quarta-feira, 9 de abril de 2014

DESCOLONIZAÇÃO - A Guiné, o 25 e Abril e o reconhecimento da sua independência.




DESCOLONIZAÇÃO - A Guiné, o 25 e Abril e o reconhecimento da sua independência.

I- Introdução


A ideia lançada de que a “revolta dos capitães” começou na Guiné não merece discussão. Têm tanta razão os que a defendem como os outros. A revolta começou em cada um de nós, o espaço não foi temporal nem fisicamente circunscrito a uma qualquer latitude, mas  de facto a Guiné marcou muito os militares e era ressonante o seu efeito como um vulcão de conflitos e desafios.

Efectivamente na Guiné viviam-se tempos favoráveis à  reflexão e ao debate. De forma mais aberta ou mais  reservada a contestação convivia com a humidade e o calor tropicais. Seria injusto não reconhecer a quota-parte que se deve à personalidade do General Spinola na criação desse ambiente. As  circunstâncias fizeram o resto; tornaram a colónia da Guiné um laboratório de experiências e de vivências  particulares. Muito pelo seu clima, muito pelo seu tamanho, muito pelo abandono do colonizador e bastante pela forma de actuação do PAIGC e do seu líder Amílcar Cabral, cujo pensamento nos apaixonou e guiou a partir de certa altura.

Talvez se deva considerar, como primeira pedrada no charco, na  Guiné- Bissau, a reacção e repúdio dos Oficiais do Quadro Permanente ao               “ Congresso dos Combatentes do Ultramar”. Almeida Bruno, Dias de Lima, Monge, Otelo S.Carvalho e outros, puseram ao corrente o general Spínola do descontentamento que se apoderou dos Oficiais em geral. Tratava-se dum Congresso, que mais não era do que uma encenação do governo com o aproveitamento de antigos oficiais milicianos, que desde 1961 haviam cumprido comissões militares no Ultramar. Esse descontentamento chegou a Lisboa pela via hierárquica mas não só. Chegou também a Ramalho Eanes, Hugo dos Santos e a Vasco Lourenço, que encabeçavam na Metrópole, um vasto movimento de protesto.


Quatrocentas assinaturas de Oficiais do Q.P., assinaram em Bissau, protesto idêntico ao ocorrido no Continente. Um telegrama de Bissau foi enviado para o Porto, onde se realizaria o dito evento (de 1 a 3 de Junho de 1973) assinado por Marcelino da Mata e Rebordão de Brito ( Oficiais naturais da Guiné, ambos com a “Torre e Espada” ) com o seguinte texto:
     
“ Os oficiais do Q. P. Em serviço no teatro de operações da Guiné:
1.       Não aceitam outros valores nem defendem outros interesses que não sejam os da Nação;
2.       Não reconhecem aos organizadores do I Congresso dos Combatentes do Ultramar, e portanto ao próprio Congresso, a necessária representatividade;
3.       Não participando nos trabalhos do Congresso, não admitem que pela sua não participação sejam definidas posições ou atitudes que possam ser imputadas à generalidade dos combatentes;
4.       Por todas as razões formuladas se consideram e declaram totalmente alheios às conclusões do Congresso, independentemente do seu conteúdo ou da sua expressão.”

A este propósito no seu livro “Alvorada em Abril” é com oportunidade que Otelo afirma a págs. 114: “ Esta autêntica manifestação colectiva poderia ter constituído um sério sinal de alerta para o Regime “ que conclui o parágrafo dedicado ao Congresso, dizendo ainda “ os jovens leões rugiram, mansos, a princípio. Ganhando consciência da sua força, foram deitando as garras de fora e, rugindo mais forte, lançaram-se ao ataque. A partir daí, quem poderia realmente travar o seu desenfreado galope?”.


Estava pois criado o ambiente e lavrado o terreno para o que viria a seguir.

II-A Conspiração

Na sua viagem para Bissau a 28 de Julho de 1973,Duran Clemente, viria a escrever mais tarde no livro “30 anos do 25 de Abril-Jornadas de reflexão” (edição Casa das Letras/2005):
                             
O meu companheiro de viagem e de lugar no avião, que então me levou para a Guiné , foi o Capitão Piloto-Aviador Pinto Ferreira. Ainda que contemporâneos na Academia Militar (1961/64) já não nos víamos há muitos anos. Fixava-me com olhar inquieto. Estava do lado da janela e nunca olhou o céu. Regressava após meses antes, ao seguir atrás do “Fiat” do seu comandante, Ten.Coronel Alves Brito, assistir ao desintegrar do avião em estilhas e chamas. Escapou porque ao ver o reflexo, de algo vindo do solo, guinou instintivamente o seu “Fiat” (avião-parelha) que conduzia. Foi isto que  me contou, acrescentando em desabafo: “vai ser difícil esquecer”
                                                     
