segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O 25 de Novembro por Álvaro Cunhal

O 25 de Novembro por Álvaro Cunhal
1- O golpe militar em preparação
O 25 de Novembro foi um golpe militar inserido no processo contra-revolucionário. A sua preparação começou muito antes das insubordinações e sublevações militares do verão quente e de Outubro e Novembro de 1975 . 

Talvez que as mais esclarecedoras informações dessa preparação em curso muitos meses antes de Novembro sejam as que dá o comandante José Gomes Mota no seu livro, esquecido ou guardado nas estantes,
 A Resistência. O Verão Quente de 1975 , Edições jornal Expresso , 2ª ed., Junho de 1976. 

Segundo José Gomes Mota, o golpe foi preparado pelo «Movimento», que define por ser contra o que chama «os dissidentes», — nomeadamente «os gonçalvistas» e o PCP. Fala em «novas estruturas reorganizadas». Diz que o «Movimento» deveria ter presença activa no Conselho da Revolução (
 ob. cit. , p. 93) e aceitar a «manutenção formal dos órgãos de cúpula do Movimento — Conselho da Revolução e Assembleia do MFA» ( ob. cit. , p. 95). 

O «Movimento» chamava a si a preparação e decisão do golpe militar, mas, «preservando e garantindo a legitimidade revolucionária do Presidente da República» (
 ob. cit. , p. 94). Segundo José Gomes Mota, a cúpula efectiva era o «Movimento», que dispunha de dois grupos dirigentes. 

Um «militar», «inicialmente constituído por Ramalho Eanes, Garcia dos Santos, Vasco Rocha Vieira, Loureiro dos Santos, Tomé Pinto e José Manuel Barroso». A sua «tarefa» principal era a «elaboração de um plano de operações» (
 ob. cit. , p. 99), tarefa que «cumpriu rigorosamente», tendo «para isso muito contribuído a liderança de Ramalho Eanes» ( ob. cit. , p. 100). 

Outro «político», de que faria parte o «Grupo dos Nove», «veio a desempenhar o papel de um verdadeiro estado-maior de Vasco Lourenço», que «assumira a chefia do Movimento» (
 ob. cit. , p.100). 

O livro encerra muitas contradições e obscuridades sobre o «Movimento». Diz que «a iniciativa [de um confronto militar] teria de partir sempre dos «dissidentes» (
 ob. cit. , p. 93), que o «Movimento» tinha por objectivo «evitar qualquer possibilidade de uma guerra civil» e a criação da «Comuna de Lisboa» ( ob. cit. , p. 94). Mas o facto, que importa sublinhar, é a revelação de um efectivo centro político-militar a preparar um golpe ao longo do verão quente . 

Melo Antunes,
 por seu lado, fala da acção militar do «Grupo dos Nove» na preparação para o golpe: «Além das acções legais ou semilegais a que deitámos mão para obter a supremacia militar, também desenvolvemos acções clandestinas para nos prepararmos para uma confrontação que eu julgava inevitável. [...] Tínhamos uma organização militar em marcha. » ( Vida Mundial , Dezembro de 1998, p. 50.)

A preparação do golpe «para pôr fim a uma situação insustentável» vinha pois de longe.
 

Foi ulteriormente dado a conhecer que, no
 verão quente , muitos Comandos «deixaram os postos civis e se alistaram de novo para estarem operacionais». 

A colocação de Pires Veloso no Norte em Setembro de 1975, substituindo Corvacho, que Freitas do Amaral intitula de «famigerado Brigadeiro» «afecto ao PCP» (
 O Antigo Regime e a Revolução , ed. cit., pp. 245 e 406), fazia parte dessa preparação. Não foi por acaso que, no 25 de Novembro, vieram ajudar o golpe várias Companhias do Norte, que depois levaram os presos para Custóias. 

O papel de Ramalho Eanes é sublinhado nas valiosas informações que, no 20º aniversário do golpe, revela Vasco Lourenço, designado em 22 de Novembro e confirmado a 24 Comandante da Região Militar de Lisboa em substituição de Otelo Saraiva de Carvalho.
 

Segundo Vasco Lourenço,
 Eanes , « responsável por organizar o plano de operações», «desempenhou papel fundamental» , e «acabou por ser o principal comandante operacional », não cedendo às pressões dos militares mais radicais (artigo «Não aconteceu o pior», in Revista História , nº 14, Novembro de 1995, pp. 37-38). 

Também Jaime Neves, sublinhando que se tratou de «um golpe contra o PCP», confirma o papel de Eanes: «
 Conspirávamos [...] e o Eanes [...] passou a ser ele a coordenar as coisas. » (Entrevista à revista Indy , 21-11-1997.) 

O papel de Eanes expressou-se aliás publicamente, logo após a vitória do golpe, em factos tão significativos como a sua ascensão a Chefe do Estado-Maior do Exército (interino em 27-11-1975 — posse em 9-12-1975) e ulteriormente a Presidente da República eleito.
 

Está mais que provado, assumido e confessado, que se tratou de
 um golpe militar contra-revolucionário há muito em preparação num turbulento processo de arrumação e rearrumação de forças. 

Cerca das 10 horas da própria manhã do dia 25, prontos para desencadear as operações, os conspiradores — numa diligência conjunta do «Grupo dos Nove», Eanes, Jaime Neves e oficiais dos Comandos da Amadora — procuraram e conseguiram obter a aprovação e cobertura institucional do Presidente da República, Costa Gomes (entrevista de Costa Gomes a Maria Manuela Cruzeiro, in
 Costa Gomes, o Último Marechal , Editorial Notícias, 3ª ed., Lisboa, 1998, p. 357; e in revista Indy, 27-11-1998). 

Para a compreensão do golpe e do que dele resultou é necessário ter em conta que,
 na sua preparação, participaram forças muito diversas associadas num complexo enredo de alianças contraditórias. 

Todas estavam aliadas para pôr fim à influência do PCP e ao processo revolucionário, restabelecer uma hierarquia e disciplina nas forças armadas e extinguir o MFA insanavelmente em vias de destruição pelas suas divisões e confrontos internos. Mas, como resultado do golpe relativamente ao poder político e às medidas concretas a tomar, havia importantes diferenças. 

Na grande aliança contra-revolucionária, internamente muito fragmentada, participavam fascistas declarados e outros reaccionários radicais, que visavam a instauração de um nova ditadura, que tomasse violentas medidas de repressão, nomeadamente a ilegalização e destruição do PCP. Participava também o
 Grupo dos Nove, de que alguns membros, receosos da possibilidade de saírem vitoriosas do golpe as forças mais reaccionárias, pretendiam a continuação de um regime democrático. 

Da parte dos fascistas e neofascistas, a ilegalização e repressão violenta do PCP era, não apenas um desejo mas um objectivo que pretendiam fosse alcançado no imediato.
 

As organizações terroristas deviam também participar. Paradela de Abreu diz que «sempre tinha estado convencido de que o
 Plano Maria da Fonte só deveria ser desencadeado no seu «programa máximo — um programa de violência ou de guerra — em ligação com um golpe militar » ( Do 25 de Abril ao 25 de Novembro , ed. cit., p. 204), intervindo com «muitos grupos capazes de executar quem quer que fosse» ( ob. cit. , p. 197). Na noite de 25 de Novembro foi-lhe comunicado para não avançar com o «Plano» ( ob. cit. , p. 208). 

Este objectivo de desencadear uma vaga repressiva de extrema violência já na altura era abertamente proclamado nas campanhas anticomunistas. E muitos anos volvidos, mais claramente o dizem, nas suas confissões, alguns dos participantes.
 

Jaime Neves, num jantar em sua homenagem realizado em Janeiro de 1996, declarou que «
 o “problema” seria resolvido “muito simplesmente com a prisão do líder do PC”, Álvaro Cunhal » ( Público , 11-1-1996). O seu estado de espírito é transparente, ao dizer que, se «havia uma manifestação realizada pelo Partido Comunista, eu recusava-me a ir com a tropa para a rua se não fosse para prender o dr. Álvaro Cunhal» (entrevista ao Semanário , 26-11-1983). 

