sábado, 26 de julho de 2014

MEDINA CARREIRA e o "SABER" PESPORRENTO

                                    

Prefácio: Este senhor é ex-aluno dos Pupilos do Exército, onde se formou em Engenharia Mecânica,tirou depois um mestrado de Direito ou coisa parecida.Foi um péssimo Ministro da Finanças.
Ficou amnésico há muitos anos relativamente às suas origens e a meu ver é um trapalhão ao serviço dos poderosos!!! 


 CARTA ABERTA AO DR. MEDINA CARREIRA

Vem V.Exa agredindo persistentemente o juízo e a paciência dos funcionários públicos e pensionistas deste massacrado País, especialmente durante as sessões semanais do programa televisivo “Olhos nos olhos”, com uma tal insistência que mais  parece ter-se já tornado numa obsessão.
Não pretendendo retirar-lhe o mérito de, desde há longo tempo, vir a chamar a atenção pública para os caminhos errados que sucessivos Governos têm vindo a seguir no descontrolo das contas públicas, principal razão por que chegámos à actual situação de descalabro nacional, não lhe reconheço, no entanto, razão seriamente fundamentada para colocar o ónus dos excessos da despesa pública quase que exclusivamente sobre os aludidos grupos sociais (funcionários públicos e pensionistas).
A sua visão do problema, assente numa mera perspectiva contabilística e não macroeconómica, peca por isso de determinadas distorções que importa denunciar e esclarecer, a bem da verdade e rigor que a delicadeza desta questão naturalmente exige.
Para já não falar dos aspectos morais relacionados com os graves erros, maus tratos, ilegalidades e incontroladas prepotências, enfim, a gestão danosa a que as contas da segurança social foram sujeitas por parte de todas as governações após a mudança de regime operada em 1974, que levaram a que alguém responsável já tenha avançado que a dívida do Estado à segurança social (vista em sentido lato) se cifraria actualmente em mais de 70 mil milhões de euros (sem que alguém por isso se tenha alguma vez sentado no banco dos réus), o facto é que, mesmo ignorando esta triste realidade nunca assumida publicamente pelos detentores do poder político, por motivos óbvios, o que mais importa agora é analisar a questão numa perspectiva isenta e objectiva e não distorcer a verdade dos factos com visões subjectivas e parcelares que só contribuem para aumentar a confusão de quem está menos informado.
E tenho de começar por desmascarar a mentira com que alguns altos responsáveis políticos e conceituados comentadores vêm confundindo o público, afirmando descaradamente que os encargos públicos com pessoal e prestações sociais representam mais de 70% (alguns até falam em 80%) da despesa total do Estado, quando eles afinal representaram, em 2013, cerca de 30% dessa mesma despesa total (deduzindo às prestações sociais concedidas as quotizações e contribuições pagas pelos trabalhadores e entidades empregadoras). A conjugação dos dados constantes do Orçamento de Estado, do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social e da PORDATA assim o provam, se forem devidamente consultados. Nunca vi o Sr. Dr. Medina Carreira desmentir essas falsas declarações, feitas com o claro objectivo político de justificar perante a opinião pública as medidas governamentais que têm sido prosseguidas no sentido de fazer incidir o grosso dos necessários cortes da despesa pública sempre sobre os mesmos grupos de cidadãos (funcionários públicos e pensionistas com normais carreiras contributivas). Trata-se, pois, de uma inqualificável trapaça política.
Mas então pergunto eu: será que os outros 70% da despesa total do Estado são de facto praticamente incompressíveis? Os chamados consumos intermédios, as subsidiações do Estado aos mais diversos agentes públicos e privados (muitos atingindo dimensões verdadeiramente escandalosas, como é o caso das PPP´s, dos contratos SWAP, das rendas excessivas no sector energético, e das inúmeras fundações, associações e observatórios cuja utilidade pública tanto tem sido posta em causa, conforme V.Exa. também tem vindo a chamar a atenção), os encargos com entidades reguladoras (que normalmente mais se preocupam com a defesa dos direitos dos grupos económicos do que com a defesa dos direitos e expectativas dos consumidores), o serviço da nossa enorme dívida pública, o aumento ocorrido nas despesas do próprio Governo como fonte priveligiada de emprego bem remunerado, os gastos com frotas automóveis para os detentores de cargos públicos absolutamente ostensivas e desproporcionadas etc., não serão passíveis de maior contenção para darem um contributo substancial ao corte dos cerca de 8 mil milhões de euros que é preciso fazer na despesa pública, caso não ocorra o desejável crescimento económico de que o País precisa?
Acresce que os cortes em despesas de pessoal e prestações sociais devem ser contabilizados nos seus efeitos em termos líquidos e não brutos, facto que, quer a Ministra das Finanças, quer V.Exa. parece terem alguma relutância em referir. Na verdade, muito mais do que acontece com cortes feitos em diversas outras despesas do Estado, quaisquer cortes em remunerações do trabalho ou prestações sociais traduzem-se sempre numa directa redução de receitas fiscais, sobretudo em IRS e IVA, que deve ser abatida ao seu valor bruto, para se avaliar correctamente o seu peso real em termos de benefício para as contas públicas. E não se contabilizam aqui, por óbvia dificulade prática de avaliação, os seus nefastos efeitos indirectos como acrescido factor recessivo da economia nacional, devido fundamentalmente à redução do consumo interno e seu consequente contributo para o aumento do desemprego.
Mas já que V.Exa. prefere ir pelo lado da comparação de despesas com receitas, afirmando repetidamente que a receita de impostos corresponde aproximadamente às despesas do Estado em pessoal e prestações sociais, o que tornaria o futuro do País insustentável, dando assim a entender às pessoas menos informadas que o Estado não dispõe de outras receitas (algumas até especificamente destinadas a cobrir tal tipo de encargos), há então que esclarecer que as receitas globais do Estado têm sido aproximadamente o dobro do montante dos impostos colectados, incluindo, entre várias outras, as próprias receitas da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações.
Assim, relativamente às prestações sociais só faz sentido colocar a questão também em termos líquidos, isto é, qual a parcela dos impostos que é necessária para cobrir o deficit dos sistemas de segurança social (SS e CGA). Ora este deficit, coberto por verbas do Orçamento do Estado, foi, em 2013, de cerca de 13.200 milões de euros , correspondendo, portanto, a 36,5 % da receita de impostos (que totalizou 36.270 milhões de euros) ou a 18.2% das receitas globais do Estado (que totalizaram 72.410 milhões de euros).
Se juntarmos as despesas de pessoal em 2013 (10.700 milhões de euros) ao deficit da segurança social, obtemos as percentagens de 65,9% da receita de impostos e de 33% das receitas globais do Estado.  
Quaisquer outras comparações que se façam nestas matérias correm pois o risco de se tornar em pura demagogia.
Por fim, importa ainda precisar o âmbito do conceito de prestações sociais e as particularidades específicas de cada uma delas, matéria em que V.Exa. não tem sido suficientemente pedagógico na missão de esclarecimento público a que se tem proposto.
A primeira observação a fazer resulta da confusão, por vezes levantada por quem pouco percebe do assunto ou tem perversas intenções, que consiste na pretendida inclusão das despesas do Estado em saúde e educação dentro do conceito de prestações sociais, o que é manifestamente errado. Este tipo de despesas, tal como as que correspondem a actividades de apoio à agricultura, às pescas, à indústria, ao comércio, à cultura, à investigação científica, ao exercício das funções de soberania (justiça, diplomacia, defesa e segurança interna), à concretização e apoios na edificação de infraestruturas e serviços públicos de reconhecido interesse comum, etc., constitui-se como uma obrigação do Estado no âmbito das suas responsabilidades constitucionais como prestador de serviços públicos, enquanto que as prestações sociais assumem sempre o carácter de compensações remuneratórias pagas pelo Estado aos cidadãos, no cumprimento de contratos com eles estabelecidos ou em outras situações previstas na lei normalmente relacionadas com apoios sociais da mais diversa natureza.
A segunda observação vai no sentido de procurar dismistificar a ideia de que as prestações sociais são uma “esmola” do Estado, cujo montante pode assumir valores descricionariamente estabelecidos consoante a necessidade de satisfação de outros encargos resultantes  das prioridades estabelecidas em função das opções políticas tomadas ao longo de cada legislatura. E aqui temos desde logo que fazer uma clara distinção entre as pensões que resultam de carreiras contributivas normais e as demais prestações sociais.
As primeiras incluem uma  componente largamente maioritária que corresponde à capitalização dos descontos para a Segurança Social ou para a Caixa Geral de Aposentações (e está por provar que assim não seja), feita, ao longo de uma vida de trabalho, pelo próprio e pelas respectivas entidades patronais (descontada a devida parcela para o subsídio de desemprego). Se o Estado retirou verbas dos respectivos fundos para outros fins alheios à sua finalidade, se levianamente perdoou dívidas de empresas à segurança social, se fez aplicações desastrosas das suas reservas, se imprudentemente nacionalizou encargos com pensões privadas utilizando as respectivas reservas para outros fins, em suma, se mal geriu e desbaratou os fundos da segurança social, e vêm agora os seus legítimos representantes defender, em estafados discursos de busca da sustentabilidade, que as pensões contributivas devem ficar pura e simplesmente dependentes da conjuntura económica e daquilo que a actual geração trabalhadora desconta, reduzidas ainda por cima de parcelas destinadas à recapitalização desses mesmos fundos que foram tão leviana e criminosamente desbaratados, então como quer V.Exa. que esta classe de pensionistas não se sinta profundamente revoltada?
Se não fosse alguma contenção até agora imposta pelo Tribunal Constitucional, os pensionistas contributivos já estariam a sofrer em pleno, no valor das suas pensões, a soma de vários efeitos penalizadores, que não podem nem devem ser-lhes especificamente imputados. A sofrer pelos desmandos da irresponsablidade e gestão danosa do Estado na segurança social, ao longo de muitos anos; a sofrer pela antecipação de reformas na função pública com a finalidade de se obter a redução das despesas de pessoal: a sofrer pela concessão de pensões vitalícias a detentores de cargos públicos com reduzidas carreiras contributivas; a sofrer pela inclusão no sistema de novos pensionistas com contribuições para fundos privados, sem que esses fundos tenham entrado no sistema; a sofrer pelos aumentos atribuídos às pensões não contributivas ou com reduzidas bases contributivas; e, finalmente, a sofrer pela carga que ainda lhes querem colocar para assegurar uma segurança adicional às novas gerações, para as quais, invertendo o discurso oficial em relação à actual geração de pensionistas, se pretende agora que na sua futura situação de pensionistas deixem de depender unicamente das gerações que se lhes seguirem.
Quanto às demais prestações sociais, isto é, as que não resultam de carreiras contributivas normais, elas correspondem afinal a compreensíveis e legítimas obrigações de solidariedade social com que o Estado se comprometeu, a fim de minimizar os efeitos de situações socialmente anómalas ou injustas tais como a extrema pobreza, a inserção social dos excluídos, as dificuldades na obtenção de emprego, as grandes deficiências físicas ou mentais, etc. Ora estas situações constituindo portanto encargos de solidariedade social de âmbito generalizado, devem então ser plenamente assumidas por toda a sociedade, proporcionalmente à sua capacidade contributiva, e não como sobrecarga a colocar maioritaria ou exclusivamente sobre quem obteve a sua reforma após uma vida de trabalho com carreira contributiva para a segurança social. A cobertura financeira deste tipo de encargos deve portanto ser feita a partir dos impostos cobrados a todos os cidadãos e não lançada injustamente só sobre uma parte deles, opção esta que infelizmente não deixa de estar na mente de quem actualmente nos governa.
Uma das táticas seguida pelo actual Governo tem sido a de “dividir para reinar”, procurando colocar determinados grupos sociais, de quem espera obter apoio para impôr determinadas medidas, contra outros grupos sociais sobre os quais pretende aplicar essas mesmas medidas. Assim, Incentiva a “guerra” entre gerações por causa das pensões; apoia o sector privado contra o sector público para que neste último lhe seja mais fácil reduzir direitos e remunerações; e abre “guerras” dentro do próprio sector público para atingir os mesmos fins. Há quem entenda que a política tem de ser assim mesmo. Acontece que V.Exa., voluntaria ou involuntariamente, tem vindo a posicionar-se, nas matérias atrás referidas, muito mais como seu aliado do que como analista objectivo, isento e construtivo, o que sinceramente lamento.
Senhor Dr. Medina Carreira:
Eu não sou dos que têm medo das contas. Quero-as é transparentes e perceptíveis, o que infelizmente nem sempre tenho visto nas suas comunicações e diálogos.
Desculpe-me o atrevimento de um conselho de alguem que é da sua geração. Não tenho a veleidade de lhe pedir que o siga, mas ao menos que o leia: procure ser mais pedagógico e menos demagógico nas suas lições televisivas. Muitos portugueses ficar-lhe-iam certamente agradecidos.
Com os meus melhores cumprimentos,