Na noite do dia 29 de Julho reuniram-se os oficiais a seguir designados no Agrupamento de Transmissões, depois de jantar: Capitão Jorge Sales Golias (Eng.Transmissões)e 2º Comandante do Agrupamento de Transmissões da Guiné, Capitão Manuel Duran Clemente (Administração Militar)e 2º Comandante do Batalhão de Intendência da Guiné,Capitão Carlos Matos Gomes (Comando) e 2º Comandante do Regimento de Comandos da Guiné,Capitão Jorge Alves(Eng.FA),Capitão José Tavares Coutinho(Eng Transmissões) e Capitão Miliciano José Manuel Barroso ,sobrinho de Mário Soares, em serviço no Comando Chefe próximo do Gabinete do General  António Spínola Governador da Colónia. A reunião moveu-se pela curiosidade em ser lido o documento (exposição/requerimento) entregue por Duran Clemente à hierarquia militar (40 páginas de papel selado) e que pelo seu teor de manifesto contestatário (e pelo facto do ter distribuído em Aveiro, em 8 de Abril, pelos congressistas da Oposição Democrática, onde esteve) tinha levado aquele capitão até Bissau.

Estavam este e outros militares muito preocupados com a situação nacional e com o uso  dos oficiais do Q.P. (Quadros Permanentes).Havia a nítida noção de que estes estariam a tomar consciência, missão após missão, do logro em que os tinham metido. Mas era lento e doloroso o processo. Desta reunião resultou a criação de um “núcleo dinamizador” (António Spínola uns anos mais tarde apelidou-o de “célula soviética” no seu  Portugal sem Rumo) que nunca mais se desintegrou e funcionou curiosamente até ao dia da liberdade. Constituiria prioridade, desse núcleo, editar um documento a distribuir por todos os oficiais das FFAA, no sentido de os sensibilizar, para o que se estava a passar, nos mais diversos aspectos e sectores da vida do país. Distribuíram-se tarefas. Cada um encarregava-se de uma matéria específica.  Na reunião seguinte refletir-se-ia sobre a forma de fazer chegar a informação aos Camaradas militares, Oficiais do Q.P., onde quer que se encontrassem, nas Colónias ou na Metrópole. “Como obter os endereços de todos?” Era um dos desafios. Não foi preciso.
Graças à publicação do celebérrimo Decreto-Lei nº. 353/73 que facultava a “entrada de oficiais do Quadro Especial de Operações no Quadro Permanente através de curso intensivo na Academia Militar” os acontecimentos precipitam-se. A questão era saber aproveitar o facto. Assim o fez este núcleo dinamizador e agora, muito mais animados. Não se podia perder a oportunidade. Por isso, na segunda reunião, valeu a concentração na criatividade de acção possível para servir uma estratégia colocada em andamento. Não mais pararia.

Ainda não se conhecia bem o conteúdo do referido diploma. Constava que se aplicava às Armas operacionais de Infantaria, Artilharia e Cavalaria. E assim era. Só em meados de Agosto houve conhecimento do seu  completo teor. Até aí, bastou adivinhar qual o seu espírito para que aquele brinde fosse recebido de braços abertos.
Havia que explorar com sucesso o” tremor de terra “ que tal diploma casou no seio dos capitães. E assim foi. O núcleo entrou em acção. Promoveram-se reuniões. Espalhou-se a palavra para os Capitães reunirem na Sala de Jogos do Clube Militar.
Confortou-se a “ convocatória “ com a adesão por solidariedade (e não só) dos Capitães que mesmo não pertencendo às três Armas atingidas, deviam comparecer. Aconteceu a 17 de Agosto de 1973. Era sábado, às 16h00, lá se encontraram mais de 30 capitães.
No espaço de oito dias, efectuaram-se mais três encontros realizados no Agrupamento de Transmissões.
Resultou dessas reuniões a decisão de endereçar uma “carta-protesto”  ao Presidente da República, Presidente do Conselho, Ministro da Defesa e Exército, Ministro da Educação e     Secretário de Estado do Exército. O grupo de trabalho, encarregado de escrever o texto da mesma, foi constituído pelo recém-promovido Major A.Almeida Coimbra, Capitães J.Teixeira Branco, M.Duran Clemente e C.Matos Gomes.