Alpoim Calvão, operacional nº 1 da rede bombista, não deu por definitivamente derrotada a extrema direita depois do 25 de Novembro. Num encontro com Pinheiro de Azevedo (então Primeiro-Ministro), solicitou que fosse permitido o regresso a Portugal de Spínola e de todos os spinolistas exilados. Não são conhecidos os termos em que colocou o problema. Pedido? Exigência? O que diz é que uma tal decisão seria «uma solução pacífica», porque, apesar do 25 de Novembro, «
 muitos queriam pegar em armas e vir por aí abaixo matar comunistas » (entrevista a Eduardo Dâmaso, publicada no seu livro A Invasão Spinolista , Círculo de Leitores, 1997, p. 98). É o que teriam feito, pelo que se vê, se tivessem sido eles a impor o resultado. 

No próprio dia 25, não estando ainda certo como o golpe iria terminar política e militarmente, todos envolvidos num objectivo geral comum anticomunista, cada qual pretendia que o resultado correspondesse aos seus próprios objectivos.
 

Mário Soares e o PS tinham representado um papel importante na acção política preparatória do 25 de Novembro. Mas o golpe do 25 de Novembro não foi o que projectaram. Nenhum dos seus três objectivos centrais imediatos se concretizou. Nem a liquidação da dinâmica revolucionária e das suas conquistas. Nem o esmagamento militar do PCP, do movimento operário e da esquerda militar, nem, como resultado do golpe, ser Soares o vencedor, aquele que teria salvado a democracia de um golpe e de uma ditadura comunista e que por isso assumiria naturalmente de imediato, no poder do Estado, as responsabilidades daí decorrentes. Tal operação foi tentada mas falhou. Não é por isso exagero dizer-se que
 Soares ficou de fora do 25 de Novembro . 

Os fascistas e neofascistas, participantes na preparação e no golpe, não conseguiram tão-pouco o que pretendiam.
 

Quanto ao «Grupo dos Nove», Melo Antunes (tal como Eanes e Costa Gomes) defendia uma solução política da crise. Indo no dia 26 à televisão declarar que «a participação do PCP na construção do socialismo era indispensável», deu importante contribuição para a defesa da democracia.
 

Como na altura considerámos, essa atitude expressava um objectivo político e uma apreensão: o objectivo de assegurar um regime democrático para o que considerava indispensável o contributo do PCP e a apreensão de que, se a extrema direita desencadeasse a repressão contra o PCP, ele e seus amigos acabariam também por ser reprimidos.
 

Poucos dias depois, o chefe do EMGFA, general Costa Gomes, enviou aos três ramos das Forças Armadas uma directiva na qual se afirmava que «só os militares [...] estão em condições de servir o projecto de construção da sociedade proposta pelo Movimento do 25 de Abril, sociedade onde não seja mais possível a exploração do homem pelo homem» (
 Jornal de Notícias , 2-12-1975). 

E, ao tomar posse como Chefe do Estado-Maior do Exército, no dia 6 de Dezembro, Ramalho Eanes, então promovido a general, declarou como «objectivos políticos prioritários a independência nacional e a construção de uma nova sociedade democrática e socialista.» (
 Jornal de Notícias , 7-12-1975) 
Desde o 25 de Abril, todos os golpes e tentativas de golpes contra-revolucionários — golpe Palma Carlos, 28 de Setembro, 11 de Março e outros — foram explicados pelos seus autores, apoiantes e cúmplices como respostas a golpes ou tentativas de golpes do PCP visando o assalto ao poder. Assim sucedeu também noverão quente de 1975, quando forças contra-revolucionárias desenvolviam o terrorismo bombista e preparavam um novo golpe militar. 

Ao contrário do que dizem (como acabamos de ver) os principais protagonistas do 25 de Novembro, Mário Soares e seus amigos não desistiram até hoje de dizer que, no 25 de Novembro, «
 houve uma tentativa de golpe, animado pela Esquerda Militar e pelo PCP, e uma resposta, [...] um contra-golpe da parte do sector democrático, isto é, militares moderados, “Grupo dos 9” e PS » (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 487). 

Esta versão dos acontecimentos foi através dos anos repetida incansavelmente.
 

José Manuel Barroso
 , sobrinho de Soares e adjunto de Spínola, é ainda mais categórico: « O 25 de Novembro [diz ele] foi um golpe de força militar, preparado pelo Partido Comunista ». «“Páras” e “fuzos” receberam, assim, ordens de saída directamente da direcção militar do PCP ». O 25 de Novembro foi «uma operação dirigida por dois postos de comando: um, militar, situado no SDCI, e outro, civil, a partir da direcção militar do Partido Comunista » ( Diário de Notícias , 25-11-1993). 

Manuel Monge
 , destacado oficial spinolista próximo de Soares e que tinha fugido para o estrangeiro com Spínola depois do 11 de Março, afirma também que «o 25 de Novembro foi um golpe desencadeado pela ala “gonçalvista” do MFA com o total apoio do PC. » ( Público , 17-4-1994.) 

E, já agora, lembremos que, em 1997,
 Carlucci informava a Câmara dos Representantes de que no 25 de Novembro «o golpe comunista foi derrotado » ( Dossier Carlucci/CIA , ed. cit., p. 109). 

Como a orientação e acção do PCP e os acontecimentos provassem que não tinha havido nem golpe nem tentativa de golpe do PCP, inventou-se então
 a tese do «recuo» — a história de que o PCP, vendo que o seu golpe militar, já desencadeado, iria falhar, recuou e desistiu do golpe . Essa tese do «recuo do PCP» é condimentada com uma insultuosa afirmação de Mário Soares: que o PCP teria lançado o golpe, mas, vendo que ia ser derrotado, deixou no terreno os esquerdistas «abandonados pelo PC» à sua sorte e à repressão (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 487). Falsidade e calúnia retomada por Freitas do Amaral ( O Antigo Regime e a Revolução, ed. cit., p. 477). 

Explique-se. Esta invencionice, como argumento, deturpa
 dois factos reais: Um , as orientações dadas pela Direcção do PCP na noite de 24 para 25 a algumas das suas organizações para não se deixarem arrastar em atitudes ou na participação em aventuras esquerdistas de confronto militar (casos do Forte de Almada e do RAL 1). 

Outro
 , uma conversa telefónica na mesma noite de 24 para 25 entre o Presidente da República Costa Gomes e o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em que este, tendo tomado a iniciativa do contacto, nos termos habituais da ligação institucional com a Presidência da República, comunicou ao Presidente, desmentindo especulações em curso, que o PCP não estava envolvido em qualquer iniciativa de confronto militar e insistia em apontar a necessidade de uma solução política. Soares diz contudo que Costa Gomes conseguiu «convencer o Partido Comunista a desistir » do 25 de Novembro (entrevista ao Público-Magazine , 24-4-1994). A verdade é que não houve «recuo» nem «desistência» porque não houve golpe nem tentativa de golpe do PCP, mas a realização empenhada da orientação definida pelo Comité Central em 10 de Agosto, até ao último minuto, incluindo as indicações acima referidas dadas às organizações do Partido e a diligência que se lhes seguiu junto do Presidente da República. 

Apesar de ficar claramente comprovado que o 25 de Novembro foi um golpe militar contra-revolucionário, há muito em preparação, Soares diz ainda, tantos anos passados, que «a tese de Álvaro Cunhal» de o 25 de Novembro ter sido um golpe e não um contra-golpe «
 permanece hoje historicamente indefensável » (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 490). 

A verdade dos factos e os testemunhos mais válidos (de Costa Gomes, de Melo Antunes, de Vasco Lourenço, de Ramalho Eanes) mostram que «indefensável» é a «tese» de Soares e seus amigos quando insistem no
 golpe do PCP e no contra-golpe de 25 de Novembro. 
Na medida em que avançava a preparação do golpe militar contra-revolucionário, travou-se acesa luta política em torno dos trabalhos e das funções da Assembleia Constituinte. 

