segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Guerra Colonial A operação "nó górdio"do século vinte e um!

Simplesmente GUERRA!
A operação "nó górdio"do século vinte e um!
apontamento sobre os "prós" dos "contra" a Liberdade,
ou como se vive uma época de mistificação e manipulação!
Não é o facto de ter caído numa armadilha, ao ter aceite o convite para estar presente, no último programa da RTP "prós e contras" que me obriga a este apontamento. É um desabafo e uma preocupação, sobre como no mundo de hoje é fácil para alguns mentir e branquear e para outros dialogar, apresentar elementos históricos provados e até poderem explicar com serenidade as causas da distorção, do erro, do engano ou maldade alheia.
O desabafo:
O formato e condução do programa não são sérios. Não vale a pena o eufemismo de referir isenção ou neutralidade, porque há muito esses princípios andam arredados de muito jornalismo escrito, falado ou televisionado!
Quem viu o programa, em causa, do passado dia 15 de Outubro terá constatado o favoritismo escandaloso entre, não só, o número dos escolhidos ou convidados "pró-guerra" e os de opinião contrária, como o tempo de antena dado a uns e o retirado (ou não dado a outros) pela moderadora (!?).
É preciso ter nervos de aço ou ser profissional da manipulação (ignorante) para não se ficar perturbado ao ouvir tanta distorção histórica, por parte de intervenientes zangados com o 25 de Abril e até ouvir um Embaixador, como o da Guiné-Bissau"reduzir o massacre das docas de Pidjiguiti (em Junho de 1959) em Bissau a uma mera reivindicação laboral. Não sabia que um dos principais activistas tinha sido Carlos Correia (mais tarde Ministro das Finanças e Primeiro Ministro), então trabalhador da Casa Gouveia (...não é nome que esqueça a um guineense com estas responsabilidades...) e ainda fui eu que (sentado próximo do Sr. Embaixador) tive de lhe servir de "muleta", ao sussurrar-lhe o nome desse "homem grande" e activista dessa greve, pessoa humilde, íntegra e patriota com quem tive o gosto de trabalhar e conviver durante dez anos de Cooperação em Bissau (desde o final dos anos 70 até ao dos anos 80).
Quem é que escolheu esta personagem? Este Sr. Embaixador que não sabe que Pidjiguiti representa mais de 50 mortos, de uma centena de feridos, dos sobreviventes deportados para S. Tomé, e que um mês e meio após este acontecimento ("apenas laboral" no dizer do Sr. representante de Bissau), já com Carlos Correia (e outros que conseguiram fugir) e juntar-se aos nacionalistas, comandados por Amílcar Cabral, a Direcção do PAIGC (ainda só P.A.I., ou seja, Partido Africano para Independência) abandonou a «acção política e social» e declarou -se a favor da luta conta o colonialismo português «por todos os meios possíveis incluindo o da luta armada» .Lê-se em declarações de Amílcar Cabral «a luta armada era a única resposta à força das armas e a acção não deveria ser desencadeada nas cidades... mas antes privilegiar a força camponesa». E foi o que aconteceu com escolas de formação, para quadros políticos, instaladas junto da Direcção política, no vizinho país, em Conakry.
«O ensino militar que vocês receberam, as armas que os colonialistas vos deram para matar a nossa gente, o material de guerra e as munições que estão em quartéis à vossa guarda. Tudo isso pode ser posto ao serviço da luta de libertação dos nossos povos. Estamos seguros de que é o que vocês vão fazer, com prudência, com cuidado e inteligência...» mensagem de Amílcar Cabral, em Outubro de 1960. Com o pseudónimo de Abel Djassi.
Numa outra mensagem aos colonos portugueses, Cabral avisa, «...o colonialismo português tem os dias contados e vós sabeis isso muito bem. Não deveis consentir, como homens conscientes, no absurdo de amarrar o vosso destino ao destino do colonialismo português....»
Ainda em 15 de Novembro o P.A.I. dirige-se ao governo português num memorando: «a via pela qual vai ser feita a liquidação total do colonialismo português... depende exclusivamente do governo português. (...) Ainda não é tarde para proceder à liquidação pacífica da dominação colonial portuguesa nas nossas terras. A menos que o governo português queira arrastar o povo de Portugal para o desastre de uma guerra colonial».
Não adivinhava Amílcar Cabral que esta característica de negociador (verdadeira ou insinuada) lhe iria ser fatal. Da facção militar guerrilheira, mais ortodoxa, sedenta de Poder, iria sair o plano para o matar em Janeiro de 1973, instigados ou não pelo boato, lançado pelas hostes spinolistas, de que ele, A. Cabral e Aristides Menezes, queriam ou teriam querido negociar.