Com a data de 28 de Agosto a referida  carta teve as  assinaturas de quarenta e seis Capitães, recolhidas em Bissau e nas guarnições próximas (em 66 capitães possíveis em todo o território - CTIGuiné), às quais se juntaram ainda as de  quatro subalternos (em estágio) e foram enviadas, por mão própria, através do capitão Ayala Botto, reforçando o envio por correio registado, para os destinatários a cinco de Setembro.O então Capitão Otelo Saraiva de Carvalho, pôs o seu serviço de secretariado em marcha para a tarefa de “bater a carta à máquina” em “ stencil “ (era assim, na ocasião, as fotocópias eram ainda raras) .Igualmente se encarregou  de comunicar aos Capitães, em serviço no interior, o seu conteúdo e explicar-lhes a atitude de protesto  colectivo, como afirmação frontal do nosso descontentamento.

O Almeida Coimbra iniciou então o contacto com Hugo dos Santos (em Lisboa) de quem se passou a obter informação sobre o desenvolvimento dos acontecimentos na Metrópole.
Na sua primeira informação ficamos a saber que toda a actuação prevista aqui era fortemente tocada pela legalidade, pelo menos, aparentemente. Esta,e todas as informações que iam chegando, foram lidas nas reuniões de Capitães que começaram a realizar-se periodicamente e numa das quais, ainda em Setembro, é eleita a primeira  Comissão  do Movimento de Capitães (e que daria o nome ao Movimento) (1*) ,constituída por Duran Clemente,  Matos Gomes  ,Almeida Coimbra e António Caetano ( que mais tarde seria substituído por Sousa Pinto, o quinto mais votado).O núcleo preparou a reunião. Matos Gomes que tinha vindo a Lisboa trouxera, no regresso,  alguns exemplares do recente livro de Sottomayor Cardia “Para uma Democracia Anticapitalista”. Divulgou-se nessa reunião boa parte do seu conteúdo e o acto funcionou como campanha eleitoral. Valeu a eleição de dois capitães –os mais votados (Duran Clemente e Matos Gomes) do referido “núcleo dinamizador” para a aludida comissão. E se dúvidas houvesse ficou claro como o esclarecimento político acrescentava “mais-valia” à vontade de revolta.

Entretanto soube-se da reunião de Évora/Alcáçovas  (9 de Setembro) onde se encontraram mais de 130 oficiais do Q.P que subscreveram documento semelhante. Ficámos mais tranquilos porque a manifestação colectiva se alargava a quase 200 capitães e no continente a conspiração intensificava-se.

Foi deliberado que se desse conhecimento ao Comandante Militar da existência das reuniões. Achou-se que era melhor que soubesse pelos próprios capitães descontentes. Formalmente avançaram-se motivos  profissionais como justificação. Ficou claro que só lhe era transmitido aquilo que se achasse conveniente. E assim aconteceu. Nessa primeira reunião e única que tivemos com o então Comandante Militar Brigadeiro Alberto Banazol (irmão do Ten. Cor. Luís Ataíde Banazol )  este saudou a  atitude e deu-nos a devida autorização para reunirmos na Biblioteca do Quartel-General, instalada fora deste, no Batalhão de Intendência, situado em frente ao QG em Santa Luzia/Bissau. Assim e, acredita-se, distraidamente os capitães foram autorizados a conspirar...contra o sistema. Estará bem na lembrança (dos que tomaram parte numa destas primeiras reuniões já autorizadas e em Setembro) o papel da intervenção de Salgueiro Maia, vindo de Bula a Bissau de propósito para este encontro, foi exemplar ao dar-nos uma lição clarividente de como as nossas tropas se sentiam no mato, sem solução à vista. Foi um autêntico grito de ânimo e de estímulo para o Movimento prosseguir.

No entanto o Comandante Militar foi peremptório ao reprovar expressamente a manifestação colectiva que representou o envio e teor da carta-protesto subscrita em 28 de Agosto.Para mostrar aparente solidariedade com os capitães, foi ao ponto de os convidar para um lanche ajantarado em sua própria residência, o que veio a acontecer com a comparência da esmagadora maioria dos Capitães, então disponíveis em Bissau. Tal jantar teve um final conturbado pelas intervenções acaloradas, de Otelo Saraiva de Carvalho e de Duran Clemente, não só porque, à evidência de que as “altas esferas” estavam a deixar resvalar a Guiné, para um caso semelhante ao de Goa, Damão e Diu, o Comandante Militar Brigadeiro, Alberto Banazol respondia com evasivas e não disfarçava aproveitar-se do gesto de anfitrião e de máximo superior hierárquico (no Exército) para nos anestesiar e adormecer com a retórica habitual e a fundamentação oficial do regime. A partir daí, o Comandante Militar nunca mais teve informações desta Comissão Coordenadora de Bissau, mais por desinteresse seu do que nosso. Não consta que se preocupasse muito com “ os ventos fortes “ que corriam. Talvez não nos tenha levado a sério ou lá no fundo estivesse connosco, como (até) suspeitávamos.