Soares pretendia (tal como Freitas do Amaral) que a Assembleia Constituinte, sem aprovar a Constituição, se transformasse de imediato num órgão do poder para fazer leis gerais e escolher novo governo. Pretendia no imediato, tendo Mário Soares como Primeiro-Ministro, formar governo em substituição do VI Governo Provisório. Jorge Miranda a pedido do PS e do PPD (segundo testemunho de Freitas do Amaral a pp. 531-532 do seu livro já citado) chegou a redigir um projecto de lei constitucional segundo o qual a «Assembleia Constituinte assume a plenitude dos poderes legislativos e de fiscalização do Poder Executivo em Portugal» (art. 1º ). Compreende-se assim melhor que, nas suas memórias, Mário Soares chame «Parlamento» à Assembleia Constituinte (Maria João Avillez,
 Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 483). Pretendia ainda, como os acontecimentos pouco depois comprovaram, impedir a aprovação da nova Constituição. 

Na preparação do golpe contra-revolucionário, que veio a realizar-se em 25 de Novembro, e no quadro desses objectivos, chegou a ser examinada a possibilidade de transferência para o Porto dos chefes da conspiração, de unidades militares comprometidas e da Assembleia Constituinte, para depois, a partir do Norte, desencadear a guerra civil e esmagar militarmente o Sul, o que chamaram a «Comuna de Lisboa».
 

O conhecimento da existência desse plano é necessário para compreender a conduta de Mário Soares no chamado «cerco a S. Bento», assim chamado pela contra-revolução.
 

Foi o caso de, em tão polémica situação, no dia 12 de Novembro, os trabalhadores terem realizado uma concentração em frente da Assembleia Constituinte com
 objectivos de carácter reivindicativo laboral . 

Conhecendo as posições dos vários partidos relativas às suas reivindicações, os trabalhadores aplaudiram os deputados do PCP e alguns outros, que saíram calmamente do edifício e seguiram os seus destinos.
 

Mário Soares conta à sua maneira os acontecimentos:
 

«Vieram dizer-me que havia uma importante manifestação de operários da construção civil em frente ao Palácio. Fui a uma janela e
 apercebi-me de que uma verdadeira milícia paramilitar [?!!!], que enquadrava[?!!!] os manifestantes, se preparava [?!] para ocupar certas posições chave perto das saídas » (?!) (Mário Soares, Portugal: Que Revolução? , ed. cit., p. 187). 

Segue-se a descrição da «fuga», que vale a pena ler como testemunho de uma operação teatral, espectacular e rocambolesca. Corredores fora no edifício, «começou a correr» com seus amigos, atravessou em correria os jardins de S. Bento até lá cima à residência do Primeiro-Ministro e saiu pelas traseiras... (Maria João Avillez,
 Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 483). O próprio Soares conta este episódio com um colorido que faz inveja aos melhores ficcionistas. Leia com gosto, se tiver ocasião. 

A história do «cerco de S. Bento», como ameaça comunista de assalto à Assembleia Constituinte com tais «milícias paramilitares», correu mundo, espalhada pela contra-revolução, tal como tinham sido os casosRepública
 e do Patriarcado. 

A ameaça comunista e a «fuga» a que Soares fora forçado para escapar ao perigo «provavam» que a Assembleia Constituinte não tinha condições para continuar em Lisboa.
 

Segundo o pormenorizado plano de ir para o Norte, era imperativo deslocar a Assembleia para o Porto, para, a partir do Norte, lançar-se à conquista da «Comuna de Lisboa». É esclarecedor que, no dia 20 de Novembro, PS, PPD e CDS aprovam na Assembleia Constituinte a possibilidade de a Assembleia reunir «em qualquer momento e em qualquer lugar» (
 Diário da Assembleia Constituinte , p. 2779). 

Para o Porto não foi a Assembleia mas, como veremos, foi Mário Soares, pensando poder realizar o tenebroso plano, que fora rejeitado.
 

Quanto à manifestação dos trabalhadores, «a ordem repôs-se» com «cedências do Primeiro-Ministro a algumas das reivindicações salariais», segundo acabou por confirmar o próprio Soares (Maria João Avillez,Soares. Ditadura e Revolução
 , ed. cit., p. 483). Para quê ter abalado em tal correria e saído pelas traseiras? 
A ida, no próprio dia 25 de Novembro, de Soares para o Porto com os seus amigos, constituiu um episódio que esclarece e evidencia alguns dos mais sérios perigos de um plano muito diferente do que veio a ser o golpe do 25 de Novembro e os seus resultados. 

Nesse dia, partindo para o Porto, Soares ia certamente esperançado e decidido a que o golpe contra-revolucionário vitorioso seria um confronto militar violento, que tivesse como resultado a ilegalização e repressão violenta do PCP, do movimento operário e da esquerda militar e a não aprovação da Constituição da República já elaborada pela Assembleia Constituinte.
 

Um tal plano foi desvendado vinte anos mais tarde pelas extraordinárias revelações de Vasco Lourenço que, nas vésperas do 25 de Novembro, substituiu Otelo no Comando da Região Militar de Lisboa e acompanhou de perto, em ligação com Eanes, a preparação final e a realização do golpe.
 

Vasco Lourenço revela que, já depois da formação do
 Grupo dos Nove e da publicação do seu documento,foi levantada e esteve quase em vias de ser aprovada a hipótese (à qual Vasco Lourenço diz ter-se oposto «firme e deliberadamente», porque seria «provocar a guerra civil») da « retirada para o Norte, com as forças que nos apoiavam (Comandos da Amadora, Artilharia de Cascais, Infantaria de Mafra e Cavalaria de Santarém), permitindo, ou provocando, [!] que se criasse a Comuna de Lisboa , que depois se procuraria reconquistar» (artigo in Revista História , nº 14, Novembro de 1995, p. 35). Seria também de considerar «passar a reunir no Porto» a Assembleia Constituinte ( ibid. ), ideia esta que Mário Soares sugere, inventando e lançando a cabala do «cerco a S. Bento» pelos comunistas. Sendo impossível à Assembleia funcionar como Constituinte em tais condições, com a ida para o Porto tornar-se-ia um Parlamento, faria leis e escolheria o governo, como consta do projecto de lei constitucional de Jorge Miranda atrás referido. 

Reveladora também da natureza e execução do mesmo plano a pouco conhecida
 transferência para o Norte do ouro do Banco de Portugal , em «operação devidamente concertada com o sindicato dos bancários, na altura de orientação conjunta socialista e MRPP» ( Vida Mundial , Dezembro de 1998). 

Os factos mostram que, ao ir para o Porto no dia 25, ainda Soares sonhava com a «hipótese» de guerra civil contra a «Comuna da Lisboa» desvendada anos mais tarde por Vasco Lourenço.
 

Também
 Melo Antunes informa «a sua vontade de evitar a deslocação do poder para o Norte, com a intenção de daí se partir à conquista da “comuna de Lisboa” » ( Vida Mundial , Dezembro de 1998, p. 50). 

As revelações de Vasco Lourenço e de Melo Antunes são ainda mais esclarecedoras, se lhes acrescentarmos outras confissões, igualmente sensacionais, feitas pelo próprio Soares a Maria João Avillez: «
 Talvez uma semana antes do 25 de Novembro, o então Primeiro-Ministro [da Grã-Bretanha] James Callaghan enviara-me um oficial do Intelligence Service que eu, através de Jorge Campinos, apresentei aos militares operacionais [é pena não dizer quais] que, entretanto, tinham começado a gizar o seu plano militar — conforme Callaghan conta nas suas Memórias  

«A consumar-se a divisão entre o Norte e o Sul do país [informa Soares], o Reino Unido não só nos apoiaria politicamente, como colaboraria ainda com Portugal através de apoios concretos.
 Prometeram-nos fazer chegar rapidamente ao Porto combustível para os aviões e também armamento. » (Maria João Avillez,Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 491.) 

Isto é: Uma semana antes do 25 de Novembro já Soares estava a combinar com os ingleses a ida para o Norte, o fornecimento de gasolina para os aviões e de armamento.
 

E não só. Conta Rui Mateus referindo os apoios financeiros dos ingleses: que «a entrega mais [...] volumosa, seria a 24 de Novembro, nas vésperas da partida de Mário Soares para o Porto. [...] As instruções que Mário Soares me tinha dado eram no sentido de eu me dirigir com o “pacote” a sua casa, pois o seu conteúdo era necessário para esta segunda viagem para a capital do Norte. Dirigi-me então [...] à sua casa no Campo Grande.» (
 Contos Proibidos. Memórias de Um PS Desconhecido , Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, p. 89.) 