A preocupação
Acrescento uma preocupação sobre os episódios que estão a passar, na RTP 1, sobre a Guerra (do Ultramar, Colonial ou de Libertação... ai.... a semântica e a dificuldade de passados 33 anos ainda haver quem tenha medo de chamar "os bois pelos nomes!!!")
Espero que a frase do Joaquim Furtado, que tenho como um profissional sério e íntegro, (na apresentação da síntese dos nove primeiros episódios, a que alguns de nós assistimos na própria RTP, na tarde de 15 próximo passado." ...de ter procurado, na realização dos filmes, não ferir susceptibilidades..." não resvale, no receio de magoar os responsáveis (quer da altura quer os seus correligionários actuais) exactamente aqueles que nos atiraram para aquela desgraça de treze (ou mais anos) e que ainda tentem "desonrar" o nosso 25 de Abril...como lastimavelmente esteve à beira de acontecer no famigerado programa dos "Prós e Contras" da passada segunda-feira, com a convergência dos factores já descritos no meu desabafo.
Entre os dislates ouvidos de saudosistas e conservadores ignorantes, destaco um que nos diz especial respeito. Alguém pretendeu pôr em causa a honorabilidade do nosso 25 de Abril, procurando apagar as suas verdadeiras razões para justificar a sua argumentação "revanchista" e falsa, com o argumento, de que só se fez o 25 de Abril por uma questão corporativa, por causa do Decreto-Lei 353/73...
Ora... Quantos de nós, já antes do decreto, havíamos começado a sentir a necessidade de acabar com a impostura???
Lembro-me do desabafo, já em Nacala — Moçambique (1970) — no navio Niassa, quando cerca de dez capitães, que eu já tinha visto passar por Nampula, acabados os mais de dois anos de guerra colonial, preparados para regressar a Lisboa, são forçados a interromper tal esperança e chamados (por Kaúlza) a regressar "ao mato" para integrarem a Operação "Nó Górdio"... perante o meu espanto, exclamaram: TEMOS DE ACABAR COM ISTO, ANDAM A GOZAR CONNOSCO...!!!
Lembro-me dos capitães que a partir de 1965, e particularmente após Maio de 1968, começam a informar-se mais e a dialogar melhor com a sociedade civil e com os alferes milicianos, enquadrando nas suas consciências as contradições do Regime, das revoltas abafadas desde 1927 até 1961, Chaves, Porto, Lisboa, Madeira, Beja. Das personagens Norton de Matos, Sousa Dias, H. Delgado, H. Galvão, e tantos outros.... Da efectiva mentira e da ficção do Grande Império (perdido a partir de 1580, mais perdido ainda depois de 1820 (Brasil), praticamente nas mãos da estratégia dos Ingleses, já desde 1640 - como paga da aliança primeiro contra Castelhanos e depois contra Franceses – e mais acentuadamente, a partir do século dezanove, proibindo o "mapa cor-de-rosa" e escoando e coordenando a exploração dos minerais, café, chocolate, chá... algodão, tabaco... portos e caminhos-de-ferro... etc. ... deixando "umas sobras para português ver" a algumas famílias nacionais, tudo isto com a benevolência dos nossos Ministros da Colónias e outras dignas altas esferas). Lembram-se que em Moçambique até o trânsito se fazia pela faixa esquerda como no Reino Unido???
Império sem gente, sem poder, sem motivação desenvolvimentista, sem meios materiais e sequer bélicos!!! É o que se encontra no princípio do século vinte, antes das ditas "guerras da pacificação" (1920/1930).
Timor -Leste, pouca gente se lembra, esteve nas mãos do Japão e da Austrália, mais de quatro anos de 1941 a 1945.
Pouco ou nada muda até o pós Segunda Grande Guerra.
As fronteiras das colónias são então demarcadas. A Casamança, dita portuguesa, na Guiné, passa para o Senegal, é trocada por uma parcela de pedras, a Leste, perto de Konakry, por despacho dum alto dirigente português a troco dum bairro em Paris.
Os países coloniais começam a resolver politicamente as inevitáveis descolonizações.
As "nossas" parcelas da Índia são defendidas com "chouriços" e não fora o bom senso de Vassalo e Silva teria havido um massacre inenarrável. Efectivamente, nem armas havia e quando alguns caixotes são abertos, felizmente são mesmo chouriços e outros produtos congéneres que se encontram. Conta quem lá esteve.
A Guiné estava na mão da CUF (Casa Gouveia) e o seu povo na miséria continuava. As riquezas exploradas, mancarra, arroz e cajú não davam para fazer escolas, hospitais, estradas, etc.. O desenvolvimento era nulo. (Estive lá, antes e depois da Independência)
Cabo-Verde tinha metade da população emigrante! (igualmente conheci, antes e depois da Independência)