Convirá recordar que a 6 de Agosto de 1973 o Gen.Spinola regressara a Lisboa. Fim de missão, início de outros voos. Ficara célebre a sua frase de que “a solução na Guiné era política e não militar” enquanto Marcelo Caetano apregoava “prefiro um desastre militar a negociar com quem for”. O seu lugar de Governador e de Comando Chefe só seriam preenchidos em Setembro (dia 21) pelo General Betencourt Rodrigues. Este trouxe outra frase não menos infeliz e célebre “resistir até à exaustação dos meios”.
Três dias depois da sua chegada, a 24 de Setembro de 1973,o PAIGC declara unilateralmente a independência da Guiné-Bissau, em Madina do Boé(Gabu/sueste)de imediato reconhecida por 72 países. Ninguém, militar ou civil, ficou insensível a este acontecimento.

Através dos militares que gozavam férias na metrópole, ou dos que a esta voltavam por fim de missão (ou pelos que entretanto chegavam em início)   ou ainda através de correspondência, já com linguagem um tanto codificada, as informações iam-se cruzando entre Bissau e Lisboa. O Hugo dos Santos passou a ser o “ Pedro “ e outros heterónimos deram à luz, por precaução, mais tarde justificada. A conspiração desenvolveu-se no sentido prioritário e fulcral de angariar o maior número possível de “ adeptos para a causa do movimento “. Trabalhou-se sempre em ligação e sintonia com a “coordenadora” do Movimento de Capitães no continente. O trabalho de sensibilização e de informação foi sendo feito com método e sistema. Os resultados iam sendo, entretanto, muito gratificantes, na medida em que paulatinamente se foi conquistando para o nosso lado a maioria de Oficiais colocados em posições (de comando) estratégicas e essenciais para o que  “desse e viesse”.

A Marinha aderiu em força. Com a sua tradicional organização (meticulosa e serena) dispôs as suas pedras com todo o cuidado e aceitou o repto. Destacaram Oficiais que passaram periodicamente a reunir-se connosco, para troca de informações e análise da situação. Inicialmente os 1ºs Tenentes Marques Pinto e  Pessoa Brandão logo seguidos de Manuel Bouza Serrano, Pedro Lauret e Rosado Pinto. A Força Aérea destacou desde sempre os capitães Jorge Alves e Faria Paulino e depois Sobral Bastos e Albano Pinela (Paraquedista).Em Outubro há oportunidade de efectuar uma reunião com catorze oficiais  pilotos-aviadores do Q.P. Acompanhado de Faria Paulino, Duran Clemente tem um debate/esclarecimento com os aviadores descoroçoados. Lá estava também o companheiro dele na viagem Lisboa/Bissau, o Pinto Ferreira. O trauma da bola de fogo do companheiro perdido estaria a transformar-se iluminando as consciências. Como é sabido as acções militares da Força Aérea estavam praticamente paralisadas depois de nos primeiros meses de 1973, seis aviões entre Fiat, T-G e DO 27, terem sido abatidos, após a introdução de mísseis terra-ar Strella, na equipagem do PAIGC. Nesta reunião com os Pilotos-Aviadores, ficámos com a sensação de que quase todos, se não mesmo todos, tinham aderido ao Movimento, ou pelo menos, não lhe eram hostis. No Exército contávamos, cada vez, com mais aderentes à medida que íamos, progressivamente, com maior segurança, alargando a malha de contactos e de informações e  consolidando as estruturas organizativas  por cada unidade operacional.

Paralelamente um movimento de Oficiais milicianos foi criado e acompanhou a actividade e iniciativas possíveis da contestação e conspiração do Movimento de Capitães. Como principais mentores e dinamizadores tinham (os ex-dirigentes das associação académica de Coimbra) agora os Alferes Milicianos Barros Moura, Celso Cruzeiro e o já referido capitão Miliciano José M. Barroso, reflectindo curiosamente  três tendências políticas diferentes.