Lisboa, 25 de Julho de 2014
José Manuel Castanho Paes
Email: jose.castanho.paes@gmail.com
  


terça-feira, 8 de julho de 2014

DURAN CLEMENTE



Vasco Gonçalves. O mais insigne capitão de Abril e timoneiro da revolução

Falar de Vasco Gonçalves e das razões deste depoimento, em sua memória e na dos 40 anos de tomada de posse como o timoneiro da Revolução, é sermos fiéis à justiça e ao reconhecimento. É falar de Vasco Gonçalves, da sua acção como militar e político revolucionário, seja como - coronel - um dos mais experiente e cultos dos oficiais conspiradores, entre capitães do MFA, a partir de 5 de Dezembro de 1973, seja como primeiro chefe da 5ª Divisão do EMGFA, seja como Primeiro-ministro dos 2º,3º,4º e 5º Governos Provisórios, seja como um dos mais puros “capitães de Abril” caluniado e vilipendiado. É reflectir também sobre uma vertente do MFA, dos militares que sempre com ele estiveram (com subida honra apelidados de gonçalvistas) e sobre as iniciativas e organizações criadas, sob o seu impulso, e que mais não fizeram que, ao dar-lhe apoio, apoiarem o Povo, apoiarem a Revolução.
Comecemos por citar uma expressão de Vasco Gonçalves: “o MFA não era um movimento revolucionário: tinha revolucionários nas suas fileiras mas isso não fazia dele um movimento com essas características…”.
Sabemos que o MFA procurava sobretudo realizar um programa que tinha como base o derrube do regime ditatorial e fascista, acabar com a guerra colonial e instaurar um regime democrático. Mas dentro do MFA havia militares com várias tendências e diferentes graus de politização. Não era um corpo homogéneo e muito menos de homogeneidade revolucionária. “Os aspectos mais progressistas da actuação do MFA são motivados pelo levantamento popular num sentido revolucionário” são palavras do próprio Vasco. E, diremos nós com ele, pelas lições dadas por todos os antifascistas, na sua estóica, luta contra a ditadura e colonialismo. Foi o pulsar do Povo (dos Povos) e a força da sua razão e o exemplo dado na luta pela liberdade e contra a opressão que nos conduziram à acção de revolta.
É, ainda e sempre, falar da intervenção de Vasco, também na colaboração do texto final, do próprio Programa do MFA, como na sua interpretação prática. Vasco Gonçalves sabe que havia militares que faziam do Programa do MFA uma leitura estática, respeitando apenas o texto. Mas Vasco também sabe que outros militares do MFA, a que ele pertencia e era a sua referência, entendiam o Programa como um projecto suficientemente aberto à evolução da própria realidade. Para ele, e para o MFA revolucionário, novas dinâmicas surgiram, que parecendo não estar previstas à partida, impuseram uma interpretação “não apenas literal” do Programa do MFA. Porque nele estão expressas as acções programáticas essenciais e que constituem emanação profunda das gentes sacrificadas deste país, dum Portugal oprimido e isolado durante 48 anos, exigindo: “uma nova política económica”,”uma estratégia anti-monopolista”, e “uma outra política social” tudo “na defesa dos interesses das classes trabalhadoras e no aumento progressivo mas acelerado da qualidade da vida de todos os portugueses”.
O programa do MFA é emanação da vontade dum povo e dum povo inteiro, daquém e de além-mar, onde, numa “Guerra da Libertação” (dita do Ultramar) os capitães de Abril, durante longos treze anos, beberam ensinamentos: com os combatentes, dum lado e doutro, com as contradições do fascismo e do colonialismo mas também com as lições dos ventos da época e de quantos, resistentes e militantes, durante meio século lutaram e morreram, pelo fim da noite escura duma das mais longas ditaduras. A acção do MFA, (com muito poucos oficiais superiores, tal como Vasco Gonçalves já antifascista conspirador, ainda como capitão, no Golpe da Sé em Março de 1959) sendo o resultado duma experiência de organização e unidade, de jovens capitães que emerge, se consolida e se organiza, é com as armas nas mãos do povo-soldado que faz o 25 de Abril e no seu desenvolvimento cresce a aliança Povo-MFA. A partir dessa alvorada luminosa, do “Renascer da Esperança”, Vasco Gonçalves, na missão que lhe é incumbida, é quem melhor interioriza o Programa do MFA, como bússola que traça um rumo e lhe dá mais força para a liderança das “Conquistas da Revolução”, em nome do seu povo, e que a Constituição de 1976, contra ventos e marés, acabará por consagrar.
A partir do momento que o MFA dá ao seu programa o único significado que ele podia ter, e emana uma ordem de missão, para acabar de vez com os resquícios fascistas e construir uma democracia do Povo e para o Povo, vê-se a braços, e de que maneira, com os inimigos desta dinâmica. E o grave é que isso aconteça dentro do próprio MFA particularmente após a queda de Spínola e do falhanço das forças conservadoras, militares e civis, que o acolitaram.
Os “Capitães de Abril” e a seus representantes - a Comissão Coordenadora do MFA - foram ainda firmes e coesos, quer no “golpe Palma Carlos”, em Julho, quer mais tarde no “golpe da maioria silenciosa”, em 28 de Setembro. Resistindo aos ímpetos dum projecto pessoal e de ganância de Poder, o MFA não só afasta e recusa os propósitos do General Spínola, como escolhe Vasco Gonçalves para a responsabilidade de chefiar o segundo e o terceiro Governos Provisórios, respectivamente a 18 de Julho e a 1 de Outubro de 1974. Em ambas as tomadas de posse Vasco Gonçalves reitera a decisão inabalável de cumprir escrupulosamente o Programa do Movimento e em entrevista, horas depois desse acto, é absolutamente claro ao afirmar: A unidade entre o Povo e o MFA constitui condição fundamental do nosso progresso”.
Sabíamos de que Povo o General falava mas é pertinente questionarmo-nos: -e que se passava no seio do MFA? Interrogamo-nos em várias questões. Do MFA que não tinha falhado nas medidas e conquistas político-sociais, impulsionadas pelos governos de Vasco? Do MFA que fora imperturbável no processo, complexo e difícil, do início da descolonização, mesmo, e ainda, com Spínola? Não estavam com o pensamento de Vasco, alguns membros do MFA, que nunca entenderam que a descolonização não era uma dádiva mas sim uma conquista da Liberdade. Conquista marcada pela coragem dos Movimentos de Libertação e dos militares conscientes que queriam a Paz, que se recusaram a mais guerra e negaram os ímpetos do imperialismo. De todos que queríamos um equilíbrio mais justo do mundo e a independência das gentes colonizadas como uma das mais históricas conquistas da Revolução dos povos.
O MFA, apesar das acções do órgão politico militar criado pelo MFA - a 5ª Divisão do EMGFA - de quem Vasco Gonçalves foi o primeiro chefe, das suas acções da Dinamização Cultural, das suas mais diversas e criativas formas de esclarecimento público, começava agora, para os revolucionários, a dar os primeiros sinais de vulnerabilidade, tal como dizia Vasco: “…da incapacidade de o MFA revolucionário estender a sua influência a todas as Forças Armadas, do demissionismo, quantas vezes deliberado, de oficiais não afectos ao MFA, das dúvidas e receios de militares menos esclarecidos politicamente, cuja formação conservadora e tradicionalista os perturbava e tornava incompreensível o processo revolucionário e tendo neste aspecto um papel muito negativo as actividades provocatórias esquerdistas.” E não esquecendo, num xadrez mais alargado, a interacção/influência daquilo que o fascismo deixara implantado nas nossas terras, do caciquismo e do clero conservador e preconceituoso, do índice de analfabetismo que rondava os 33 % da população!