Acompanhemos o desenrolar dos acontecimentos militares. No dia 25 de Novembro, pilotos e aviões são levados de Tancos para Monte Real e Cortegaça, os pára-quedistas abandonados pelos oficiais saem de Tancos e ocupam o Estado-Maior da Força Aérea em Monsanto. Está tudo preparado para desencadear em Lisboa as operações do golpe contra-revolucionário há muito preparado e definido no «Plano das Operações». Soares vai à sede do PS, aí «trocando informações com os seus camaradas e recolhendo dos militares as precisões possíveis». Vai depois ao Palácio de Belém, onde «se montara
 um posto de informações chefiado pelo tenente-coronel Ferreira da Cunha» , o mesmo que no 11 de Março se encontrava com Manuel Alegre e outros dirigentes do PS. «Após ter sido decretado por Costa Gomes o “estado de emergência”, mas quando a situação militar era muito confusa e Lisboa estava cercada [em vez de ficar no teatro de operações do golpe a desencadear-se nesse mesmo dia], decidiu-se, numa reunião da direcção do Partido, que alguns de nós iríamos para o Porto» (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 490). 

Chegara para Mário Soares a hora do seu «contra-golpe», a hora do plano referido por Vasco Lourenço, ao qual este se tinha «firmemente oposto»: a retirada para o Norte «permitindo, ou provocando, que se criasse a Comuna de Lisboa, que depois se procuraria reconquistar». Agora não seria com as unidades das Forças Armadas nessa altura consideradas. Mas poderia ser com as unidades do Norte e do Centro e com os pilotos e aviões que tinham abandonado Tancos e estavam em Monte Real e Cortegaça. E com mais armas, que poderiam fornecer os amigos ingleses, conforme não só prometera Callaghan directamente, mas confirmara por intermédio de um oficial do
 Intelligence Service . 

E, à maneira da «fuga» espectacular do «cerco de S. Bento», aí vão eles agora para o Porto — do Estoril para Sintra, pela estrada da costa, até às Caldas da Rainha, ali pela Nazaré e S. Pedro de Muel até ao Porto (Maria João Avillez,
 Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 490). 

Conta Freitas do Amaral que Mário Soares, imediatamente antes de partir para o Norte, lhe telefonou a «“pedir-lhe que desse instruções para os dirigentes e os Deputados do CDS irem também todos para o Porto”», a fim de a partir dali combaterem a «Comuna de Lisboa». Perguntando-lhe Freitas do Amaral: «Acha que devemos partir antes do fim-de-semana?», Mário Soares respondeu-lhe «à queima-roupa: “Antes do fim-de-semana não, Sr. Professor. Têm de partir antes do jantar. Hoje mesmo”.» (
 O Antigo Regime e a Revolução , ed. cit., p. 461.) 

Melo Antunes
 e Costa Gomes fazem interessantes apreciações à ida para o Porto de Soares e seus amigos no momento crucial do 25 de Novembro. 

Melo Antunes, usa palavras importantes para compreender esta deslocação: «Admito que tenha
 havido conivência entre o PS e o Pires Veloso, nomeadamente na ideia da fuga para o Norte , que, do meu ponto de vista, era completamente disparatada e só ia criar condições de dramatização, que podiam conduzir à guerra civil . Passado este tempo todo, não me custa a admitir que o PS, em particular o Mário Soares, quisessem ter, mais uma vez, um enorme protagonismo no meio disto tudo, aparecendo no fim como os grandes heróis. » (Entrevista a Maria Manuela Cruzeiro, revista Indy , 27-11-1998.) 

Diz por sua vez
 Costa Gomes : «Achei de um ridículo espantoso a decisão de os principais dirigentes do PS se refugiarem no Norte . E parece que o Mário Soares foi um deles. Acho que isso é uma fraqueza que as pessoas têm de vez em quando. Talvez levadas, porque vejo o Mário Soares como uma pessoa corajosa. Mas, nesse momento não foi o mais corajoso. Fugiu do centro onde havia maior actividade revolucionária para um sítio onde julgava que havia paz . Mas era uma paz podre, com laivos de MDLP. » (Entrevista a Maria Manuela Cruzeiro, revista Indy , 27-11-1998. Cf. Costa Gomes. O Último Marechal , ed. cit., p. 363.) 

Costa Gomes revela com frontalidade a situação, mas os factos atrás apontados mostram que não se tratou de uma «fuga» e sim da partida para a realização de um plano.
 

Indo para o Norte, onde o aguardavam o comandante da Região Militar Pires Veloso e Lemos Ferreira, levando os aviões e pilotos de Tancos, e contando com o apoio político, diplomático e financeiro da Grã-Bretanha, gasolina para os aviões e mais armamento, Mário Soares vai com a ideia de que o golpe contra-revolucionário em Lisboa poderá ser derrotado e então ele, a partir do Norte, desencadeará a guerra civil para esmagar a «Comuna de Lisboa».
 

E, sobre os pilotos que, com os aviões, abandonaram «em bloco» Tancos, e que «constituíam a parte mais importante dos “páras”» e os seus comandos todos, não é de mais lembrar que Costa Gomes lhes atribui grande responsabilidade por abandonarem os «páras» (
 Indy, 27-11-1998) que em desespero foram ocupar em Monsanto o EMGFA e prender o seu comandante. 

No Norte, os aliados de Soares não eram famosos.
 

Segundo Melo Antunes, Soares e o PS «
 aliaram-se ao que de pior havia nas Forças Armadas. Como já se haviam aliado ao Spínola . Numa aliança que se tornou mais evidente depois da vinda dos oficiais do ELP e do MDLP. Que se tornaram nos aliados militares preferenciais do PS.» ( Indy, 27-11-1998). 

No Porto (já realizado o encontro com Pires Veloso e Lemos Ferreira) Soares dá, no dia 26, uma conferência de imprensa. Insistindo na sua tese do «contra-golpe» à tentativa de um golpe comunista, afirma que o 25 de Novembro foi (o inventado golpe comunista, claro) «
 o mais grave atentado à democracia portuguesa desde o 25 de Abril » ( Primeiro de Janeiro , 27-11-1975). 

Dois dias depois, num comício realizado também no Porto, acusa: «os responsáveis são em primeiro lugar os dirigentes do PCP» (
 Jornal de Notícias , 27-11-1975). Sottomayor Cardia classifica o 25 de Novembro como « uma insurreição comunista para a conquista total do poder e eliminação dos adversários do comunismo » ( O Jornal , 5-12-1975). 

Nesse comício destacou-se uma delegação do PC de P(m-l), muito aplaudida segundo o jornal, com um sugestivo cartaz: «Prisão para Cunhal e seus lacaios» (
 Comércio do Porto , 27-11-1975). 

Vê-se que Soares e o PS se identificavam, quanto aos objectivos do golpe, não com o que veio a ser o golpe e o seu resultado, mas com os fascistas e «laivos de MDLP» como Costa Gomes refere. Com spinolistas e «o pior que havia nas Forças Armadas», como refere Melo Antunes. Com os reaças a ferver para «
 vir por aí abaixo matar comunistas », como diria dias depois o chefe da rede bombista do MDLP Alpoim Calvão. Ainda com a ideia de liquidar pelas armas a «Comuna de Lisboa». 

Uma observação mais para melhor se compreender o alcance das palavras.
 

Os contra-revolucionários chamaram «Comuna de Lisboa» à eventual conquista insurreccional do poder pelo PCP na grande região de Lisboa. Este nome não foi utilizado por acaso. Foi por analogia com a «Comuna de Paris» de 1871, a qual nas palavras de Marx «era essencialmente um governo da classe operária» (Marx//Engels,
 Obras Escolhidas em três tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1983, Tomo II, p. 243). Tão-pouco por acaso a analogia da repressão que projectavam para a «Comuna de Lisboa» com a conquista de Paris pelas tropas reaccionárias e o terrível e cruel esmagamento da «Comuna de Paris» com fuzilamentos em massa de dirigentes e da população. 
A preparação e a execução do golpe militar contra-revolucionário de 25 de Novembro realizou-se no quadro complexo e movediço de alianças diversas e contraditórias, de arrumações e desarrumações de forças em movimento, de objectivos políticos e militares diferenciados e incompatíveis no que respeita ao que cada qual pretendia como resultado final do golpe. 