S. Tomé e Príncipe vivia de "escravos" que alimentavam as roças dos senhores. Sendo das terras mais bonitas que já alguma vez conheci (estive lá em 1962) nem sequer as riquezas do café ao cacau e frutas serviram para desenvolver. E o turismo tinha a desculpa do paludismo e do clima equatorial.!!!! Leia-se o livro o Equador de M. S. Tavares e já entenderão porque é bom não esquecer os nosso velhos "aliados ingleses" e um pouco do que era a realidade, agora ficcionada pelos saudosistas.
Era este o Império onde em Angola (14 vezes maior que Portugal) em 1960 havia 1.500 militares portugueses e cerca de 5.000 africanos integrados. Onde o desenvolvimento à semelhança de Moçambique (nunca sustentado nem coerente com as potencialidades naturais) começou a dinamizar-se com o início da Guerra Colonial. Era precisa autorização do Terreiro do Paço para tudo e para nada, com medo da independência Branca e Unilateral. Também conheci estas duas colónias antes e depois das suas Independências. Até para uma "barragem agrícola" era preciso licença de Lisboa... Assisti a isso.
Os capitães, da geração do 25 de Abril, foram sabendo isto e muito mais, nas três frentes de combate. As grandes potências tinham ou estavam a perder as guerras semelhantes (Indochina, Argélia, Vietname) e a célebre APSIC (acção psicológica) colocou o capitão muito próximo do então "terrorista". Na quadrícula, o capitão não era só chefe militar no terreno, era uma personagem com um vasto leque de missões de carácter civil. Nesse entrosamento apreendeu e aprendeu que o verdadeiro inimigo estava no Terreiro do Paço. Viu de perto, durante excessivo tempo, o que certos saudosistas, já não inebriados "com a cruz e a espada contra o sarraceno" não quiseram ver porque não arrancaram a armadura vestida nos quartéis (antigos conventos) e talhada com atributos "moralizadores, pedagógicos e cívicos" para o cumprimento de missões transcendentes, defender uma legalidade constitucional e garantir a independência da Nação, una e indivisível. Isso substituiu o que se perdeu de "teológico" (a cruz e a espada). Há que compreender que o "velho" militar, que tal assimilou, dificilmente possa desconstruir em si esta assimilação, sentimento, dinâmica ou vulgo "lavagem ao cérebro". A culpa não terá sido sua mas do sistema. Quase me arriscava a solicitar a condescendência.
Lembro-me de capitães e primeiros-tenentes que encontrei no Congresso do MDP/CDE em Aveiro, em Março de 1973, e dos que já antes se interrogavam, na hipótese de acção, mesmo em 1969.
Lembro-me de ter chegado a Bissau, por castigo, e de ter começado, no dia seguinte, com outros capitães, a conspirar, sem saber da existência de Decreto nenhum. Não vou negar hoje que a saída deste célebre 353/73 nos deu jeito, mas como é que ele era corporativo se só dizia respeito às Armas de Infantaria, Cavalaria e Artilharia? Foram só os capitães destas que se revoltaram? Claro que não.
Desde logo se solidarizaram outros capitães e equivalentes de outros Ramos da FFAAs. Capitães de Engenharia, Administração, Transmissões, Saúde, Material, etc... e da Marinha e Força Aérea, no sentido de em conjunto se aprofundar o que estava em causa.
E o que estava em causa?
Uma Guerra perdida politicamente, porque os políticos não estavam nem com os ventos da História nem com o povo (e deste nós, os militares de carreira, com duas, três ou mais comissões, fora do ar condicionado, cansados da mentira e da hipocrisia... e bem assim os conscritos desmotivados e acomodados).
Enfim muito para dizer e que já é repetição. Mas as novas gerações merecem a Verdade.
Citando Alexis de Tocqville convém não esquecer que "as revoluções que triunfam fazem desaparecer as causas que as produziram e tornam-se por isso incompreensíveis para as novas gerações".
Isto para dizer que se assim for e se os episódios de Joaquim Furtado se remeterem apenas ao seu profissionalismo de contar uma «história» sem o devido enquadramento Histórico, ou seja, se estiver em perigo essa Verdade e ousar-se o branqueamento do trágico erro Histórico que foi a Guerra Colonial e da ficção do Grande Império, julgo que a A25A não pode ficar calada.
É uma especulação académica, um exercício de estilo, discutir se foi Guerra do Ultramar, Guerra Colonial ou Guerra da Libertação.
Para mim, foi guerra Colonial. Mas o mais importante é que foi uma guerra ordenada e mantida por um governo retrógrado, liderada por um chefe rural e retrógrado que tão mal fez a Portugal... cujos efeitos nefastos ainda hoje se sentem.
Os povos em confronto ganharam a guerra da Liberdade... mas ainda não ganhámos (lá e cá) a Guerra da Igualdade e da Fraternidade.
É aí que está um verdadeiro "NÓ GÓRDIO do século XXI.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