Vasco Gonçalves e o MFA, com o imperativo de salvar a economia, para salvar a revolução, enfrentam os disfarçados ataques do “capital” (quer nacional quer imperialista) que, sentindo-se a perder terreno, foram exímios na concretização dos mais ousados esquemas de destabilização e de quebra da unidade revolucionária.
Na evolução dos acontecimentos o núcleo duro do MFA (a sua Coordenadora comandada por Melo Antunes) deixa-se descompensar e perde em firmeza e coerência, aquilo que lhe oferecem em debilidade e inconsequência, na aspiração duma “velha aparente estabilidade de ordem externa” que jamais disfarçará uma “profunda desordem interna e mal-estar social”, absolutamente em contraste com um novo Portugal que se queria como sociedade mais justa e equilibrada. Esta trágica dinâmica, anti-revolução e anti-Vasco Gonçalves, infelizmente atravessou quatro décadas e chegou aos dias de hoje.
Bem se esforçou Vasco Gonçalves, e se esforçaram os revolucionários militares e civis, para porem fim aos ataques á genuína essência dos capitães de Abril e ao cumprimento do seu programa. Vasco sabia bem e afirmava-o muitas vezes não perder nos gabinetes e/ou pela mão dos militares conservadores o que já se conquistara no terreno. Reforça-se, assim, a necessidade e a vontade da institucionalização do MFA. Nascem as Assembleias do MFA (AMFA) suscitadas pela positiva experiência da sua criação no processo de descolonização da Guiné- -Bissau. Abre-se ainda mais o caminho para referida institucionalização.
Iniciam-se as conversações com os partidos para lhes comunicar o desejo da institucionalização e criar um “modus vivendi” com eles que fosse fiel às conquistas da revolução já alcançadas. O Pacto MFA-Partidos.
Vasco, a Dinamização Cultural e acção da Quinta Divisão empenham-se, ainda mais, em garantir a continuidade e desenvolvimento do processo revolucionário. Através do Boletim quinzenal do MFA, dirigido pela “Coordenadora” do MFA e corpo redactorial da 5ª Divisão, Vasco apela, como primeiro-ministro, à edição dum artigo de fundo, sob o título “O MFA: do Político ao Económico” em Novembro de 74. Sugere um apelo para a urgência de se tomarem medidas de carácter económico, lançar as bases para um efectivo controlo da actividade básica pelo Estado e da luta contra a sabotagem ainda vigente, criando condições que permitam melhorias da qualidade de vida dos portugueses e promovam o desmantelamento da base económica do fascismo. Contrariar a indiferença dos latifundiários às solicitações, do Governo e do MFA, para a realização de projectos de aproveitamento económico das terras.
Foi então criado, pelo Conselho de Ministros, um grupo de trabalho, constituído por certas personalidades, da área económica e social. O grupo, coordenado por Melo Antunes, demorou excessivo tempo a produzir o documento, em reuniões de “ilustres” em Sesimbra. Quando apresentado, apesar das reservas de Vasco Gonçalves e do MFA que lhe era mais próximo, ele acabou por ser aprovado, quer no Conselho dos Vinte, quer numa AMFA a 21 de Fevereiro de 1975.
Com a tentativa golpista do 11 de Março, despoletada novamente por Spínola e as suas hostes desesperadas, para fazer gorar a institucionalização do MFA, estes tudo precipitam. Opera-se a institucionalização do MFA, criando-se o Conselho da Revolução (CR) dois dias depois. No patamar económico-social são apontadas a necessidade de se tomarem as medidas mais revolucionárias: Planeamento, Nacionalizações e Reforma Agrária. Estas foram das primeiras medidas do neófito CR. Foram dados poderes a Vasco Gonçalves para formar a 4ª Governo Provisório que inicia suas funções a partir de 27 de Março. A reestruturação da banca nacionalizada, o controlo das empresas privadas pelo Estado, a criação do sistema de Planeamento, o prosseguimento da nacionalização dos sectores básicos e a reforma agrária, são as principais bases da agenda e programa deste governo.
Avança-se para eleições da “constituinte” e para o pacto: MFA- -Partidos. Já referimos anteriormente o alcance deste Pacto não perder prematuramente as conquistas alcançadas e tentar incluí-las na Constituição de 1976. Embora houvesse consenso no MFA veio-se a confirmar que quem punha reservas às medidas revolucionárias mais tarde se constituiria no chamado “grupo dos nove”. Mas aos partidos de direita e incluindo o PS não interessaria divulgar tais reservas antes das eleições. Houve aqui um tacticismo eleitoralista. Percebe-se bem porquê. Após as eleições, com a vitória do Partido Socialista (PS) logo seguido pelo PPD, estes partidos procuraram atacar desabridamente Vasco Gonçalves e acabar com o processo revolucionário, agravando as condições que eram naturais entre os dois processos. Tudo serviu de pretexto. O processo revolucionário foi travado mas não completamente derrotado: as conquistas alcançadas durante o período mais criativo da revolução foram, efectivamente, todas consagradas na Constituição de 1976.
A partir das eleições, de 25 de Abril de 1975, o PS inicia acções e um comportamento nada conducente com o seu ideário socialista e promessas eleitorais, fomenta divisões entre sindicatos e trabalhadores e salienta-se como um dos principais aliados das forças contra-revolucionárias. O capital e os inimigos da revolução, (sobretudo os que perderam privilégios) montam centrais de intriga, de intoxicação e de inquietação junto das populações. Faz-se crer que Vasco Gonçalves e o Partido Comunista (PCP) “são uma e a mesma coisa” e que pretendem controlar tudo. O anticomunismo primário sai à rua. Alarmam-se pessoas, sobretudo as menos esclarecidas com fantasmas e preconceitos.
Assim, PS e PCP, cavam entre si profundas cisões e consequentemente se repercutem no movimento popular e no seio do MFA. Vasco Gonçalves chega a ter reuniões com Mário Soares e Álvaro Cunhal, mas sem sucesso. De modo a superar as contradições partidárias, sem nunca pôr em causa os Partidos mas, num momento delicado da vida nacional, procurando uma plataforma de unidade estratégica entre si, Vasco Gonçalves e o MFA, para além do diálogo que incentivam entre eles, procuram também avançar para o aprofundamento duma política de estímulo à participação popular, através das suas organizações e ao estreitamento das relações entre o MFA e estas estruturas, procurando institucionalizar a Aliança POVO-MFA.
Na própria Assembleia Constituinte os deputados do PS e dos partidos mais à direita atacam o Governo. Vasco Gonçalves e a corrente dos militares do MFA, mais à esquerda, tentam “superar as contradições partidárias” com a aprovação de documentos como o PAP – Plano de Acção Política e do Documento Guia da Aliança Povo-MFA. Embora este último, não reunisse grande consenso. Mas é sobretudo este Documento-Guia, com forte influência dos sectores radicais do MFA, que leva a saída dos ministros do PS e do PPD do 4º Governo e à criação duma gravosa situação que só se regulariza em 8 de Agosto com o inicio dum novo Governo, com carácter efémero - o 5º Governo Provisório - cuja tomada de posse se realiza um dia depois da publicação do designado “Documento dos Nove” (que põe em causa Vasco Gonçalves e o MFA revolucionário) e também cinco dias antes do dito “documento de Oficiais do COPCON” (que procurando contrapor-se àquele documento, abre a porta a futuras posições de radicalismo contra Vasco e os militares da sua linha).