Os ânimos confortaram-se ainda mais à medida que da Metrópole iam chegando as notícias da evolução do processo. A partir de Dezembro começa-se a ver mais claro qual o sentido do Movimento, após as reuniões que na Metrópole apontavam para a mais que provável decisão de “pegar em armas” para derrubar a situação. A “profecia” que  Jorge Sales Golias lançara como repto em Agosto (na primeira reunião -)...”quem sabe se isto só se resolve pela via armada!??”…- que assustara alguns, estava mais perto de se realizar. Estavam os conspiradores convictos e preparados.
Também na Guiné foram conhecidas as três hipóteses, colocadas para reflexão (decisão) aos Capitães na reunião de Óbidos (1 de Dez ) e Caparica(5 de Dez) :
a. -Conquista do poder para com uma Junta Militar criar no país as  condições que possibilitem uma verdadeira expressão nacional;
 b. -Dar oportunidade ao governo de se legitimar perante a Nação através de eleições livres, devidamente fiscalizadas pelo Exército, precedidas de um referendo sobre a política ultramarina;
 c.-Utilizar reivindicações exclusivamente militares como forma de alcançar o prestigio do Exército e de pressão sobre o Governo.

Também soubemos, a seu tempo, da consequência do resultado do escrutínio e nele nos concentrámos para na Guiné dar o correspondente apoio como retaguarda e reforço.

A decisão de que  na Guiné  também optaríamos pela tomada de poder pelas armas já estava tomada há muito; daríamos no entanto a possibilidade  à hierarquia militar   no Comando Territorial Independente da Guiné /CTIG para se pronunciar. Quem não estivesse connosco seria devolvido a Lisboa. No caso de insucesso das operações do Movimento em Portugal a nossa estratégia era a tomada de poder na mesma. Teríamos esse trunfo para jogar na defesa das nossas convicções. Por outras palavras, constituir-nos-íamos numa grande pedra no sapato e dor de cabeça para o Governo Português, com uma Colónia sublevada. Para isso, tínhamos de ter o  completo domínio do comando em todos os Sectores e Ramos das Forças Armadas instaladas no teatro de operações da Guiné. Iríamos ter.

Conseguiu-se ter, posição de força pronta a actuar, em todas as guarnições do CTIG. No final do ano de 1973 só nos faltava o Regimento de Paraquedistas que virá a aderir em Fevereiro de 1974, após o conhecimento do conteúdo do livro “Portugal e o Futuro” do General Spínola.

 O Comandante do Batalhão de Paraquedistas, Major Mensurado, manda formar o Regimento. Faz uma palestra. Adverte os seus homens da eventual necessidade de terem de cometer uma acção de indisciplina a “Bem da Nação”. Declarou: “Quem não estiver de acordo deve dar um passo em frente”. Ninguém deu. Todos concordavam. Era a vontade dos Povos a mandar!

Mesmo assim, veio a Lisboa, com um delegado do Movimento, perguntar pessoalmente ao General Spínola se “avalizava” o seu procedimento. Regressou aliviado e mais feliz. E o movimento também, porque era uma unidade indispensável.

Antes, porém, houve de “travar” a ansiedade do Ten. Coronel Luís Ataíde Banazol ( que aqui e hoje sempre prestaremos homenagem pela sua atitude na reunião de Cascais em 24 de Nov. de 1973  )e nas duas reuniões posteriores (2*) e que ao chegar à Guiné, no final do ano de 1973, comandando o seu Batalhão – que estacionou uns dias(Janeiro/74)na guarnição do Cumeré – antes de chegar ao seu destino: Bambadinca, queria tornar o poder ocupando o Palácio do Governo da Colónia. Após aturadas reuniões connosco “ os jovens e pálidos Capitães da Guiné “, como ele se refere num dos seus livros, conseguimos dissuadi-lo. Sobre isso o Jorge Golias muito teve que contar pois chefiou a delegação do movimento que cumpriu a tarefa de o dissuadir. Tivemos oportunidade, mais tarde, de lhe prometer que seria dos primeiros a saber quando ganhássemos. E assim aconteceu. Foi imediatamente avisado na manhã de 25 de Abril.                        
                                            * * *                                                  
Voltando aos  primeiros meses do ano é de assinalar o seguinte e de forma resumida: estreitaram-se os contactos com Lisboa. Em Fevereiro Duran Clemente, vem a Lisboa para contacto com Vasco Lourenço em serviço numa unidade na Trafaria (Bat.Art).Nesse encontro foram actualizados os conhecimentos das situações. Mas da Guiné vinha um aviso firme dos seus capitães “…ou as coisas se resolvem em Portugal e depressa ou nós, capitães na Guiné, que temos tudo preparado para tomar conta da colónia, o faremos. Estamos mais que impacientes…não vamos depor as armas. Há vidas a defender. Mas tomaremos o poder e negociaremos…com quem for preciso”. Era sabido que o pessoal na Guiné estava com acentuado nervosismo, embora consciente mas impaciente, e isso tinha sido claramente clamado por Sagueiro Maia que, em Outubro antes, regressara a Lisboa e fora colocado em Santarém. Vasco Lourenço apelou para que tivéssemos serenidade e afiançou que a “acção” se daria antes do 10 de Junho. Foi esse o recado do Movimento de Capitães no continente que o mensageiro trouxe para o Movimento na Guiné.(4*)

