 16 de Março está por fazer»
O 16 de Março de 1974 marcou uma tentativa gorada de golpe de Estado contra o Governo do Estado Novo. Na base desta tentativa terá estado a tentativa de exoneração dos generais Costa Gomes e António de Spínola por causa do livro “Portugal e o Futuro”. “O 16 de Março foi uma precipitação, um passo contra a revolução que já estava a ser preparada pelo Vítor Alves, o Otelo e o Vasco Lourenço, o directório do MFA em Portugal.
Esse golpe teve origem em dois oficiais (Casanova Ferreira e Manuel Monge) que  vieram da Guiné, onde o MFA também estava crescendo, cheios de entusiasmo e que pretenderam fazer uma acção à pressa com o Otelo Saraiva, que se deixou ir na conversa mesmo avisado pelo MFA da Guiné, e aquilo deu «barraca» devido à precipitação.
Fizeram umas reuniões apressadas, foram à E.P.de Cavalaria a Santarém, mas estes não estiveram de acordo, recorreram aos pára-quedistas de Tancos, mas também estes não estiveram de acordo, até que há um capitão em Lamego que diz que vai avançar para o Porto e decidem que Otelo ía à Escola Prática de Infantaria em Mafra e à de Artilharia em Vendas Novas, fazer sair uma companhia de cada local. Casanova iria a Santarém fazer sair outra e a Santarém e um dos capitães presentes na reunião faria sair uma companhia do RI5 de Caldas da Rainha. Moral da história: quando Otelo chegou a Mafra e a Vendas Novas  não estava ninguém porque era fim-de-semana. Em Santarém ninguém aderiu. Lamego também não saiu. Só saiu , isolada a unidade das Caldas da Rainha,  por isso ficou conhecida a acção como a «Revolta das Caldas».
Mas toda essa história ainda está por fazer ,embora eu já tenha escrito bastante sobre o assunto e o Otelo tenha falado disso nas suas Memórias e confessado ,de viva voz, o fracasso e o logro.”
 «11 de Março de 1975»
É Duran Clemente que, interrompendo o noticiário das 13h00, quem  alerta o país, na Emissora Nacional, da invasão do RAL1 e do golpe de Spínola, alertando os militares envolvidos. Por esta acção, foi formalmente louvado pelo General Costa Gomes, então presidente da República e Chefe do EMGFA.
«O 25 de Novembro foi uma coisa inventada»
Na noite de 25 de Novembro desse ano, é ele quem discursa na RTP entre as 20h30 e as 20h49, altura em que a emissão foi interrompida e o canal televisivo de Lisboa começou a emitir o filme que os estúdios do Porto. “O MFA nunca pensou instalar em Portugal o sistema soviético, ao contrário do que fomos acusados. Embora se falasse em igualdade, em liberdade, em solidariedade, em menores diferenças entre ricos e pobres, questões marxistas leninistas, estas serviam apenas para ilustrar o que todos queríamos para o povo português. E foi esse o sentido do meu discurso na RTP, a 25 de Novembro de 1975. O que disse foi que não queríamos um socialismo da tanga, mas que as pessoas percebessem que uma sociedade não deve ter estas diferenças, tanta miséria por um lado e outros a viver à grande. Só que quem estava contra isso lançou a calunia do «lá vêm os comunistas, a comer as criancinhas ao pequeno-almoço, querem instalar um sistema soviético». No entanto, o próprio Partido Comunista, em Agosto de 1975, numa reunião do Comité Central em Vila Franca de Xira, tinha fixado que não iam ocorrer aventuras militares nem golpes de Estado, e por isso temos razão em dizer que o 25 de Novembro foi uma coisa inventada como um golpe de esquerda.
Golpes havia todos os dias, qualquer plenário em fábrica ou manifestação em quartel, era um golpe. Estávamos a viver um ambiente, que hoje os mais novos não percebem, que permitia que houvesse contestação generalizada a qualquer regra ou imposição que fosse, aparentemente, desfavorável a essa linha de pensamento de maior igualdade e solidariedade entre as pessoas, num país com 48 anos de pouca cultura e conhecimento, muito influenciado por uma igreja católica conservadora, para o bom e para o mau, porque também havia padres progressistas.
A democratização em Portugal deu azo ao «Verão Quente», e é natural que surgissem correntes de ideais diferentes. O que não era natural é que tivessem posto de parte uma dessas correntes com o 25 de Novembro. Felizmente não foi completamente posta de parte, apenas alguns dos militares que a defendiam, e que tiveram de se exilar. Entre estes estive eu, tive de me exilar nove meses em Angola, após o que regressei e comecei a trabalhar na vida civil, porque tinha habilitações para isso.
Fui depois reintegrado, promovido a Major e mais tarde a Tenente-Coronel e a Coronel, graças a um reconhecimento do esforço que tínhamos feito. E acho que merecemos esse estatuto pelo que sofremos, pelos riscos que corremos e pelo que proporcionámos ao país.”