Porque os nove oficiais (4) do documento referido são todos do CR instala-se definitivamente uma cisão neste órgão. Na tentativa de a superar é ainda criado, nesta ocasião, um “pequeno directório” constituído por Gosta Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho. Mas estava aberta a contestação a Vasco Gonçalves já com alguns anteriores incidentes, não só, por parte dos oficiais ditos moderados, como por parte de ministros do PS a quando do chamado caso (jornal) “República”.
O processo precipita-se no designado “Verão Quente” de 1975, com peripécias e distúrbios graves e diversos. A norte do país o então grupo contra-revolucionário (com civis e militares do fascismo) - MDLP – intenta acções terroristas destruindo sedes de partidos de esquerda e praticando vandalismos. Em finais de Agosto, as instalações da 5ª Divisão do EMGFA, são assaltadas pelo Regimento de Comandos às ordens de Otelo Saraiva de Carvalho, chefe do Comando Operacional do Continente (COPCON), a culminar a divulgação dum documento “insultuoso” subscrito por este a convidar de forma nada digna o abandono de Vasco Gonçalves de primeiro-ministro e a proibi-lo de entrar em quartéis.
É numa dita “Assembleia do MFA em Tancos” em 5 de Setembro de 1975, constituída por militares escolhidos “ad-hoc”, delegados intencionalmente seleccionados, que o MFA progressista e revolucionário se vê afastado do seu processo, ao decapitarem-lhe a sua cabeça, aquele que será sempre para nós (quer militares do MFA que o seguiam, quer para as populações que o estimavam e amavam) mais do que o General Vasco Gonçalves -o eterno Companheiro Vasco-timoneiro das mais singulares e valiosas conquistas que a nossa Associação Conquistas da Revolução (3) se constituiu para preservar, muito particularmente em sua homenagem e ao povo português que o mereceu- que mereceu este HOMEM, simples, íntegro e revolucionário, ao leme desta barca.
Passados mais de quinze anos Vasco Gonçalves dá uma longa entrevista, editada em livro, em 2002 (1). É seu, este excerto premonitório, da situação que vivemos, agora em 2014: “…já havia o objectivo de romper com aqueles militares que mais consequentemente apoiavam as aspirações populares e travar o aprofundamento da democracia…e digo isto passados tantos anos…porque desde a queda do 5º Governo Provisório temos vindo a assistir à reconstituição duma democracia política que convive bem com as limitações dos direitos sindicais e políticos dos trabalhadores, com a destruição do sector público da economia, com a destruição da reforma agrária, com a sucessão de pacotes de Leis cada vez mais gravosos para os trabalhadores que vão sendo aplicados à medida que a direita e a reacção ganham cada vez mais força”.
Em 2004,um ano antes de morrer, Nestor Kohan, professor e filósofo argentino,(2) faz a última entrevista que Vasco Gonçalves concede. O entrevistador, entusiasmado com o militar que veio encontrar, traça bem, na introdução, o perfil do general e da revolução, um pouco aquilo que todos nós sentimos, da qual retiramos excertos.
«…Vasco Gonçalves…(ao invés dos Generais que conheci é sem dúvida uma avis rara) fala pausadamente, de forma suave e calma. Tem os gestos amáveis e a atitude de um velho professor universitário. Dirige-se aos interlocutores com um ênfase pedagógico que não consegue dissimular. A Revolução dos Cravos foi atípica. Teve lugar na Europa Ocidental, precisamente quando se supunha que a revolução já estava fora da agenda. Segundo escreveu o próprio Vasco Gonçalves, “a Revolução de Abril terá sido, na Europa Ocidental e depois da Comuna de Paris, a maior ofensiva feita contra o sistema capitalista”. Precisamente quando nos restantes países europeus se abriam as flores murchas do eurocomunismo e da social-democracia (correntes que renunciavam a toda a rebelião radical… por princípios políticos) Portugal pôs na ordem do dia a questão do poder. Isto teve lugar em plena crise capitalista (1973-1974), quando o dólar e o petróleo sofreram um abanão mundial, liquidando o keynesianismo do pós guerra e abrindo caminho ao neoliberalismo.»
«Esta revolução realizada em plena guerra fria deslocava o papel tradicional das Forças Armadas europeias, especialistas na guerra contra-revolucionária nas colónias africanas e, ao mesmo tempo, peritas na contra-revolução e na tortura pelos militares latino americanos (Brasil, Argentina, Chile, etc). A de Portugal foi uma revolução que questionava num mesmo movimento o vínculo imanente entre capitalismo, fascismo e colonialismo. Três formas de dominação que costumam apresentar-se na literatura política como se fossem fenómenos desligados entre si.»
«Em Novembro de 1975, um ano e meio depois do início da Revolução dos Cravos, o governo revolucionário foi derrubado. Caiu perante um golpe de estado de direita. Diferentemente das intentonas anteriores, este novo golpe contra-revolucionário saiu vitorioso. Foi instigado pelo Partido Socialista Português – Mário Soares como responsável civil –, pelos EUA, pela social democracia internacional e pela Internacional Democrata Cristã.»
«A partir do triunfo da reacção de direita com máscara social democrata, em Portugal tudo volta à “normalidade”... isto é, ao capitalismo, à exploração e à obediência.»
«Vasco Gonçalves é hoje (2004) um homem idoso, mas ainda se lhe incendeia o olhar com o brilho de um adolescente, quando fala da revolução que o teve como principal expoente das forças populares. Modesto e simples, sente-se surpreendido quando uma humilde camponesa, mais velha que ele, vestida de negro da cabeça aos pés, se aproxima para lhe acariciar a cara, expressar-lhe a sua admiração e sentar-se com ele como se fosse um filho.»
Mas é nesta, última entrevista da sua vida, feita a Nestor Kohan que Vasco diria: penso que hoje não há espaço para uma “terceira via”. A experiência do passado e do presente demonstra-nos que a “terceira via” caminha sempre para a direita, caminha sempre num rumo reformista do capital, para a ideia de uma suposta “reforma do capital”. Não se trata de alcançar um capitalismo reformado sem superar o capitalismo. O capitalismo não é reformável, porque as relações sociais nas quais se baseia, e sem as quais não pode sobreviver, são intrinsecamente injustas e de exploração do homem pelo homem. A “terceira via” não persegue conquistas profundas nas estruturas económicas e sociais. Basta olhar a Inglaterra, a França e a Alemanha para corroborá-lo. Jospin em França, Schroeder na Alemanha e Blair na Grã-Bretanha adoptaram na prática políticas neoliberais e de privatizações. Todos os que pretendem colocar-se entre o capitalismo e o socialismo, no final acabam por adoptar políticas neoliberais”.
Dez anos depois tudo se agravou com Hollande, com Merkel, com Cameron e com outros. Ao comemorarmos 40 anos do 25 de Abril e 40 anos da tomada de posse de Vasco Gonçalves, como primeiro-ministro, estão os portugueses conscientes da diferença entre o que se conseguiu em 1974 (e no ano seguinte) e o que não se consegue em 2014, entre o que se conquistou com Abril e o que tem sido destruído com Novembro (e desde Novembro) e com as tóxicas políticas neoliberais dos dias de hoje.
Por isso “companheiro Vasco” se é com muita saudade que te recordamos é ainda com a tua voz nos nossos corações que manteremos alento a prosseguir na tua luta que é, e será sempre, a nossa luta. Como sempre disseste: «Há que lutar, no dia a dia, por reformas cujo conteúdo contraria a lógica do pensamento único, dominante, a pretensão ao domínio universal dos interesses de um restrito conjunto de forças económicas».