INTERVENÇÃO NA RTP em 25 de NOVEMBRO DE 1975 no telejornal (interrompida)


INTERVENÇÃO NA RTP em 25 de NOVEMBRO DE 1975 
(1.-O texto é uma recolha dos autos do tribunal e correspondem, mais ou menos, ao improviso feito pelo Cap. Duran Clemente entre as 20h30 e as 20h49 daquele dia no Telejornal .
2.-Durante a tarde deste dia, às 15H00, forças militares da Escola Prática de Administração Militar, coordenadas pelo Cap. Duran Clemente, então 2º Comandante daquela unidade, facultam o acesso aos “ecrans” a uma comissão de Para-quedistas, do Regimento de Tancos, com a intenção de esta explicar a razão da sua operação efectuada na noite anterior na Região Centro, considerada apenas de tomada de posição contra o seu Chefe do Estado Maior.)


1.     A.   Improviso dito no Telejornal:


“Infelizmente a RTP não está a ser ouvida em todo o país. Isto acontece porque o emissor da Lousã já está a servir os estúdios do Porto. Há um corte feito por via administrativa e determinado não sei bem por quem!

Relativamente à antena de Monsanto ( Lisboa ) tivemos noticias de que haveria movimentações dos Comandos ( de Jaime Neves ) para, no local, ela ser desligada e na sequência ser interrompida a emissão destes estúdios.

Aqui ( nos estúdios da RTP/Lumiar ) a situação é calma e as forças militares estão perfeitamente dispostas a defender aquilo que é de todos nós, sobretudo do povo trabalhador!

Contrariamente a determinadas insinuações e calúnias, é evidente que não pretendemos a desordem, não pretendemos a falta de autoridade, não pretendemos a indisciplina…nada disso!

Pretender uma sociedade socialista não é querer a sociedade da “tanga” ou uma sociedade de austeridade inconfortável ou da anti-cultura ou de tudo quanto se difunde pejorativamente…

Isso é um completo disparate, propalado por forças de direita (por forças da reacção), com o intuito de impressionar os portugueses… Mais uma vez especular e explorar a falta de consciência política. Enfim, aproveitar o obscurantismo de tantos anos…  de tantos anos em que o fascismo manipulou o povo português.

Temos de acabar, de uma vez para sempre, com estas especulações; com esta outra face da exploração, que é mais uma forma de repressão do povo trabalhador português.

Nós queremos, de facto, a ordem democrática, a disciplina consentida, uma disciplina revolucionária, uma autoridade não-repressiva.

Queremos sobretudo que as novas estruturas, que as transformações neste processo, sejam criadas sob o ponto de vista dos explorados, sob o ponto de vista dos trabalhadores… isto é, sob o ponto de vista duma maioria que são efectivamente os desfavorecidos face a uma minoria que são (ou têm sido) os exploradores, seus intermediários ou seus lacaios.

É importante que as pessoas tenham consciência disso!

Queremos também que não haja mais ambiguidades neste processo. Que se clarifique, de uma vez para sempre, o MFA ( um MFA que tem sido ambíguo ), um MFA cheio de contradições… através das quais se tem afastado cada vez mais das metas a que se propôs.

Não é recuando…

É não ter perspectiva histórica, não ter uma perspectiva revolucionária. Não podemos continuar a recuar para atingir o objectivo de uma sociedade socialista.

O que nós vemos é que ainda há estruturas… ainda há organismos onde existem reaccionários muitas vezes até sem querer sê-lo, sem consciência disso, mas que objectivamente o são. Pessoas que por estarem em determinado lugar através da sua acção: através dos papeis, através das burocracias boicotam muitas vezes até o que já foi decretado pelo Governo.