Mário Soares e o PS participaram com importante contribuição na formação da grande aliança contra-revolucionária anticomunista e anti-MFA, que conduziu ao golpe. Mas, pela identificação dos seus objectivos e pela sua colaboração estreita e prioritária com as forças mais reaccionárias, estiveram à margem do processo efectivo de preparação do golpe e não conseguiram desencadear o que apelidavam de «contra-golpe», nem conseguiram o seu objectivo de reprimir e ilegalizar violentamente o PCP e o movimento operário.
 

Muitos anos mais tarde, Soares diz que, logo no dia 26, apoiou e «pareceu-lhe sensata» a célebre declaração de Melo Antunes na televisão: que «os comunistas eram indispensáveis para que se cumprissem as regras do jogo democrático» (Maria João Avillez,
 Soares. Ditadura e Revolução , ed. cit., p. 489). Fantástica reviravolta, na hora do fracasso da tentativa de desencadear a guerra civil a partir do Norte. 

A verdade é que,
 no 25 de Novembro, Soares, de companhia com a extrema direita, sofreu séria derrota política . Nem a liquidação militar da «Comuna de Lisboa», nem guerra civil, nem ilegalização e repressão do PCP, nem intervenção efectiva na saída política da situação. É pertinente a observação de Melo Antunes de que «não é por acaso que das suas declarações continuam a não constar grandes referências ao 25 de Novembro» ( Indy, 27-11-1998). 

Há quem não compreenda como foi possível a surpreendente solução política, que no imediato veio a resultar do golpe. Com a salvaguarda das liberdades e da democracia. Com a formação de um governo em que continuou o PCP. Com a aprovação e promulgação da Constituição pela Assembleia Constituinte.
 

E entretanto essa solução política era uma possibilidade há muito considerada pelo PCP na sua análise da situação e na sua acção prática. Uma tal saída política do golpe «contra o PCP» resultou da
 aliança, não negociada, não debatida, não acordada, não explicitada, mas aliança com o PCP, conjuntural e objectivamente existente , de chefes das Forças Armadas, destacados participantes na preparação do golpe e na sua execução, mas defensores da continuação das liberdades e da democracia política. 

A aliança, que decidiu da saída política do 25 de Novembro, não foi pois a que Mário Soares indicava como sendo a do «contra-golpe» — «militares moderados, Grupo dos Nove e PS». Não, não foi essa aliança que realizou o 25 de Novembro nem a que interveio na saída política do golpe. No complexo quadro da grande aliança contra-revolucionária, o PS, no 25 de Novembro, acabou por
 ficar de fora , como atrás anotámos. É Eanes que, citando o «Plano de Operações», o testemunha ( O Independente , 29-4-1994). 

De facto, o «Plano de Operações», publicado como anexo em vários livros, e não nos consta tenha sido desmentido, justifica inteiramente essa afirmação.
 

Embora admitindo poder vir a ser necessário um «plano de acção política com deslocação dos órgãos do poder político para o Norte», o Plano estabelece que «a acção decisiva processar-se-á na Região Militar de Lisboa» «seja ou não» a iniciativa das «forças da ordem».
 

Elaborado sob a direcção pessoal de Eanes (como Gomes Mota informa e Vasco Lourenço confirma) o Plano permite explicar e compreender muitos dos aspectos mais contraditórios e polémicos do golpe.
 

O «Plano de Operações» contém, objectivamente, não o plano de um contra-golpe mas de um golpe. Não uma acção militar para responder a um golpe efectuado ou em curso, mas o plano de um golpe militar, exigindo longa preparação, com o objectivo de pôr fim a uma situação político-militar cuja responsabilidade atribuem ao PCP.
 

O Plano é concebido como um golpe à escala nacional e com plano de operações em todas as regiões. Faz um balanço das «unidades favoráveis» e «unidades não seguras» indicando as operações militares do golpe decorrentes da situação avaliada em cada caso.
 

Aponta os termos concretos da intervenção tanto das unidades das Regiões Militares do Norte, do Centro, do Sul e de Lisboa, como dos partidos que apoiam o golpe.
 

O Plano, embora admitindo que o momento da execução possa ter de ser determinado por circunstâncias não previstas, «está elaborado para a hipótese da iniciativa ser das forças da ordem» (hipótese 2ª) e vai ao ponto de indicar a altura do dia para o começo das operações de tais ou tais unidades.
 

O Plano, nas alternativas que coloca em muitos casos ao desenvolvimento das operações, contém uma avaliação de incertezas e contradições, que reflectem e correspondem às contradições do próprio golpe.
 

Por um lado, constitui um elemento do processo geral da contra-revolução no caminho para o fim da dinâmica revolucionária, para a efectiva dissolução do MFA, para o restabelecimento da hierarquia militar controlada pelas forças de direita.
 

Por outro lado, o seu resultado imediato não foi a repressão ao PCP e ao movimento operário e a instauração de uma nova ditadura, como queriam, e não estiveram longe de conseguir, os protagonistas e apoiantes fascistas e fascizantes, mas a continuação (com os comunistas e com um forte movimento sindical de classe) de um regime democrático.
 

Os principais dirigentes dos partidos que tinham participado e apoiado a realização do golpe evitaram até hoje dar sobre isso uma apreciação frontal. Deixaram isso para o Jardim e para os bombistas.
 

Pouco conformado com a saída política, Galvão de Melo (em 8 de Dezembro), brandindo a moca, apelava para que os comunistas fossem lançados ao mar.
 

Alberto João Jardim
 diria mais tarde que «o problema foi que as Forças Armadas voltaram a falhar por deixarem incompleta a missão patriótica, em que se envolveram a 25 de Novembro. Passou-se uma esponja sobre os crimes que vinham sendo cometidos desde o 25 de Abril » « mantiveram uma Assembleia Constituinte eleita em condições de total falta de imparcialidade e liberdade para vários partidos políticos, o que deu a borrada ainda hoje em vigor, quando deviam ter dissolvido essa Assembleia e, então sim, isso feito, realizar eleições verdadeiramente livres» ( O Diabo , 4-4-1994). 

O chefe do movimento terrorista
 Maria da Fonte responsável por numerosos assaltos, atentados, destruições de instalações do PCP, lamentando não ter vencido o «Plano» gizado para liquidar fisicamente o PCP, referirá o golpe realizado como «aquele 25 de Novembro», «o pudico golpe militar de Novembro de 1975», que quis «evitar» que a intervenção dos civis na execução do «Plano» «pudesse resultar em algumas centenas de mortos» (Paradela de Abreu, ob. cit., pp. 153 e 154). Que importância teria isso? 

Joaquim Ferreira Torres, destacado activista do MDLP e contratador do mercenário Ramiro Moreira, considerou o 25 de Novembro «
 uma traição » ( ob. cit. , p. 188). 

Também o cónego Melo ficou manifestamente desiludido. Tanto empenho, tanta mobilização das populações arregimentadas pela Igreja e pelos padres, tantos assaltos e destruições de Centros de Trabalho do PCP, tantas bombas, tantos atentados — alguns dos quais até tem sido difícil manter impunes — e afinal um tal resultado: liberdades, regime democrático, aprovação da Constituição. Desapontamento profundo. Não sabe como explicar mas explica: «
 O 25 de Novembro foi da total responsabilidade dos marxistas […] foi uma luta de marxistas » (entrevista ao Diário do Minho/Rádio Renascença , 13-3-1999). Só faltava mais esta, não é verdade? 

Como podiam fascistas e fascizantes, militares radicais, bombistas do MDLP, do
 Maria da Fonte e do ELP, como podiam PS, PPD e CDS aceitar que a saída política de um golpe contra-revolucionário anti-PCP fosse a continuação e retomada de funções de um governo com a continuação da participação do PCP, com um ministro e seis secretários de Estado? 