Vasco e Abril não morrem. São eternos companheiros.

M. Duran Clemente

(1) - “Vasco Gonçalves — um General na Revolução”, Entrevista de Maria Manuela Cruzeiro, Outubro de 2002.

(2) - “Vasco Gonçalves - Entrevista de Nestor Kohan para Rebelión/Accion, em Outubro de 2004.

(3) - “Tudo já foi dito e tudo resta para dizer do Companheiro Vasco, … – pelo seu exemplo, pela sua obra, pelo seu pensamento -quisemos, inicialmente, que o seu nome fosse o nome da nossa Associação – o que só não aconteceu por obstáculos impossíveis de superar ….”. Declaração dos princípios justificativos da criação da Associação Conquistas da Revolução em 2011.

(4) -“Grupo dos Nove”: Melo Antunes, Vasco Lourenço, Pezarat Correia, Franco Charais, Canto e Castro, Costa Neves, Sousa e Castro, Vítor Alves, Vítor Crespo.

A PRIMAVERA DE UM PROJECTO: REVOLUÇÃO

A PRIMAVERA DE UM PROJECTO: REVOLUÇÃO

Saudade ou projecto? O 25 de Abril é tanto…que na sua imensidão cabem saudade e projecto.
O fascismo até a saudade colonizou.
Hoje, cidadãos livres, a saudade é a «portuguesa nostalgia» do que se deseja rever, tornar a sentir, reviver… e é nessa convicção que podemos reflectir.
Se for a saudade da construção de uma luta. Se for a saudade da solidariedade para intervir.
Se for a saudade da coragem e lucidez no aproveitar das condições criadas pelos resistentes antifascistas para a revolta. Se for a saudade da participação, espontânea e viva, de querermos ser gente maior. Se for a saudade da alegria de irmos finalmente juntos e mais conscientes construir um país novo “nascido do ventre de uma chaimite”.
Se for esta saudade (e sabemos bem que o é) ela é «o 25 de Abril»!
Saibamos transmiti-lo aos jovens tão indispensáveis ao projecto e ao futuro.
Porque é projecto que o 25 de Abril tem uma génese, um nascimento e uma vida que perdurará. Cresce, desenvolve-se e ergue-se como base da construção dos «amanhãs» que se querem e queremos, mais libertadores, em todas as «vilas morenas e suas fraternidades» do novo Portugal.

O programa do MFA que traduzia no essencial os anseios do Povo Português quis ser a coluna vertebral desse projecto nas vertentes Democratizar, Descolonizar e Desenvolver.
Haverá ainda alguma dúvida que este programa e este projecto beberam nas fontes ideológicas para  a construção duma sociedade mais participada e mais justa, mais consciente e por isso mais solidária?!
Mais solidária para acabar com as desigualdades e injustiças. Mais consciente para construirmos uma melhor Democracia ; mais humana e à altura dos sonhos que nos apontaram a caminho da libertação e do erguer duma nova cidadania.
Porque se é sonhando que o caminho se vislumbra, é caminhando que o caminho se faz... consolidando as conquistas democráticas já alcançadas nomeadamente nos Direitos e Liberdades fundamentais, no Poder Local e nos Movimentos Sindicais e Associativos.
E se para o caminho de Abril as lições do passado foram traçadas com a coragem, o sacrifício e o sangue dos Heróis (e deste Povo Herói), depois de Abril soltou-se a Liberdade, iluminou-se a Esperança, perscrutou-se o Futuro criando a Primavera dum projecto: Revolução. Projecto por cumprir, mas que realizaremos... honrando Abril e todos os que por ele lutaram e até morreram.
Nesse projecto continuaremos lutando.E porque a saudade também é memória, nunca se cumprirá um projecto, sem as memórias da experiência dos avanços e dos recuos. Venceremos.


(1994-Nos 20 anos de Abril, publicado no Avante)
………………………………………………………………
Não à  trágica “continuidade do passado” que tombou na madrugada libertadora. Mau grado se levantam saudosistas disfarçados e até cobertos com uma capa de evolução. Para esses parece não ter havido o 25 de Abril e talvez lhes seja doloroso comemorar, ano após ano, o seu significado.. Esforçam-se, a coberto da Liberdade de Abril, para que não vingue um projecto nacional consequente.
Mas grande parte dos portugueses ainda se lembra da terrível noite escura da ditadura e do que significava “a evolução na continuidade” e abraçou,  a Alvorada de Abril ; não como o inicio duma evolução mas como a profunda mudança que continua em curso e essa chama-se revolução / transformação que, com avanços e recuos , continua a impor-se como o único projecto nacional estimulante e aglutinador dos portugueses..
Nesse propósito continuaremos lutando e com as memórias da experiência de vitórias e de derrotas prosseguiremos a caminhada.
A grande vitória é continuar a lutar com coragem e sem desânimo no que se acredita.
Ao festejarmos Abril (em cada ano) renovamos as nossas forças para que o espírito do 25 de Abril perdure e vença.

Aos jovens, à Juventude está reservada a bonita tarefa de, em Liberdade e em Democracia, construir um Portugal melhor. Foi exactamente para eles, para os jovens, para quem o 25 de Abril foi mais generoso. Merecem-no e estamos certos abraçarão e honrarão esse compromisso. Compete-nos, aos mais velhos, essa pedagogia e esse ânimo.
Por isso estamos todos de parabéns ao festejarmos e ao comemorarmos o dia em que as portas da Liberdade se abriram.
Humildemente de um “soldado “ de Abril para todos os companheiros que não desanimem.

25 de Abril , sempre !

Manuel Duran Clemente

AA

sábado, 28 de junho de 2014

MEMÓRIAS de ADRIANO / MINHAS MEMÓRIAS (escrito em 1997)

COM AGRADECER ÁS AMIGAS E AMIGOS OS VOTOS DE PARABÉNS?

Fui ao baú das memórias e encontrei esta composição em Homenagem ao nosso Adriano,nos 15 anos do seu falecimento,dita em Avintes:

MEMÓRIAS de ADRIANO
MINHAS MEMÓRIAS
(escrito em 1997)

... Voz de Fado e de Destino
... tinha também o masculino apelo do rebate e do COMBATE!
Um TEMPO de grande tensão histórica e de grande tensão interior
TEMPO PEJADO DE APELOS E SINAIS CARREGADO DE PERIGOS E ANGÚSTIAS
PRENHE DE COISAS NOVAS
RUÍAM TABUS e MITOS
LAVANTAVAM-SE BARREIRAS
APERTAVAM A MORDAÇA
REFORÇAVAM A REPRESSÃO
ALGO ESTAVA EM MARCHA
NOVA CONSCIÊNCIA
ENERGIA QUE PULSAVA

. POVOS QUE SE LIBERTAVAM
( degrau a degrau
passo a passo ... para a Liberdade )
para a CIDADE
para a CIDADANIA
. Sem Liberdade não há CIDADÃO
. Sem CIDADÃO não há multidão
que se aconchegue
na união
de viver ...
de fazer ...
de crescer ...
de se ser humano ... realmente
. Na unidade de construir: GENTE!