Nós sabemos que muitas das pessoas, muitos dos pequenos e médios agricultores, muitos dos pequenos e médios comerciantes têm sido postos contra o processo revolucionário português. É preciso ter a perspectiva de que não são os erros das forças progressistas que põem as pessoas contra o processo.

Quem o faz é a acção da “reacção”: é a direcção internacional capitalista. Esquecemo-nos que ela existe? Existe e actua… e aproveita-se, neste País, da ingenuidade, da falta de consciência de muitos de nós e, sobretudo, dos problemas e das alienações, dos vícios e das mentalidades dos próprios militares e, até dalguns dos oficiais do MFA, quando constituídos como sua vanguarda: a das Forças Armadas.

O MFA não era mais do que uma vanguarda das Forças Armadas contendo oficiais com determinado grau de consciencialização politica… mas muitos outros não tinham qualquer consciencialização política.

No 25 de Abril o MFA tinha oficiais que sabiam o que era o Socialismo ou a Democracia, mas tinha, muitos que não sabiam o que isso significaria…. Por isso, posso dizer, alguns atingiram o seu “princípio de Peter”, como se costuma dizer, isto é, atingiram o seu limite de competência revolucionária.

Isto não pode ser!

Para bem do povo português, para que efectivamente o processo revolucionário prossiga, há necessidade que as coisas se clarifiquem e que aqueles ( sobretudo os oficiais ) que não são capazes, se atingiram o tal limite ( essa competência )… têm que se afastar dele…

E não podemos permitir que seja nos gabinetes, que seja pela via administrativa………”

( … um técnico da RTP: começa a fazer sinais do lado das câmaras… ) (1)

“Estão-me a fazer sinais, eu não sei se posso continuar… (… dirigindo-se ao locutor, ao pivot” António dos Santos…) … não posso continuar a falar por razões técnicas é isso!?! Não posso?!? Não posso continuar a falar por razões técnicas? Então continuo daqui a pouco, não poderá ser?! Estava aqui a ser … a minha intervenção estava a ser  perturbada pelos sinais dos técnicos… acho que devemos explicar às pessoas com naturalidade… não é verdade?”

(… locutor/pivot, António Santos: - Perturbar no sentido de elucidação!... )

“Tecnicamente eu não posso continuar a falar. Continuaria porque gostava de desenvolver este tema. Até para explicar melhor qual é a nossa posição e o que nos trouxe aqui. Está certo?”

(…António Santos: - Não sei, não sei, realmente qual é o pormenor que neste momento pode limitar ou não…)

[A emissão é transferida para os estúdios do Porto através da actuação técnica a partir da antena de Monsanto ( Lisboa ) já sob o controlo dos Comandos, após ter sido capturado o colaborador da RTP que possuía a “chave técnica” para a operação.]

Observações:

(1)                - Este colaborador da RTP que estava de serviço na antena, em Monsanto, contactou um colega dos estúdios do Lumiar, solicitando-lhe para avisar o Capitão Duran Clemente de que não conseguia manter-se escondido por muito mais tempo e que a emissão iria ser transferida para o Porto logo o apanhassem. É esse o significado dos sinais, feitos do lado das câmaras (que filmavam) que levam à perturbação da intervenção supra descrita.

(2)                - Aliás em comunicado feito na RTP muito antes do Telejornal, Duran Clemente havia dito ,mais do que um vez:

            “ Queria também esclarecer o Povo português, que está preocupado ao ouvir-     nos, que nós, aqui no Lumiar, estamos perfeitamente bem. É provável que nos silenciem a antena, a partir de Monsanto. Não sabemos o que se passa…. Se, efectivamente, deixarmos de estar nos “ecrans”, é porque a antena ( em Monsanto) foi neutralizada.

Não se trata de neutralização(ou prisão) do pessoal que está aqui nos estúdios no Lumiar. Quem aqui está pretendia apenas que a voz dos trabalhadores não fosse silenciada.