Em 4 de Março avisamos Lisboa ( Hugo dos Santos) de que os Majores Casanova Ferreira e Manuel Monge regressavam à metrópole no dia seguinte e estavam cheios de entusiasmo e algum voluntarismo. Denotavam extrema vontade de intervir. Haveria que dar o melhor enquadramento à sua dinâmica. Otelo distraiu-se do nosso aviso ( já com Vasco Lourenço nos Açores) e ocorreu o 16 de Março. Conforme o próprio Otelo descreveria mais tarde é acossado por Casanova Ferreira, tem várias reuniões entre 12 e 15 de Março e precipitam-se à revelia do Movimento para o chamado golpe das Caldas.

[ Como nota de rodapé esclareça-se que em finais de Dezembro , estes oficiais, com mais cinco oficiais superiores entre estes o Major Rodrigues Coelho, manifestam também adesão ao Movimento. Assinaram na nossa presença uma carta enviada ao General Spínola confortando a sua decisão e colocando-se ao seu dispor na mudança.]

Marcelo Caetano continuava nas suas conversas em família a tentar convencer-nos  de que se podia fazer turismo nas nossas “províncias ultramarinas”, mesmo na Guiné!!!
O semanário “Expresso” publica excertos duma dessas conversas em família lado a lado com retalhos do livro “Portugal e o Futuro” de António Spínola.

No princípio de Abril uma Delegação de Bissau ainda esteve com o Movimento em Lisboa e recebeu as últimas informações.

III-O 25 de Abril na Guiné e a tomada de poder

Na noite de 24 para 25 de Abril aguardámos (Major Monção Fernandes, chefe do CHERET, Duran Clemente e Faria Paulino) no Centro de Comunicações do Quartel General de Bissau o contacto telefónico programado com Lisboa. Não chegou. Uma das poucas acções de retaliação da dita “Legião Portuguesa” foi o corte do cabo telefónico -na Rua de S.Marçal /Lisboa-  que servia a Guiné. No meio da nossa ansiedade lá fomos sabendo do que se passava através das agências noticiosas, France Press, Reuter e outras. Pouco a pouco as  teleimpressoras foram ditando os acontecimentos e noticiando a “Alvorada de Abril” em “inglês”, ”francês” e “português”. Exultamos. Pelas oito horas da manhã foram restabelecidos os contactos telefónicos com a capital. Imediatamente comunicámos a todos os membros da nossa coordenação o sucesso.

Aos nossos homens do Movimento colocados em todas as guarnições da Guiné, e que estavam há dias alertados, foram dadas pela Coordenação de Bissau a indicação de transmitirem aos comandos que ou aceitavam a nova “ordem nacional” ou eram imediatamente substituídos. O poder na Guiné era já e a partir daqui do MFA da Guiné. Muito poucos comandos foram afastados, pois nas guarnições a maioria eram supervisionadas por Capitães ou Majores aderentes ao Movimento quer nas próprias guarnições quer nos COPs(Comando Operacional) ou CAOPs (Comando de Agrupamento Operacional).Os contrariados, não aderentes “marcharam” para Bissau. Embarcariam para Lisboa dias depois.
Enquanto isso, propriamente no dia 25 de Abril, e em Bissau, já com todas as unidades submetidas ao Movimento,  quer o Comando Chefe quer os Comandantes Militares, não tomaram posição de adesão ao mesmo. A PIDE /DGS não se manifestou pois não tinha qualquer força sem o apoio militar embora recebesse instruções de Spínola para continuar com as suas acções normais, mesmo contra os capitães revoltados. As unidades colocaram-se em alerta, prontas a avançar: Batalhão de Comandos, Batalhão de Paraquedistas, Batalhão de Intendência, Grupo de Artilharia, Agrupamento de Transmissões e de Engenharia e outras.
 No dia 26, de manhã, avançou a Companhia de Polícia Militar, comandada pelo capitão Sousa Pinto, que tomou pacificamente as instalações do Comando Chefe dando apoio a uma delegação do Movimento, composta por alguns oficiais da comissão coordenadora (J.Golias, M.Gomes e P. Brandão) e sobretudo com oficiais de impacto, como os Comandantes do R.Comandos (Major Folques) e o do R.Paraquedistas (Major Mensurado) e bem assim do Tenente-coronel Mateus da Siva que decidíramos iria ser o representante provisório da JSN. Foi interpelado o Comando Chefe Gen. Betencourt Rodrigues, que entretanto reunira todos os seus oficiais e aos quais se dirigiu “ vencido mas não convencido “. Ficou à nossa disposição e com outros oficiais que foram seleccionados como não tendo aderido aos novos ventos da história, foram  “ convidados “  a seguir, uns dias depois, por avião para Lisboa.