«Portugal estava e está na cauda da Europa»
Crítico em relação à governação do país, antes e depois de 1974, explica que “antes da Revolução, Portugal estava na cauda da Europa, como ainda hoje está, tal como a Grécia, porque não nos conseguimos estabelecer durante 48 anos de obscurantismo, treze deles de guerra, devido a uma economia débil, sustentada por oito famílias, os Mello, os Champalimaud, os Espirito Santo, que determinavam a política nacional. O facto de não termos entrado na grande guerra se calhar até  a tornou mais débil, porque os países que o fizeram, tiveram depois apoios e subsídios ao abrigo do plano Marshall que os ajudaram a reestruturar-se sobretudo no que nos faz falta hoje, uma estrutura económica com base na indústria, pescas e agricultura.
Ao contrário do que seria de esperar, a nossa entrada na CEE veio deteriorar ainda mais a nossa fragilidade. Não sou contra isso, até porque sempre fomos europeus, mas sou contra o facto de estarmos continuadamente sobre escrutínio e mando do estrangeiro.
Só tínhamos dez anos de democracia, ainda com muitos problemas para resolver do passado, muita reestruturação por fazer, e prejudicou-nos não termos feito acordos especiais para entrar na EU/CEE, quando entrámos em igualdade de circunstâncias com países desenvolvidos como a França, a Alemanha, a Bélgica, e outros. É evidente que íamos ter consequências, o que aconteceu com a redução da frota de pesca, da extinção da nossa indústria, que era pouca mas existia, com as «políticas» aplicadas à «agricultura de não produção». Os fundos que vieram para Portugal foram canalizados para diversas áreas que não eram produtivas, o sector terciário, para que fossemos um país de serviços, sendo os grandes da Europa os países de produção, construindo carros, submarinos e outras maquinarias dos quais ficámos dependentes.
A União Europeia serviu para aumentar o mercado para a França e para a Alemanha, entre outros. Se Portugal já foi uma colónia dos ingleses no passado, passou a ser uma colónia da União Europeia, que por sua vez é um protectorado dos  Estados Unidos, com a Alemanha como testa de ferro. Nada disto é por acaso, trata-se de um sistema (o capitalismo) que pode ter muitos nomes, agora é «mercado», mas é apenas um sistema neo-liberal que querem à viva força implementar em Portugal, acabando com o Estado Social que conseguimos implementar com a “Revolução de Abril.”
«Todos os conceitos de Abril estão a ser destruídos»“A entrada para o euro foi outro disparate, esta é simplesmente uma moeda para os alemães,e outros, que alargaram o seu campo de clientes para fazerem fortunas e não é por acaso que ganham três vezes mais do que nós. E depois temos um Governo que responde às deliberações que lhe são impostas por esses países. É também um Governo que mente ao povo português, com monstruosas mentiras, como dizerem que a Segurança Social está falida. Nunca esteve falida e se estivesse era porque o Estado lhe deve milhões de euros a esta entidade.
Apenas em Portugal se ataca a pessoa idosa. O Passos Coelho e este Governo conseguiram esta proeza, atacar os mais idosos. Outra mentira é o que se passa com o Serviço Nacional de Saúde, que foi um dos melhores do mundo, que foi inclusive copiado para melhorar o de Inglaterra. Que país é este? Todos os conceitos do 25 de Abril estão a ser destruídos. Como é que se pode não reagir a isto? Como é que as pessoas são manipuladas pelos media, sobretudo pela televisão? É inacreditável.
Era preciso outro 25 de Abril mas não há qualquer hipótese em termos militares.Essa revolução devia acontecer na consciência das pessoas, que deviam saber pensar e deixar de admitir que os políticos e os partidos políticos não servem para nada. É evidente que alguns  políticos deviam ter juízo, mas são as pessoas que têm de aprender a pensar. Mas não podemos esquecer que há as cidades e a ruralidade, em que vivem pessoas agora como há quarenta anos, ainda com um clero reaccionário/conservador.
Temos o direito de ser mais participantes na construção da nossa democracia, mas a manipulação alienou completamente as pessoas.
Estamos a aproximarmos do medo que existia antes do 25 de Abril, em que as pessoas não falam com medo de perder a sua posição.E os jornalistas sérios também acabam por ter medo de fazer ou dizer certas coisas, porque estão muito dependentes. A situação está muito melindrosa. Não somos menos que os outros. Não somos um povo preguiçoso ou gastámos além das nossas possibilidades. Trabalhamos tanto como os outros, não temos é estruturas governativas decentes.
Não apostam no investimento público, crucial para o desenvolvimento, têm destruído todo o estado social. Estes senhores estão a seguir uma cartilha de empobrecimento do país, onde baixam o preço do trabalho, tornando Portugal uma nova China. Isto é uma vergonha.
Portugal tem ainda economia, damos cartas no sector do papel, no sector da reparação naval, nas fábricas modernizadas de têxteis e calçado, na cortiça, na produção de azeite, em  suma, nas áreas onde o dinheiro foi aproveitado para a modernização.
Por outro lado, a culpa é também das pessoas que não participam. Fui presidente da Assembleia de Freguesia de Santa Catarina, em Lisboa, durante mais de dez anos e ninguém comparecia nas reuniões.

Há a ideia de que a política é para os outros, esquecemos que todos somos políticos e que temos de exercer esta cidadania.