Não podiam aceitar e não se deram por vencidos. Voltaram à carga no imediato numa ressaca que, como veremos, teve como objectivos imediatos fundamentais inverter a situação, impedir a aprovação e promulgação da Constituição pela Assembleia Constituinte e assegurar a efectiva tomada do poder pela contra-revolução.
 

____________
 
[*]
 Ex-secretário-geral do Partido Comunista Português. Capítulo 8 do livro "A verdade e a mentira na Revolução de Abril: A contra-revolução confessa-se", Edições Avante!, Lisboa, Setembro de 1999, ISBN 972-550-272-8 

Este artigo encontra-se em
 http://resistir.info

domingo, 22 de novembro de 2015

RTP: 25 de Novembro de 1975 1.Primeira intervenção de Duran Clemente (18h10)


RTP: 25 de Novembro de 1975
1.Primeira intervenção de Duran Clemente (18h10)
Foi dada ordem pelo Conselho da Revolução para que o Coronel Jaime Neves e os seus Comandos venham atacar os militares que neste momento, representando os seus interesses e os dos trabalhadores fazem deste emissor, da Radiotelevisão, uma voz ao serviço dos explorados e oprimidos deste país, isto é, ao serviço da revolução socialista.
Aguarda-se pela chegada duma comissão de militares de pára-queduistas do Regimento de Tancos para explicitar as suas razões.
Esta intervenção foi repetida

2.Segunda intervenção de Duran Clemente (19h35)
Boa noite, recebemos há pouco dois comunicados do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos e Metalomecânica do Distrito de Lisboa. MDC
………………………………………………………………………….
”Não à guerra civil e ao estado de emergência na região de Lisboa. Não há suspensão da Liberdade de expressão e de reunião. Não à repressão do movimento operário e dos Trabalhadores.”
…………………………………………………………………………..
Alerta, metalúrgicos trabalhadores.
Não à divisão do país, à confrontação armada e à guerra civil. Não ao estado de emergência na área de Lisboa, primeiro passo para o corte das liberdades democráticas e para a repressão dos operários e trabalhadores.”
“A revolução está na hora decisiva. Operários, camponeses, soldados e marinheiros, unidos venceremos. A vitória é difícil mas é nossa. A Direcção.Lisboa,25 de Novembro de 1975,às 17h15.”
……………………………………………………………………………………..
Continuação da Intervenção de Duran Clemente
Queria também esclarecer o Povo Português que está preocupado ao ouvir-nos, que nós aqui no Lumiar, estamos perfeitamente bem. MDC
[Nota:o Regimento de Comandos já tinha estado nas proximidades do Colégio Militar, na 2ª circular, e enviou um Capitão para dialogar comigo nas instalações da RTP. Respondi-lhe que perdiam o seu tempo. Tinha vários edifícios com “basucas”, no telhado e as “chaimites” eram reduzidas a pó…A Alameda das Linhas das Torres estava barrada com autocarros da “Eduardo George” e uma confrontação militar seria um desastre.]…[Nesta ocasião já tinha deixado sair toda a Administração da RTP,neutralizada cerca das 15h00, e  presidida pelo então Major M.Pedroso Marques,( que se manteve retida cerca de duas horas nas suas instalações e gabinetes,com televisão e telefones ) e bem assim todos os colaboradores da RTP que tivessem querido sair.  Ninguém foi forçado a permanecer.]
………………………………………………………………….
É provável qua nos silenciem a antena de Monsanto.MDC
Não sabemos o que se passa relativamente a Monsante.Se efectivamente deixarmos de estar nos “ecrâns” é porque a antena de Monsanto foi neutralizada. [O que viria a acontecer depois das 21h00]
Não se trata de neutralização do todo o pessoal que está aqui nos estudos no Lumiar em que, efectivamente, os militares estão aqui mais uma vez pretendendo que a voz dos militares e dos trabalhadores não seja silenciada.
Apelo para a serenidade, para a vigilância revolucionária, inteligente e serena de todos…unidos Venceremos. MDC (19h45)


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

GUINÉ_Bissau -O caminho da Independência de jure" por Jorge Golias (Eng.Transmissões)(

GUINÉ-BISSAU – O CAMINHO DA INDEPENDÊNCIA “DE JURE”
 por Jorge Golias

O CONTEXTO

Carlos Fabião, o 2º encarregado de governo da Guiné-Bissau, nomeado pelo presidente da Junta de Salvação Nacional, General António de Spínola, chegou a Bissau no dia 7 de Maio de 1974.

Profundo conhecedor da Guiné, onde esteve 6 anos na entourage do General Spínola, foi com surpresa que tomou conhecimento da Guiné diferente que se nos apresentava após o 25 de Abril. Submersa e submetida no tempo da guerra, surgiu então adversa e subvertida.

No dia 26 de Abril, 11 oficiais do MFA depuseram o Governador, General Bettencourt Rodrigues, em virtude de o mesmo não reconhecer a JSN e dar ordens à PIDE para seguir os capitães do MFA nas ruas de Bissau.

O MFA na Guiné-Bissau, que estava pronto a intervir, no caso de falhar o golpe na metrópole, constituindo-se em Plano B do MFA em Portugal, resolveu assim clarificar a situação na Guiné e criar condições para que este território fosse tratado de maneira diferente dos outros em face da declaração de independência feita pelo PAIGC, no dia 24 de Setembro de 1973.

Esta tomada de posição política unilateral foi reconhecida logo por 86 países, mais do que aqueles com os quais Portugal tinha relações diplomáticas e logo apoiada por uma Resolução da ONU, onde se convidava Portugal a abandonar o território. A partir daqui éramos classificados como tropa de ocupação.

À tomada do poder em Bissau seguiu-se a nomeação do Encarregado de Governo, o Tenente-coronel Mateus da Silva, à data comandante do Agrupamento de Transmissões. As funções de Comandante-Chefe passaram a ser desempenhadas pelo Comodoro Almeida Brandão, comandante da defesa marítima.

O primeiro contacto com o novo poder em Portugal foi feito pelo Tenente-coronel Mateus da Silva com o Gen. Spínola, que o felicitou e lhe disse que aguardasse ordens.

Mas a realidade mudava de hora a hora e o novo poder em Bissau, que integrava o MFA como gabinete de Governo, teve que tomar algumas medidas sem cobertura de Lisboa, por se tornarem óbvias e para evitar ser ultrapassado pelos acontecimentos.

Foi o caso da libertação dos presos políticos da Ilha das Galinhas (afinal em Lisboa já se tinha feito o mesmo) e o da recolha ao Campo de Instrução do Cumeré dos PIDES que estavam a ser perseguidos nas ruas de Bissau. A ordem da JSN de integrar os serviços da PIDE nos Serviços de informação militares não tinha justificação na Guiné, por isso se encaminharam para Lisboa.

Na cidade de Bissau, na Segunda-Feira seguinte ao 25 de Abril, dia em que chegou o jornal Expresso com as notícias frescas do clima de liberdade em Portugal, o ambiente alterou-se de imediato e começaram as manifestações reivindicando a independência e dando vivas à JSN e ao PAIGC.

Fotos da manif em Bissau

A DESCOLONIZAÇÃO

O Brigadeiro Carlos Fabião veio acompanhado pelo Tenente-coronel Almeida Bruno e trouxe na mala centenas de fotos do General Spínola para serem distribuídas pela população.

A missão de Carlos Fabião consistia essencialmente em:

-negociar o cessar-fogo;
-tratar o PAIGC com um partido igual aos outros, que Spínola incentivou a se apresentarem em Bissau;
-promover um referendo com vista a uma solução federativa.