Apelo para a serenidade, para a vigilância revolucionária, inteligente e serena de todos os trabalhadores. Unidos venceremos!. “

Cap. Duran Clemente                                         25 de Novembro de 1975


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B.-Um pouco de história (uma síntese) contada hoje


Os capitães para “fazerem” o 25 de Abril tiveram que se organizar. Uma das bases dessa capacidade foi a estreita unidade conseguida em torno dum objectivo, com duas razões:

  * acabar com a Guerra Colonial
  * libertar o país da Ditadura:

Uns, mais pela primeira das razões e outros, pela segunda que implicava a concretização da primeira.
Essa tarefa de agregação de esforços e de vontades, entre os militares, começou a tomar forma mais consistente em meados do ano de 1973,depois do Congresso do MDP/CDE em Abril (Aveiro) e sobretudo depois da contestação “dos futuros capitães do MFA” ao Congresso dos Combatentes em Junho (Porto) e à publicação do célebre Decreto-Lei nº353/73.

Os núcleos dinamizadores desta contestação formaram-se com especial significado na Guiné-Bissau e em Portugal, espalhando-se imediatamente por Angola e Moçambique. Como os militares acabavam as suas missões nas colónias e outros partiam para elas, o intercâmbio entre este movimento, cedo se tornou uma realidade séria e no final de 1973 estavam os capitães decididos a derrubar o sistema, a ditadura!
Não sem que muitas peripécias tivessem acontecido, até se chegar ao dia da Liberdade, mas foram controladas e neutralizadas ou asfixiadas pela organização e unidade do MFA. Sobre isso está quase tudo escrito. Quase…!

Alguns dos sobressaltos havidos antes do 25 de Abril de 1974, curiosamente, já eram um indicativo do que haveria de vir a acontecer entre o 25 da Abril (74) e o 25 de Novembro (75), muito em particular no que concerne à tão falada e propalada (e verdadeira) divisão entre os militares…!

Spínola já fazia avançar os seus homens…para travar os objectivos mais amplos do MFA. Otelo (que começou a conspiração comigo e outros [Salgueiro Maia, por ex.], em Bissau) já denunciava algumas das suas características, e entre os futuros “ MeloAntunistas” e “Gonçalvistas “ era nítida a influência de posições ou simpatias ideológicas, do tipo confronto MDP/CDE(PCP) e CEUD(PS).Duas correntes que conseguiriam estar unidas em questões essenciais…até 28 de Setembro mas cujo percurso comum iria  acabar…e acabou quando, no ultimo trimestre de 1974, resolvida a estratégia Politica (democratização e descolonização) se teve de acertar o passo na estratégica Económica (desenvolvimento)…. E não se conseguiu.

Agudizou-se com a reprovação do Plano Económico Melo Antunes/SEDES…em Fevereiro de 1975 e veio a ser mais contundente com a provocação da “Spinolada” do 11 de Março…que permite aos Gonçalvistas e forças politicas aderentes (mas também aos mais radicais, Otelistas e outros) tentar avançar com os seus projectos de cariz muito mais revolucionário. Nasce o Conselho da Revolução, avançam nacionalizações de sectores fulcrais, a tentativa de uma reforma agrária a sul do país e tenta-se que um projecto inovador, de cariz sócio/politico, tenha pernas para andar.  

Com as eleições para a Constituinte…em que o MFA, com alguma ingenuidade, se faz promotor do SOCIALISMO…(ver cartazes da época) veio a vitória nas urnas dos socialistas, a surpresa(?) de poucos votos para os comunistas e de um nº significativo para os partidos da direita…(revelando um pouco a consequência do obscurantismo e dos fantasmas de meio século de ditadura e de forte influência do clero e de caciques regionais) .
Mas a Democracia representativa é isto mesmo…!!!
Só que a esta democracia respondiam outros ânimos que consideravam (mal ou bem) não dever perder, nos actos burocráticos e formais, aquilo que “as portas de Abril” lhe tinham aberto.

Respirava-se, sentia-se… que os poderosos, que haviam perdido privilégios, se organizavam para os recuperar…e tudo iriam fazer, com justificações habilidosas (entre as quais o papão do comunismo e da guerra civil)…e tudo fizeram para colocar os militares do MFA à zaragata, uns contra os outros, não sem a forte colaboração dos militares(quarta corrente) os “spínolistas” e os que tinham estado de fora da conspiração e da acção libertadora.

Todo o chamado Verão quente é incendiado por acentuada dissidência entre os que queriam reformas profundas no sistema e os que se contentavam com uma leve brisa de revolução…
Uns entenderiam que as organizações de base populares, em são convívio com os partidos e uma disciplina militar consentida, poderiam ser os pilares da arquitectura dum sistema político-social outros satisfaziam-se com  os modelos tradicionais duma Europa…mais rica e preparada.