O MFA, antecipando-se a procedimentos tomados no continente, colocou o Comodoro Almeida Brandão como Comandante-chefe (Interino) e, como já referido, o Tenente-Coronel Eng.Transmissões, Mateus da Silva, como representante “provisório” da JSN/ Junta de Salvação Nacional, até 7 de Maio, quando chegou o Tenente Coronel Carlos Fabião.

De Bissau partimos junto dos quatro cantos da colónia para explicar aos militares o ponto de situação e consolidarmos a manutenção da disciplina e das novas hierarquias tendo por base as delegações do MFA. Estas, já em embrião, seriam constituídas por um capitão, um representante dos sargentos e outro das praças, militares a serem confirmados em eleições. Quisemos reforçá-la instituindo regras de democratização no seio do MFA e começando a editar poucos dias depois um Boletim do MFA com notícias e orientações militares. Foram também publicadas normas especiais para os procedimentos a ter em sintonia com a coordenação de Bissau na tentativa, com sucesso, da institucionalização do MFA. E assim evitámos problemas maiores de disciplina ou qualquer outra natureza.

IV- A Descolonização e reconhecimento da Independência da Guiné-Bissau

Carlos Fabião, graduado em Brigadeiro passou a ocupar o topo da hierarquia militar e governativa  na ainda oficialmente considerada “província ultramarina”. Desde a sua chegada, Carlos Fabião, surpreendentemente e contra o que se esperaria dum oficial tido como “spinolista” (e que levaria na sua bagagem directivas de Spínola), não mais deixa de colaborar com os militares do MFA local. Talvez se surpreendesse porque ao chegar a Bissau, ainda no aeroporto e num discurso de circunstância declarou à rádio: “por uma Guiné melhor num Portugal renovado”. Chegados ao Palácio do Governo, os “capitães de Abril”(MFA-Guiné), após acesa discussão com Carlos Fabião a este foi dito «a Guiné sua conhecida já não era a Guiné actual». Nesta conversa, até de madrugada, Fabião acabaria por reconhecer que se enganara e queria ter dito: ”por uma Guiné melhor e um Portugal renovado”.
A sintonia iniciou-se depois deste episódio marcante. O MFA local constituído em Comissão Coordenadora, agora mais alargada, já integrava também oficiais da Armada e Força Aérea. Constituíam-na, da primeira hora, os Major Almeida Coimbra, Capitães: Jorge Golias, Duran Clemente, Matos Gomes e Sousa Pinto, com os oficiais da Armada, os Primeiros-Tenentes: Pessoa Brandão, Marques Pinto, Bouza Serrano e Rosado Pinto e com os Capitães da Força Aérea: Francisco Paulino, Victor Alves, Sobral Bastos e Albano Pinela. Ficaram permanentemente no gabinete do Governador Almeida Coimbra e Jorge Golias pelo Exército, Faria Paulino pela Força Aérea e Pessoa Brandão pela Marinha.

 No fundo esta comissão alargada, era constituída pelos militares, que desde Setembro de 1973 tinham operado e dirigido clandestinamente todas as acções. Do movimento de Milicianos, que se erguera paralelamente com o desenvolvimento do MFA, intitulado de “Movimento Para a Paz”, apraz destacar a importante contribuição de Barros Moura e de Celso Cruzeiro (Advogados e Alferes Milicianos) na colaboração para soluções e acções subsequentes e na assistência também ao novo Governador.(3*)


Todos os fins de tarde e durante mais de duas horas havia reunião com Carlos Fabião no Palácio do Governo. E isto perdurou bastante tempo mas muito aprendemos sobre os meandros da colónia trespassada a pé por aquele brioso oficial superior. Tinha sido instrutor de muitos guerrilheiros, enquanto militares das nossas tropas/NT .Dominava à vontade o “crioulo”e conhecia o terreno palmo a palmo.