** COIMBRA a saber de:
Santa Maria / Henrique Galvão
Quartel de Beja / Varela Gomes
Greves: Lisboa e Alentejo
Vendaval: Humberto Delgado
** COIMBRA de revolta
liquidação da autonomia das associações
. O FLUIR DA HISTÓRIA: no sopro do tempo
na correntes da ideias
. NESSA COIMBRA DE ADRIANO
( de José Afonso e de outros )
onde chegou
e de onde nunca terá saído ( foi-se e está presente ) no saber eterno da poesia e da cantiga
o “ canto novo que os tempos reclamavam “
a BARCA NOVA de Adriano
( a barca carregada de soldados para a guerra injusta )
a BALADA DO OUTONO de Zeca Afonso
Tudo mudou:
De Coimbra para Lisboa
De Coimbra para o Porto
As três academias
Eram finalmente luta e intervenção
“ não mais a capa velhinha feita mortalha para a sepultura “
como alguém diz
Capa: bandeira de luta
Capa: bandeira de liberdade
A poesia e os poetas
Os cantores e sua música
Gritavam:
Uma nova fraternidade
Uma nova esperança...
Em todo este Processo os poetas e cantores desempenham um papel fundamental:
- que terá sido o mais generoso e o mais corajoso
- nunca se recusam cantar o que era preciso cantar
( mesmo na noite mais triste em tempo de servidão )
HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE RESISTE
HÁ SEMPRE ALGUÉM QUE DIZ NÃO
( Manuel Alegre ) ( Trova do Vento que Passa )
“ Canção com lágrimas “ – ( do Canto e as Armas )
“ Tejo que levas as águas “ – (Manuel da Fonseca)

O 25 DE ABRIL teve várias portas para o nosso encontro
Para a retoma do nosso amor próprio
Para a recuperação da nossa auto estima;
Auto estima interior como cidadãos portugueses...
E se o caminho
( e os caminhos )
Se fazem caminhando ... para as portas por onde se entrou em ABRIL
Um dos caminhos foi feito pelas
- pelas trovas dos poetas ( de Adriano )
- pelas baladas dos cantores ( de Zeca )
- pela canção desse nosso tempo
- na trova nova:
* velha luta
* imensa esperança
Que abalou as estruturas bolorentas
Culturais do FASCISMO...
Apelando á resistência e ao
Combate de milhares e milhares de jovens
Daquela geração ... da nossa geração.
... “ vieram dizer que não tinham medo “
que “ a verdade era mais forte que as algemas “
( M. Alegre )
“ CANTOU-SE ABRIL antes de Abril o SER “
é verdade ... e justo repeti-lo
Cantando-se
... COMO HEI-DE AMAR serenamente
com tanto amigo na prisão
( F.A Pacheco )
... Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
( Fiama P. Brandão )
Cantando-se

... O soldadinho não volta
do outro lado do mar
( R. Ferreira )
Cantando-se

... Tejo que levas as águas
... leva nas águas as grades de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade das bocas amordaçadas
( M. Fonseca )
... Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as águas para o mar

“ QUE NUNCA MAIS “ porque o fascismo existiu

- vida cercada de mecanismos opressivos
- sociedade assente na exploração
- na prepotência
- na hipocrisia
- na violência

Tristeza de um povo
Coragem no Combate Liberdade ABRIL
Por um futuro melhor

Na sombra da noite eu fui afastado
Por gente sem rosto e longo braço armado
( M. Fonseca )

Foi-se a noite da mentira Liberdade ABRIL
Veio o dia do Combate

P’rá frente na luta até à vitória
Não fiques para traz Liberdade ABRIL
Que o teu vestido
É o mesmo da gente

Já meu país foi uma flor de verde pinho
País em terra e semeá-lo uma aventura
Depois abriu-se o mar como um caminho Liberdade ABRIL
Depois o bosque se faz barco e o barco arado
Dessa nova e fatal agricultura
Colher no mar
O fruto nunca semeado

Depois o bosque se faz barco
E ramo a ramo
Foi remo e quilha
Era um povo a perder-se por Liberdade ABRIL
Seu amo
Que perdia seu povo de
Ilha
Em ilha...

Porque és tão triste tristeza
Toda feita de suspeita
Tristeza de olhos no chão
Tristeza de manga de alpaca
Tristeza de ombros curvados
Tristeza triste tristeza Liberdade ABRIL
Porque não corres tristeza
Porque não cantas não gritas
Não acendes tua mágoa
No meio de cada praça

Porque não falas mais alto
Porque não cantas tristeza
Nem as lágrimas transformas
Em gritos dentro de nós Liberdade ABRIL
Em gritos, raivas e pedras
Com que partas à pedrada
A redoma onde prenderam
A nossa vida / tristeza

Vi minha Pátria na margem
Dos rios que vão para o mar
Como quem ama a viagem
Mas tem sempre de ficar
Vi ferir os verdes ramos
Direitos e ao céu voltados Liberdade ABRIL
A quem gosta de tiranos
Vi sempre os ombros curvados
Se o verde trigo desfolhar
Pede notícias e diz
Ao trevo de quatro folhas
Que eu morro por meu país

Teu nome onde exilado
Hábito e canto
Mais do que nome: NAVIO
Onde já fui marinheiro
Naufragado

No teu nome
*Sobre esta página escrevo o teu nome
Que no peito trago escrito
Laranja, verde, limão
Amargo e doce o teu nome
Esta chama ateada no meu peito
Por quem morro
Por quem vivo

Este nome rosa e cardo
Por quem livre sou cativo
*Sobre esta página escrevo o teu nome:

LIBERDADE....
Com mãos se faz a PAZ
Se faz a GUERRA

Com mãos tudo se faz e se desfaz

Com mãos se faz o poema e
são de terra

Com mãos se faz a guerra e
são a PAZ

Com mãos se rasga o mar
Com mãos se lavra

Não são de pedras estas casas
Mas de mãos
E estão no fruto e na palavra

As mãos que são o CANTO
E são as ARMAS
E CRAVAM-SE NO TEMPO COMO FARPAS
AS MÃOS QUE VÊS NAS COISAS
Transformadas
Folhas que vão no vento
Verdes harpas
DE MÃOS é cada flor
Cada cidade
NINGUÉM PODE VENCER ESTAS ESPADAS
NAS TUAS MÃOS COMEÇA A LIBERDADE

25 ABRIL Liberdade
“ Liberdade feita dia “ como diz Eduardo Lourenço

O 25 de Abril tornou-se o “ dia à dia “ com as contradições
Certo / errado
Luz / escuro
Manhã / tarde
Jovem / velho
Homem / mulher
Unido / desunido

Por isso os que fazem de conta que não há ou não houve 25 de Abril
Os que dizem mal da mudança...
Estão a comemorá-la
Estão a homenagear, sem querer
O 25 de Abril

porque foi este que lhe restituiu ou deu a possibilidade de deixarem de ser cativos da mordaça e de até sendo livres poderem usar a LIBERDADE para a tratar mal ou dizer mal dela

Segundo o nosso ponto de vista
Segundo o ponto de vista do que
Neste momento e aqui festejamos e comemoramos
Ao dar vida à memória de Abril
Fortalecemos a LIBERDADE pela qual lutámos e pugnámos.
Ao SOL DA LIBERDADE tem sido infelizmente possível:
- falsear a história
- branquear a ditadura
- promover contra a cultura da MEMÓRIA a cultura do
ESQUECIMENTO
- renascer fantasmas
- substituir a ideia de mudança de Revolução pela ideia de mercado
- dar força à competição feroz e enfraquecer a solidariedade o jogo do empurra:
- na rua
- na escola
- no emprego
- na comunicação social
- na política

Tem sido possível ao SOL DA LIBERDADE
Aqui e no mundo
- que os ricos estejam mais ricos quando os pobres não estarão menos pobres
Se Adriano ou Zeca Afonso ou Ary dos Santos hoje cantassem, cantariam
- que deveríamos ser realistas exigindo o impossível
Como?

Como se ainda não ousámos fazer o possível?

Ousar o possível é.entre tanta coisa
Usar a nossa voz ( outra vez o nosso canto e a nossa música contra outras armas )

Contra a visão monetarista que se opõe ao regime social mais humano, democrático e mais participado...

Lutar para que não haja uma Europa ( e nós nela ) ultrafinanceira por cima das conquistas da civilização e da HUMANIDADE...

OUSAR esse possível é cumprir mais o canto / a praia / a luta e todos os que combateram pela LIBERDADE, por ABRIL

Por isso aqui estamos
OUSAR esse possível

E estarmos hoje na intimidade da alma grande dos poetas, dos cantores e dos estados
Alma maior que o nosso tamanho
... essa alma de combatentes pela LIBERDADE que tem a dimensão do planeta e que orbita na nossa esperança.

A ESPERANÇA deve ter o tamanho do UNIVERSO!
Do UNIVERSO que as portas de Abril Abriram!
Grândola Vila Morena
Terra da Fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti ó cidade
(Zeca Afonso)

E de Manuel Alegre :

“NÃO ERA SÓ A VOZ O SOM A OITAVA
QUE ELE QUERIA SEMPRE MAIS ACIMA
NEM SEQUER A PALAVRA QUE NOS DAVA
RESTITUÍDA AO TOM DE CADA RIMA

ERA A TRISTEZA DENTRO DA ALEGRIA
ERA UM FUNDO DE FESTA NA AMARGURA
E A QUASE INSUPORTÁVEL NOSTALGIA
QUE TRAZIA POR DENTRO DA TERNURA

O CORPO GRANDE E A ALMA DE MENINO
TRAZIA NO OLHAR AQUELE ASSOMBRO
DE QUEM QUERIA CABER E NÃO CABIA
OS PÉS FORA DO BERÇO E DO DESTINO
ALGUÉM O VIU PARTIR DE VIOLA AO OMBRO
ERA OUTUBRO EM AVINTES E CHOVIA”
Era Adriano.
(16 de Outubro de 1982)
……………………………………………….
Hoje somos todos nós companheiros…vão 32 anos!!!
E a luta é eterna. Abril também. Venceremos
......................................................................
Manuel Duran Clemente e os citados!!! (28-06-2014)

OBRIGADO AMIGAS E AMIGOS

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Livro “VASCO,NOME DE ABRIL"


Livro   “VASCO,NOME DE ABRIL"



Nos 40 anos da tomada de posse de Vasco Gonçalves como Primeiro-ministro de Portugal. Lançamento a 18 de Julho,18h00-Casa do Alentejo.