Em paralelo aos avanços revolucionários dos governos de V.Gonçalves caminhavam os militares “ditos moderados” e a eles se juntaram todas as forças políticas das mais conservadoras (provocadores, extrema-direita, saudosistas, etc.) às mais de centro-esquerda …(onde caberiam muitas e diversas tendências com graus de consciencialização política díspares).

A partir do momento que se permite que a direita e os saudosistas do passado cavalguem a seu belo prazer e [ com apoio directo e/ou indirecto dos militares “ditos moderados”(onde já cabe tudo)] iniciem uma “cruzada” contra os partidos mais à esquerda paradoxalmente também começam (os mesmos/a direita) a propalar a iminência dum golpe de esquerda…(a criação duma comuna de Lisboa,etc.etc.!!!)…

Tal ideia parece não ter sentido, mas tem!
Estava criada a justificação para se preparar exactamente o golpe contrário. Chamar-se-ia um golpe de defesa para rechaçar o outro. E tudo se preparou.

Basta ler o livro editado em 1976 pelo Comandante Gomes Mota A Resistência/Verão Quente”.Este conta todos os pormenores. E nos anos mais tarde Melo Antunes, Jaime Neves, Ramalho Eanes e mais recentemente Vasco Lourenço e Sousa e Castro não se coíbem de narrar pormenores.

Vasco Lourenço (V.L.) afirma que (os preparadores do golpe defensivo) não tem outros objectivos se não os de conseguir que a Assembleia Constituinte culmine os seus trabalhos. Que os objectivos divulgados de:
- afastar Fabião e Otelo, controlar o SDCI(Serviço de Detecção e Controlo de Informação) ,criar o AMI(Agrupamento Militar de Intervenção/órgão superior ao COPCON),destruir a 5ªDivisãoEMGFA,alterar a politica com o MPLA, controlar a comunicação social, resolver os casos Republica e Renascença, eram os objectivos dum plano designado “o Plano dos Coronéis”.

Mas à pergunta da entrevistadora (ver páginas 501 e 502 do seu livro, do “Interior da Revolução”- de Tancos ao 25 de Nov.) de quem eram os Coronéis, ele responde:” «Ramalho Eanes, Tomé Pinto, Aurélio Trindade, Loureiro dos Santos, o José Pimentel e todos os que se vêm a envolver no 25 de Novembro, que estavam no grupo Militar.” …. “as pessoas eram as mesmas. Porque diz então que não eram o mesmo plano?”  Retorquiu a entrevistadora.
Resposta de V.L.:«Pela nuance que já lhe referi. No 25 de Novembro, não assumimos a iniciativa de ataque..»


Como se vê esta justificação não colhe…

E quem dá o pretexto para que este golpe se efectue : seria a saída dos Páraquedistas de Tancoos? É de facto.


Mas é também isso que os páraquedistas tentam explicar na RTP no dia 25 de Novembro, à tarde, quando me pedem para lhes facultar o acesso à RTP em Lisboa.

Para eles era uma mera reivindicação e manifestação contra o seu CEMA, Chefe do Estado Maior da Força Aéra, General Morais Silva e que aliás é explicada no comunicado que emitiram a 27 de Novembro em Tancos!

Quem os faz sair ???
Numa entrevista, há dez anos, ao Público V.L. diz que Otelo lhe confessou ter sido ele. Mas mais tarde nega.

Mas esta é uma falsa questão.
A questão é que a esquerda não tinha em preparação qualquer golpe. Mas ao invés o outro lado tem.

A questão é que os poderosos de então ( da mesma família dos poderosos de hoje)tiveram o braço amigo de uns quantos imprudentes e de todas as forças reaccionárias  nacionais e internacionais; tudo fizeram para travar a genuína REVOLUÇÂO PORTUGUESA e iniciaram um processo que podia estar para o 25 de Abril como o 28 de Maio de 1926 esteve para a 1ª República…e só não foi assim porque os tempos e as circunstâncias  eram  muito diferentes.E ainda porque alguns militares se deram conta dos perigos que eles próprios corriam…e conseguiram travar fortes ímpetos de vingança. É disso paradigmática a intervenção  de Melo Antunes e a acção de militares do MFA do grupo moderado: Vasco Lourenço, Pezarat Correia, Pinto Soares, Victor Alves, Mário Crespo, Franco Charais e outros.

E não foi isso, também, porque as forças progressistas não desistiram nem desistem e têm lutado com todas as suas forças e os meios disponíveis…apesar da insistência com que o sistema capitalista selvagem e predador, com as suas manhas e capacidades, tenta abafar e liquidar a nossa liberdade ,matar o nosso 25 de Abril…que teremos de abnegadamente fazer e reconquistar dia a dia!!!