Era o “regresso” de Spínola. Fabião fez um discurso de posse, previsível, até na última frase: “Por uma Guiné melhor num Portugal continuamente renovado”. Era a tese de Spínola expendida desde os encontros no Senegal: “Evolução da Guiné para a independência a 10 anos, numa comunidade lusíada”. Mas já era tarde! A Guiné já era independente.
Discutimos esta questão nuclear até às 2 da manhã. Nesta altura, Fabião, já convencido, admitiu que queria era dizer “Por uma Guiné melhor e um Portugal continuamente renovado”. Carlos Fabião, o favorito de Spínola, oficial de grande prestígio, profundo conhecedor da Guiné (onde esteve 6 anos), que dominava o crioulo e conhecia quase todos os combatentes do PAIGC, inteligente, logo compreendeu que a Guiné daqueles dias era outra. Estávamos entendidos. Fabião designou o capitão Sousa Pinto seu ajudante de campo e a mim seu chefe de gabinete.
A Comissão Central do MFA[1] passou a integrar o gabinete de governo. Esta decisão unitária haveria de marcar positivamente o processo até ao fim.
Circulavam boatos de arrasamento de alguns dos nossos Destacamentos militares fronteiriços e apareceu uma circular em todo o TO pedindo negociações imediatas com o PAIGC.
Foto de Fabião
As últimas manifestações deixaram um rasto de violência na cidade: montras partidas, carros vandalizados e lojas saqueadas. De imediato chamámos os dois jovens que as lideravam. O Francisco Fadul (que seria 1º ministro mais tarde) e o Aristides Pereira. Eram contra a violência pós comícios, mas não sabiam como a ultrapassar. Demos-lhes os meios necessários, uma viatura e megafones, e responsabilizámo-los. A violência terminou em Bissau, mas começou noutras localidades. Os jovens líderes passaram a deslocar-se também ao interior e acalmaram os ânimos.
Naqueles dias, se na metrópole era tudo socialista, na Guiné era tudo pró PAIGC! Até os Fulas, que antes estavam contra o PAIGC eram agora os seus maiores defensores!
Entretanto, começou a confraternização das NT com os guerrilheiros do PAIGC. Recebemos em Bissau dezenas de fotos reportando os encontros. Foi algo comovente, mas também preocupante. Os comandantes nada puderam fazer. Foram os soldados de ambos os lados que tomaram estas iniciativas. O cessar-fogo ia-se, assim, materializando, antes dos acordos oficiais. Mais uma vez a realidade no terreno ultrapassava a decisão dos políticos. Quando em 16 de Maio, na reunião de Dakar, se acordou o cessar-fogo, ele já existia no terreno.  
Foto do cap Silva Ramalho – encontro com guerrilheiros
Em Portugal já se gritava “nem mais um soldado para as colónias”. Na Guiné gritava-se pelo “regresso imediato a Portugal”.
Entretanto, nos quartéis, os cabelos começaram a crescer, baixou-se a guarda, e apareceram os primeiros sinais de indisciplina. Ou se tomavam medidas imediatas ou a situação saía fora do controlo. Em meados de Maio determinámos a Estruturação Democrática do MFA nas Unidades, através da eleição de Delegações de oficiais, sargentos e praças. Foi considerada pelos mais conservadores como uma “hierarquia paralela”. Mas foi, outrossim, uma abertura democrática para restabelecer a Hierarquia e a Disciplina, condições “sine qua non” para uma condução eficaz do processo de descolonização.
Mas esta organização só funcionou porque foi alimentada, ou seja, constituímos grupos de contacto que se deslocavam ao interior, levavam informação, que anulava os boatos e deixavam aos camaradas do “mato” a sensação de pertença ao Movimento.
Surgiu então e em força o denominado MPP – “Movimento Para a Paz”, movimento alargado de oficiais, sargentos e praças, liderado pelo alferes Celso Cruzeiro, pugnando pela independência e pelo regresso imediato das tropas a Portugal. Numa prova de força conseguiu reunir em Bissau cerca de 1000 militares (incluindo alguns oficiais superiores).
Na Guiné ia-se reproduzindo o ambiente que se vivia em Portugal. Parecia que a imprensa de Lisboa, à medida que chegava a Bissau, inspirava factos semelhantes aos que relatava. Uma vez mais se nos colocou o problema da unidade. Unidade que era fundamental e que funcionava não só relativamente a Lisboa, mas também, e principalmente, ao PAIGC. A vida do MPP foi efémera, pois em 5 de Junho deu-se a sua integração no MFA.
Em 25 de Maio dá-se a 1ª reunião de Londres entre representantes de Portugal e do PAIGC. O MFA da Guiné só esteve representado na reunião de Dakar.
Entretanto, em 28 de Maio, chegou uma circular da JSN no sentido de o MFA se diluir nas FFAA. A cumprir-se seria um erro crasso. Fabião decidiu a não aplicação desta circular ao caso particular da Guiné, pois ele não abdicava do MFA para o ajudar a resolver os problemas que surgiam constantemente. O MFA era sempre a última instância a que se recorria para resolver todos os problemas militares ou civis como manifestações, reivindicações, casos de polícia, greves etc.
Em 6 de Junho (em simultâneo com a 2ª Reunião de Londres), finalmente, temos notícias dos nossos camaradas do MFA de Lisboa: chega a Bissau uma delegação que integrava o major Melo Antunes, o capitão Pereira Pinto e o comandante Almada Contreiras. Reunimos durante dois dias. Melo Antunes disse que estavam curiosos de conhecer o nosso processo de democratização das FFAA e avaliar a sua eficácia no terreno, eventualmente como exemplo a seguir em Portugal porque estava a grassar a indisciplina nas Unidades, onde se sentia a influência da extrema-direita à extrema-esquerda e até um certo antimilitarismo.
O que viram e ouviram na Guiné deixaram-nos tranquilos e aprovaram e incentivaram a prossecução das nossas políticas. Claramente estavam connosco no objectivo do reconhecimento da independência, mas percebemos que a decisão lhes escapava. Melo Antunes traçou um quadro bastante escuro da situação em Portugal, com o governo demasiado fraco, o PR demasiado forte e a Comissão Coordenadora no meio daquilo, tentando equilíbrios, mas não chegando para as solicitações. Daí o ter falhado uma das suas missões principais que era a da ligação ao Ultramar.
No dia 13 de Junho o brigadeiro Fabião recebeu uma mensagem (secreta e urgente) a mandar apresentar em Lisboa, cinco oficiais do MFA da Guiné[2]. A mensagem tinha como remetente o CEMGFA (general Costa Gomes) e como destinatário para informação o Presidente da República (general Spínola).
Em Lisboa, o capitão miliciano José Manuel Barroso informou-nos de que estávamos acusados de “criar na Guiné um clima de entrega ao PAIGC” e de que o mínimo que nos podia acontecer era ser-nos dada por finda a comissão. Foi, aliás, o que lhe aconteceu a ele.
Na “Cova da Moura” cruzámo-nos com o Vasco Lourenço, que não sabia de nada. Como falámos em alta voz apareceu o Almeida Bruno que se limitou a dizer que “isto não passava de uma tempestade num copo de água”.
Costa Gomes recebeu-nos com surpresa, pois não sabia de nada. Afinal, a mensagem foi feita pelo gabinete de Spínola, mas em nome de Costa Gomes. Fomos ouvidos durante uma semana, várias horas por dia, constantemente interrompidas por assuntos inadiáveis.
No final, usando mais claramente da palavra, fê-lo com estes 6 pontos:
1. As notícias particulares vêm deturpadas pela óptica pessoal;
2. Acredita na irreversibilidade do processo se é verdade aquilo que contámos (PAIGC dominante);
3. Sobre redução das forças por regresso à metrópole, pediu para dizermos ao encarregado de governo que pedisse 2 Batalhões ou mais;
4. Referiu a necessidade de alfabetização dos militares e consciencialização política das NT.
5. A ordem de chamada foi para compreender a desmobilização militar da Guiné;
6. Pediu para se investigar a origem e intenção da notícia dos 40 mortos (notícia falsa que nós ignorávamos).
No final, Costa Gomes, felicitou-nos pelo nosso trabalho e mandou-nos regressar, incentivando-nos a prossegui-lo.