Edição Associação Conquistas da Revolução

Com 75  depoimentos, de :


MANUEL BEGONHA, Presidente da Direcção da ACR
--------------------------
FIDEL CASTRO
HUGO CHÁVEZ
ABÍLIO FERNANDES
ALICE VIEIRA
ÁLVARO MARTINS
AMÉRICO NUNES
ANABELA FINO
ANSELMO DIAS
ANTÓNIO AVELÃS NUNES
ANTÓNIO GERVÁSIO
ANTÓNIO MODESTO NAVARRO
ANTÓNIO QUINTAS
ANTÓNIO VILARIGUES
ARMANDO MYRE DORES
ARMÉNIO CARLOS
AUGUSTO FLOR
AVELINO GONÇALVES
BAPTISTA ALVES
BAPTISTA BASTOS
CARLOS CARVALHO
CARLOS COUTINHO
CÁRMEN SANTOS
CÉSAR PRÍNCIPE
CORREIA DA FONSECA
DANIEL CABRITA
DEOLINDA MACHADO
DULCE REBELO
DURAN CLEMENTE
FÁTIMA RODRIGUES
FELICIANO DAVID
FERNANDO TAVARES MARQUES
FILIPE DINIZ
FRANCISCO DUARTE MANGAS
FRANCISCO LOBO
GERMANO DE ALMEIDA
GLÓRIA MARREIROS
GUILHERME ANTUNES
HÉLDER COSTA
HENRIQUE MENDONÇA
ILDA FIGUEIREDO
JOÃO BILSTEIN SEQUEIRA
JOÃO LOURENÇO
JOÃO PEDRO MÉSSEDER
JOÃO TORRES
JORGE SARABANDO
JOSÉ ANTÓNIO GOMES
JOSÉ BARATA MOURA
JOSÉ CASANOVA
JOSÉ ERNESTO CARTAXO
JOSÉ MANUEL JARA
JOSÉ PAULO GASCÃO
JOSÉ SUCENA
KALIDÁS BARRETO
LUÍS MACEDO
MANUEL AUGUSTO ARAÚJO
MANUEL LOUZÃ HENRIQUES
MANUEL PIRES DA ROCHA
MANUEL Q. GRAÇA BAPTISTA
MARIA AMÉLIA NÁPOLES GUERRA
MÁRIO DE CARVALHO
MÁRIO NOGUEIRA
MIGUEL URBANO RODRIGUES
MOISÉS CAYETANO
PINTO SOARES
RIBEIRO CARDOSO
RITA LELLO
RUI NAMORADO ROSA
SAMUEL
SÉRGIO RIBEIRO
VALDEMAR SANTOS
VARELA GOMES
VASCO COSTA SANTOS
VIEIRA NUNES
VITORINO



quarta-feira, 28 de maio de 2014

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Simplesmente GUERRA ! A operação "nó górdio"do século vinte e um!

Simplesmente GUERRA !
A operação "nó górdio"do século vinte e um!






.....apontamento sobre os "prós" dos "contra" a Liberdade, ou como se vive uma época de mistificação e manipulação !

Não é o facto de ter caído numa armadilha, ao ter aceite o convite para estar presente,no último programa da RTP "prós e contras" que me obriga a este apontamento. É um desabafo e uma preocupação, sobre como no mundo de hoje é fácil para alguns mentir e branquear e para outros dialogar,apresentar elementos históricos provados e até poderem explicar com serenidade as causas da distorção,do erro, do engano ou maldade alheia.

O desabafo: 

O formato e condução do programa não são sérios.Não vale a pena o eufemismo de referir isenção ou neutralidade,porque há muito esses princípios andam arredados de muito jornalismo escrito, falado ou televisionado!

Quem viu o programa,em causa,do passado dia 15 de Outubro terá constatado o favoritismo escandaloso entre, não só, o nº dos escolhidos ou convidados "pró-guerra" e os de opinião contrária,como o tempo de antena dado a uns e o retirado (ou não dado a outros) pela moderadora (!?).

É preciso ter nervos de aço ou ser profissional da manipulação (ignorante) para não se ficar perturbado ao ouvir tanta distorção histórica,por parte de intervenientes zangados com o 25 de Abril e até ouvir um Embaixador,como o da Guiné-Bissau" reduzir o massacre das docas de Pidjiguiti (em Junho de 1959) em Bissau a uma mera reivindicação laboral. Não sabia que um dos principais activistas tinha sido Carlos Correia (mais tarde Ministro das Finanças e Primeiro Ministro),então trabalhador da Casa Gouveia (...não é nome que esqueça a um guineense com estas responsabilidades...) e ainda fui eu que (sentado próximo do Sr.Embaixador,tive de lhe servir de "muleta",ao sussurrar-lhe o nome desse" homem grande" e activista dessa greve,pessoa humilde,íntegra e patriota com quem tive o gosto de trabalhar e conviver durante dez anos de Cooperação em Bissau (desde o final dos anos 70 até ao dos anos 80).

Quem é que escolheu esta personagem? Este Sr.Embaixador que não sabe que Pidjiguiti representa mais de 50 mortos, de uma centena de feridos,dos sobreviventes deportados para S.Tomé,e que um mês e meio após este acontecimento ("apenas laboral" no dizer do Sr,representante de Bissau),,já com Carlos Correia (e outros que conseguiram fugir) e juntar-se aos nacionalistas, comandados por Amilcar Cabral, a Direcção do PAIGC( ainda só P.A.I.=Partido Africano para Independência)abandonou a «acção política e social» e declarou -se a favor da luta conta o colonialismo português «por todos os meios possíveis incluindo o da luta armada».Lê-se em declarações de Amilcar Cabral «a luta armada era a única resposta à força das armas e a acção não deveria ser desencadeada nas cidades...mas antes privilegiar a força camponesa » E foi o que aconteceu com escolas de formação, para quadros políticos, instaladas junto da Direcção política,no vizinho país, em Conakry.

«O ensino militar que vocês receberam,as armas que os colonialistas vos deram para matar a nossa gente,o material de guerra e as munições que estão em quartéis à vossa guarda.tudo isso pode ser posto ao serviço da luta de libertação dos nossos povos.Estamos seguros de que é o que vocês vão fazer,com prudência,com cuidado e inteligência...»mensagem de Amilcar Cabral, em Outubro de 1960. com o seu pseudónimo de Abel Djassi.

Numa outra mensagem aos colonos portugueses,Cabral avisa, «...o colonialismo português tem os dias contados e vós sabeis isso muito bem.não deveis consentir,como homens conscientes,no absurdo de amarrar o vosso destino ao destino do colonialismo português....»

Ainda em 15 de Novembro o P.A.I. dirige-se ao governo português num memorando:« a via pela qual vai ser feita a liquidação total do colonialismo português...depende exclusivamente do governo português.(...) Ainda não é tarde para proceder à liquidação pacífica da dominação colonial portuguesa nas nossas terras.A menos que o governo português queira arrastar o povo de Portugal para o desastre de uma guerra colonial».

Não adivinhava Amílcar Cabral que esta característica de negociador (verdadeira ou insinuada) lhe iria ser fatal.Da facção militar guerrilheira,mais ortodoxa,sedenta de Poder,iria sair o plano para o matar em Janeiro de 1973,instigados ou não pelo boato, lançado pelas hostes Spinolístas,de que ele, A,Cabral e Aristides Menezes, queriam ou teriam querido negociar.

A preocupação

Acrescento uma preocupação sobre os episódios que estão a passar, na RTP 1, sobre a Guerra(do Ultramar,Colonial ou de Libertação...ai.... a semântica e a dificuldade de passados 33 anos ainda haver quem tenha medo de chamar "os bois pelos nomes!!!"

Espero que a frase do Joaquim Furtado,que tenho como um profissional sério e íntegro, (na apresentação da síntese dos nove primeiros episódios,a que alguns de nós assistimos na própria RTP,na tarde de 15 p.p. " ...de ter procurado, na realização dos filmes, não ferir susceptibilidades..." não resvale, no receio de magoar os responsáveis (quer da altura quer os seus correligionários actuais) exactamente aqueles que nos atiraram para aquela desgraça de treze (ou mais anos) e que ainda tentem "desonrar" o nosso 25 de Abril...como lastimávelmente esteve à beira de acontecer no famigerado programa dos "Prós e Contras" da passada segunda feira,com a convergência dos factores já descritos no meu desabafo.