Há vitórias, há derrotas…nas batalhas…uma guerra ganha-se lutando…



Manuel Duran Clemente                                        25 de Novembro de 2011



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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O 25 de Novembro (4) Antecedentes próximos:

O 25 de Novembro (4)
Antecedentes próximos:

 1. Há uma agudização do ataque do “grupo dos nove” à esquerda militar muito acentuada após a falsa Assembleia do MFA de Tancos em Setembro, onde foi destituído V.Gonçalves e onde Pinheiro de Azevedo, até aí com atitudes mais esquerdistas que os “gonçalvistas”, que se passa, com boa dose de oportunismo, para o lado dos “nove” e é nomeado PM.A esquerda militar resolve então criar forma de suster um ataque da direita uma vez que tudo apontava nesse sentido. Por outro lado sabendo da instabilidade de Otelo e que este poderá cair nalguma precipitação, que dê aso à reacção dos “nove”, consegue a nomeação dum Vice-Chefe do Estado Maior do Copcon, um militar mais moderado, o Tenente -Coronel Arnao Metelo. Pelo PS e pelo grupo dos nove e alguns militares esteve em marcha um golpe de estado com deslocação dos poderes para o Porto. Tal estava previsto para antes do 11 de Novembro, data da Independência de Angola, daí a esquerda militar apenas se limitar a preparar-se defensivamente. Essa defesa é aproveitada para em 25 de Novembro ser considerado o seu golpe e a justificação que os nove esperavam. Na realidade é que, da esquerda, não havia nenhum plano de ataque, nem nenhum chefe operacional, nem nada do que acabou por vir a lume após o dia 25. José Gomes Mota volta a explicar no seu livro “A Resistência” quem estava a elaborar um plano de ataque comandado por Ramalho Eanes. O plano dos Coronéis contra os capitães mais genuínos do 25 de Abril. Juntaram-se provocações com cortes de estrada, em Rio Maior, principalmente estimulados pela CAP (Confederação dos Agricultores Portugueses)

  2. Outras provocações para irritar a esquerda são muitas, tais como o vandalismo civil no Verão quente do MDLP em resposta aos ingénuos actos indisciplinares dos SUV, a destruição à bomba do emissor do RR,etc.etc. Delas destacam-se.
Contra a vontade de Costa Gomes, Pinheiro de Azevedo auto proclama suspenso o seu governo ( VI gov.) de forma patética e teatral. Isto vem a acontecer a 20 de Novembro e a decisão além de agradar aos nove e à direita tem a característica de se apoiada por James C.Lowenstein, adjunto de Kissinger nos EUA.
Como estas tentativas(e já falaremos do Regimento de Pára-quedistas de Tancos)  não resultaram “os nove” e seus aliados tentam a sua última cartada: a destituição de Otelo de comandante da RML e sua substituição por V.Lourenço e bem assim exigida pelo PM a demissão de Fabião de CEME.
A agudização da conjuntura continuou a acentuar-se com pormenores que não cabem nestes comentários.

3.Os Pára quedistas-Regimento de Tancos e não só.

Após ter sido ordenada a dinamitagem da RR os pára-quedistas não gostaram de ter sido mais uma vez instrumentalizados a quase totalidade repudiou (em 8 de Novembro) o acto e quiseram ficar sob as ordens do Copcon. Não aceitavam virar as armas contra a população e ir no engano de outros “11 de Março”. Após várias peripécias à volta do descontentamento dos pára-quedistas,123 oficiais abandonaram a Base numa manobra encetada por Morais Silva e os “nove”.Para estes já não se trataria de um acto de indisciplina.Esta só era provocada se “o sujeito” fosse de esquerda.Então O CEMFA dá o golpe de mestre.Em 19 de Novembro faz passar a licença registada (demissão) cerca de dois mil e quinhentos pára-quedistas.Na prática extingue a BETP (A Base Especial de Topas Pára-quedistas de Tancos.) Os sargentos e soldados reagiram ,sublevaram-se e declaram não obedecer à hierarquia.

A reacção destes efectuada na noite de 24 para 25 de Novembro é o golpe do 25 de Novembro para o grupo dos nove e para a direita.

Nota:Durante este período as populações chegaram a levar comida aos pára-quedistas e estes viram os seus vencimentos abatidos.

MDC 

https://youtu.be/tMmqaFR2iVE