Em 1 de Julho realizámos a 1ª Assembleia Geral do MFA, em Bissau, na qual aprovámos uma moção de apoio ao reconhecimento da independência da Guiné-Bissau e ao reconhecimento do PAIGC como seu interlocutor legítimo, tal como determinava a Resolução da ONU.
Em Lisboa também tudo se encaminhava nesse sentido e o velho general acabaria por ceder e aceitar esta evidência histórica, muito por influência do general Costa Gomes. Assim, em 27 de Julho aparecia, finalmente, a Lei 7/74 – Lei da Descolonização, onde se diz que se aceita a autodeterminação com todas as suas consequências, inclusive a independência.
Mas, pelo caminho, ainda sofremos dois ultimatos de comandantes locais do PAIGC, a Pirada e a Buruntuma. Fabião nomeou o major Ornelas Monteiro, que foi por mim acompanhado, em representação  do MFA. Dos contactos feitos com estes comandantes, no Senegal e na Rep Guiné-Conakri, resultou a anulação dos ultimatos. Estes incidentes, feitos à revelia da vontade das cúpulas do PAIGC, foram atribuídos a intenções de “mostrar serviço” por parte destes comandantes.
Seguiram-se encontros no Cantanhês, de missões do governo local e MFA com representantes do PAIGC, com vista à preparação da transferência de poderes.
Em 29 de Julho fez-se a 2ª Assembleia do MFA na Guiné, que foi mais um reconhecimento ao Brigadeiro Carlos Fabião pela sabedoria, inteligência e coragem da sua conduta neste processo de Descolonização.
Em 26 de Agosto, em Argel, anunciou-se o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, com efeitos a partir de 10 de Setembro, Retirada e Transf




erência de Poderes a 31 de Outubro.
quatro marcas essenciais que justificam o sucesso do MFA na Guiné-Bissau[3]:
- a unidade de pensamento e de acção;
- a preservação da hierarquia e da disciplina nos quartéis, pela adopção da estruturação democrática;
- o facto de o MFA ter integrado o governo e o facto de não ter havido “deserções” para Lisboa na fase crítica do processo;
- a rapidez do mesmo.






 




[1] Na Guiné o MFA elegeu uma Comissão Central com 4 elementos de todos os ramos, sendo 2 do exército, uma Coordenadora por cada Ramo e um secretariado executivo. Os oficiais que integravam estas comissões eram: Comissão Central: tenente-coronel Mateus da Silva, 1º tenente Pessoa Brandão, capitão Jorge Golias, capitão Faria Paulino; Comissão Coordenadora da Armada: 1º tenente Pessoa Brandão, 1º tenente Marques Pinto e 2º tenente Rosado Pinto; Comissão Coordenadora do Exército: capitão Sousa Pinto, capitão Duran Clemente e capitão Jorge Golias; Comissão Coordenadora da Força Aérea: major Sobral Bastos, capitão Faria Paulino e capitão Albano Pinela. No secretariado estavam o 1º tenente Bouza Serrano, o capitão Jorge Alves (FA), o alferes Barros Moura, o alferes João Teixeira e alferes Celso Cruzeiro.
[2] cap Jorge Golias, 1º tenente Bouza Serrano, cap Jorge Alves (FA), alf João Teixeira e alf Barros Moura.
[3] Mário Soares sintetizou assim a descolonização na Guiné: “Foi relativamente fácil porque houve uma forte determinação do MFA na Guiné em cumprir as Resoluções da ONU” – ISCTE – colóquio “Vozes da Revolução”, 16 de Abril de 2010.
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Observação de MDC.
Fotografias de Duran Clemente obtidas na cerimónia do primeiro aniversário da independência da Guiné-Bissau,em Madina do Boé,no dia 24 de Setembro já de 1974.Militares Presentes:Carlos Fabião,Hugo dos Santos ,Faria Paulino e Duran Clemente.A ultima é oferta do Ministro da Comunicação Manecas Santos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

THE SHOCK DOCTRINE

    THE SHOCK DOCTRINE por NAOMI KLEIN
    Em The Shock Doctrine, Naomi Klein explode o mito de que o mercado livre global triunfou democraticamente. A exposição do pensamento, o rastro do dinheiro e as cordas de fantoche por trás das crises de mudar o mundo e as guerras dos últimos quatro décadas, The Shock Doctrine é a emocionante história de como as políticas de "livre mercado" da América passaram a dominar o mundo-- através do exploração das pessoas e dos países a desastres chocado. Na conjuntura mais caótico na guerra civil do Iraque, uma nova lei é revelado que permitiria a Shell ea BP para reivindicar vastas reservas de petróleo do país .... Imediatamente após 11 de setembro, o governo Bush silenciosamente-fontes do funcionamento da "Guerra ao Terror" a Halliburton e Blackwater .... Depois de um tsunami apaga as costas do sudeste da Ásia, as praias imaculadas são leiloados para estâncias turísticas .... moradores de Nova Orleans, espalhados desde o furacão Katrina, descobrem que as suas habitações públicas, hospitais e escolas nunca será reaberto .... Estes eventos são exemplos de "a doutrina de choque": usando desorientação do público seguinte enormes choques coletivas - guerras, ataques terroristas ou catástrofes naturais - para conseguir o controle através da imposição de terapia de choque econômico. Às vezes, quando os dois primeiros choques não conseguem aniquilar a resistência, um terceiro choque é empregado: o eletrodo na cela de prisão ou a arma Taser nas ruas. Com base na pesquisa histórica descoberta e quatro anos de on-the-ground relatórios em zonas de desastre, The Shock Doctrine vividamente mostra como o capitalismo de desastre - o rápido-fogo de reengenharia empresarial das sociedades que ainda se recupera de choque - não começou com 11 de setembro de 2001. O livro traça as suas origens de volta cinquenta anos, para a Universidade de Chicago sob Milton Friedman, que produziu muitos dos principais pensadores neo-conservadores e neoliberais cuja influência ainda é profundo em Washington hoje. Novas conexões, surpreendentes são desenhadas entre a política económica, "choque e pavor" guerra e secretas experiências CIA-financiados em eletrochoque e privação sensorial na década de 1950, a pesquisa que ajudou a escrever os manuais de tortura utilizados hoje em Guantanamo Bay. A Doutrina do Choque segue a aplicação dessas idéias através da nossa história contemporânea, mostrando em detalhe fascinante como os eventos do passado recente well-known foram deliberadas, teatros ativos para a doutrina de choque, entre eles: golpe de Pinochet no Chile em 1973, a Guerra das Malvinas, em 1982, o Tiananmen Massacre da Praça em 1989, o colapso da União Soviética, em 1991, a crise financeira asiática em 1997 e do furacão Mitch em 1998. Edições Internacionais (tradução não muito cuidada)
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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Resultados da CDU- Eleições legislativas 2015

Resultados da CDU.
Pelas maldades feitas ao povo trabalhador e ao país,destacando as feitas na Saúde,na Educação,na Segurança Social,no roubo aos idosos,na precarização das gentes,na venda do património,na expulsão dos licenciados e trabalhadores para o estrangeiro... durante todos estes anos e particularmente nos últimos quatro, eu não fico contente que a CDU apenas tenha este nº de votos(e deputados na AR) e que apenas se tenha obtido mais um...e se tenha sido ultrapassado (e se fique muito contente), mas enfim eu sei que sou criticado por querer mais e melhor e achar que alguma auto critica devia existir sobre procedimentos ,não sobre a genuína política do PCP que sempre foi pela liberdade,igualdade e dignidade dos cidadãos. .Para mim não há uma vitória ...desculpem lá...há que melhorar procedimentos e analisar o que não tem estado bem....independentemente dos inimigos e das resistências instaladas e anti-comunistas desde a ditadura e não removidas nestes 41 anos.Não me podem levar a mal sentir isto mas já tive um idiota dum camarada funcionário e responsável a ofender-me!MDC


... eu fui claro ao frisar que a genuína politica do PCP não podia ser traída.Isso para mim é claro.Mas há procedimentos e mensagens que devem ter outro conteúdo e outros destinatários.De resto sabemos bem onde estamos de acordo e quais as dificuldades provocadas por 48 anos de obscurantismo,anti-comunismo primário,o 25 de Novembro e 41 anos de iliteracia politica .MDC


NOTA IMPORTANTE

ESTE ESCRITO É ANTERIOR ÀS ACTUAIS DECISÕES DO PCP EM COLABORAR NUMA PLATAFORMA QUE CORRA COM OS GOVERNOS DE PASSOS COELHO.