Entre os dislates ouvidos de saudosistas e conservadores ignorantes, destaco um que nos diz especial respeito. Alguém pretendeu por em causa a honorabilidade do nosso 25 de Abril,procurando apagar as suas verdadeiras razões para justificar a sua argumentação "revanchista" e falsa,com o argumento ,de que só se fez o 25 de Abril por uma questão corporativa,por causa do Dec.Lei 353/73...

Ora...Quantos de nós, já antes do decreto, havíamos começado a sentir a necessidade de acabar com a impostura ???

Lembro-me do desabafo, já em Nacala/Moçambique(1970) no navio Niassa, quando cerca de dez capitães,que eu já tinha visto passar por Nampula,acabados os mais de dois anos de guerra colonial, preparados para regressar a Lisboa, são forçados a interromper tal esperança e chamados (por Kaúlza) a regressar "ao mato" para integrarem a Operação "Nó Górdio"... perante o meu espanto, exclamaram:

TEMOS DE ACABAR COM ISTO, ANDAM A GOZAR CONNOSCO ...!!! 

Lembro-me dos capitães que a partir de 1965, e particularmente após Maio de 1968, começam a informar-se mais e a dialogar melhor com a sociedade civil e com os alferes milicianos,enquadrando nas suas consciências as contradições do Regime,das revoltas abafadas desde 1927 até 1961,Chaves,Porto,Lisboa,Madeira,Beja.Das personagens Norton de Matos,Sousa Dias, H.Delgado, H.Galvão, e tantos outros....Da efectiva mentira e da ficção do Grande Império (perdido a partir de 1580, mais perdido ainda depois de 1820 (Brasil),praticamente nas mãos da estratégia dos Ingleses,já desde 1640 - como paga da aliança primeiro contra Castelhanos e depois contra Franceses - e mais acentuadamente,a partir do século dezanove,proibindo o "mapa cor de rosa" e escoando e coordenando a exploração dos minerais, café, chocolate, chá...algodão, tabaco...portos e caminhos de ferro...etc...deixando "umas sobras para português ver" a algumas famílias nacionais,tudo isto com a benevolência dos nossos Ministros da Colónias e outras dignas altas esferas ).Lembram-se que em Moçambique até o trânsito se fazia pela faixa esquerda como no Reino -Unido???

Império sem gente,sem poder,sem motivação desenvolvimentista,sem meios materiais e sequer bélicos!!! É o que se encontra no principio do século vinte,antes das ditas "guerras da pacificação"(1920/1930).

Timor -Leste, pouca gente se lembra esteve nas mãos do Japão /Austrália, mais de quatro anos de 1941 a 1945 .
Pouco ou nada muda até o pós Segunda Grande Guerra.

As fronteiras das colónias são então demarcadas.A Casamança,dita portuguesa, na Guiné,passa para o Senegal, é trocada por uma parcela de pedras,a Leste, perto de Konakry,por despacho dum alto dirigente português a troco dum bairro em Paris.

Os países coloniais começam a resolver politicamente as inevitáveis descolonizações.

As "nossas" parcelas da Índia são defendidas com "chouriços" e não fora o bom senso de Vassalo e Silva teria havido um massacre inenarrável.Efectivamente nem armas havia e quando alguns caixotes são abertos,felizmente são mesmo chouriços e outros produtos congéneres que se encontram.Conta quem lá esteve.

A Guiné estava numa mão da CUF(Casa Gouveia) e o seu povo na miséria continuava.As riquezas exploradas,mancarra,arroz e cajú não davam para fazer escolas,hospitais,estradas,etc.O desenvolvimento era nulo.(Estive lá, antes e depois da Independência)

Cabo-Verde tinha metade da população emigrante!(igualmente conheci, antes e depois da Independência)

S.Tomé e Príncipe vivia de "escravos" que alimentavam as roças dos senhores.Sendo das terras mais bonitas que já alguma vez conheci (estive lá em 1962) nem sequer as riquezas do café ao cacau e frutas serviram para desenvolver.E o Turismo tinha a desculpa do paludismo e do clima equatorial.!!!! Leia-se o livro o "Equador" de M.S.Tavares e já entenderão porque é bom não esquecer os nosso velhos "aliados ingleses"e um pouco do que era a realidade,agora ficcionada pelos saudosistas.


Era este o Império onde em Angola (14 vezes maior que Portugal) em 1960 havia 1.500 militares portugueses e cerca de 5.000 africanos integrados.Onde o desenvolvimento à semelhança de Moçambique (nunca sustentado nem coerente com as potencialidades naturais), começou a dinamizar-se com o inicio da Guerra Colonial.Era preciso autorização do Terreiro do Paço para tudo e para nada,com medo da independência Branca e Unilateral.Também conheci estas duas colónias antes e depois das suas Independências.Até para uma "barragem agrícola" era preciso licença de Lisboa...assisti a isso.

Os capitães, da geração do 25 de Abril, foram sabendo isto e muito mais,nas três frentes de combate.As grandes potências tinham ou estavam a perder as guerras semelhantes (Indochina,Argélia,Vietname)e a célebre APSIC(acção psicológica) colocou o capitão muito próximo do então "terrorista".Na quadrícula,o capitão não era só chefe militar no terreno, era uma personagem com um vasto leque de missões de carácter civil.Nesse entrosamento apreendeu e aprendeu que o verdadeiro inimigo estava no Terreiro do Paço.Viu de perto, durante excessivo tempo,o que certos saudosistas, já não inebriados "com a cruz e a espada contra o sarraceno" não quiseram ver porque não arrancaram a armadura vestida nos quartéis(antigos conventos) e talhada com atributos "moralizadores,pedagógicos e cívicos" para o cumprimento de missões transcendentes ,defender uma legalidade constitucional e garantir a independência da Nação, una e indivisível.Isso substituiu o que se perdeu de "teológico"(a cruz e a espada) .Há que compreender que o " velho" militar, que tal assimilou, dificilmente possa desconstruir em si esta assimilação,sentimento, dinâmica ou vulgo "lavagem ao cérebro".A culpa não terá sido sua mas do sistema.Quase me arriscava a solicitar a condescendência..

Lembro-me de capitães e primeiros-tenentes que encontrei no Congresso do MDP/CDE em Aveiro, em Março de 1973, e dos que já antes se interrogavam, na hipótese de acção, mesmo em 1969.

Lembro-me de ter chegado a Bissau,por castigo,e de ter começado,no dia seguinte, com outros capitães,a conspirar, sem saber da existência de Decreto nenhum.Não vou negar hoje que a saída deste célebre 353/73 nos deu jeito,mas como é que ele era corporativo se só dizia respeito às Armas de Infantaria,Cavalaria e Artilharia? Foram só os capitães destas que se revoltaram?Claro que não.
Desde logo se solidarizaram outros capitães e equivalentes de outros Ramos da FFAAs.Capitães de Engenharia, Administração, Transmissões,Saúde,Material,etc...e da Marinha e Força Aérea, no sentido de em conjunto se aprofundar o que estava em causa.
E o que estava em causa?
Uma Guerra perdida politicamente,porque os políticos não estavam nem com os ventos da História nem com o povo (e deste nós, os militares de carreira, com duas,três ou mais comissões,fora do ar condicionado, cansados da mentira e da hipocrisia ...e bem assim os conscritos desmotivados e acomodados)

Enfim muito para dizer e que já é repetição.Mas as novas gerações merecem a Verdade.

Citando Alexis de Tocqville convém não esquecer que "as revoluções que triunfam fazem desaparecer as causas que as produziram e tornam-se por isso incompreensíveis para as novas gerações".

Isto para dizer que se assim for e se os episódios de Joaquim Furtado se remeterem apenas ao seu profissionalismo de contar uma «história» sem o devido enquadramento Histórico, ou seja se estiver em perigo essa Verdade e ousar-se o branqueamento do trágico erro Histórico que foi a Guerra Colonial e da ficção do Grande Império, julgo que a A25A não pode ficar calada.

É uma especulação académica,um exercício de estilo,discutir se foi Guerra do Ultramar,Guerra Colonial ou Guerra da Libertação.

Para mim foi guerra Colonial.Mas o mais importante é que foi uma guerra ordenada e mantida por um governo retrógrado, liderada por um chefe rural e retrógrado que tão mal fez a Portugal...cujos efeitos nefastos ainda hoje se sentem.

Os povos em confronto ganharam a guerra da Liberdade...mas ainda não ganhámos (lá e cá) a Guerra da Igualdade e da Fraternidade.

É aí que está um verdadeiro "NÓ GÓRDIO do século XXI.

Manuel Duran Clemente