Um dos primeiros problemas que tivemos de resolver, contrariando Spínola, em paralelo com a libertação dos presos políticos (na ilha das Galinhas) foi a detenção, mas também segurança, dos membros da PIDE, perante as ameaças de linchamento pela população. Houve manifestações e ameaças mas conseguiu-se controlar a justa causa popular colocando-os a salvo e guardados no Campo de Instrução Militar do Cumeré a quilómetros da capital. A JSN/Junta de Salvação Nacional queria que fossem integrados nos serviços de informações militares, o MFA na Guiné entendeu não haver condições para tal.
O jornal do sistema “A Voz da Guiné” e a sua empresa editora passaram a ser geridos por oficiais do MFA (Duran Clemente e Jorge Alves) e constituiu um excelente meio de esclarecimento ao longo de cinco meses, mudando de cor e de conteúdos.

No plano Politico aguardava-se que o General Spínola, o novo Governo português e o MFA nacional desbloqueassem a questão delicada de a Guiné-Bissau já se ter autodeclarado independente em 24 de Setembro de 1973.Felizmente as operações no mato foram suspensas depois do PAIGC estar certo das intenções revolucionárias do MFA.E não tardou muito que no ainda escaldante teatro de operações  os antigos inimigos de armas começassem a festejar, em conjunto, o fim da guerra e a libertação.

Face às hesitações de Spínola, Carlos Fabião não receia ter um encontro clandestino com acreditados representantes do PAIGC. Encontros realizados em plena mata do Cantanhês guineense e que foram o advento do que acabaria por ser decidido. Foi um gesto patriótico pois não mais se entenderia que houvesse mortos após a alvorada de Abril.

O General Spínola teimava em deslocar-se a Bissau na esperança de realizar um dos seus Congressos do Povo. Chegou a enviar-nos mais de 20 mil cartazes/fotografias suas. Acabou por ser contrariada tamanha insensatez. No entanto enquanto pôde gastou todas as suas munições contra o MFA da Guiné. O General mandou encerrar o jornal Voz da Guiné por não lhe agradar a linha editorial. Carlos Fabião não obedeceu a essa orientação. O General expulsou, em Agosto, um prestigiado jornalista (Joaquim Letria) da RTP por este ter feito uma entrevista (a Duran Clemente, Jorge Alves, Barros Moura e Rosado Pinto) que passara entretanto na televisão nacional com enorme audiência. Spínola convence o CEMGFA, General Costa Gomes, de que certos oficiais na Guiné estavam a contrariar as ordens da JSN e resolveu acrescentar que deviam ser punidos por “alta traição”. Chamou a Lisboa estes oficiais e os que considerava mais perigosos para serem ouvidos e repreendidos. Carlos Fabião só permitiu a deslocação a Lisboa de Jorge Golias, Jorge Alves, Bouzas Serrano e Barros Moura. Vieram e enfrentaram Costa Gomes (CEMGFA) num interrogatório intermitente de uma semana. Este perante a excelente argumentação apresentada, sobretudo por Barros Moura, decidiu mandá-los regressar em paz a Bissau para cumprirem a missão. Despediu-se, com algumas afirmações de louvor e de encorajamento pelas acções cometidas até então.

Entretanto tinham decorrido os encontros de Dakar (16 de Maio/74), de Londres (25 a 30 de Maio/74) e de Argel (14 de Junho/74), entre delegações portuguesas e da Guiné-Bissau, ao mais alto nível e acompanhadas de oficiais do MFA nacional. Melo Antunes, acompanhado de Almada Contreiras e Pereira Pinto, vai a Bissau e tem reuniões preocupantes connosco; isto no princípio de Junho. Depara-se com a manifestação do nosso desagrado por não termos sido convidados para as reuniões essenciais de Dakar, Londres e de Argel. Enfrenta a nossa ainda mais forte resistência por não entendermos a dificuldade do reconhecimento “oficial de jure” da independência de uma nação já independente e reconhecida por cerca duma centena de países. A situação era “kafkiana”! Em Bissau realizou-se, em 1 de Julho, uma Assembleia com mais de mil militares afectos ao MFA, em que foi aprovada uma moção “exigindo o reconhecimento imediato da independência da Guiné e a preparação da transferência de poderes”. Mas esta nossa pressão e a, não menos válida, de todas as entidades progressistas, nacionais e internacionais, acabaram por ter o seu efeito com a difícil promulgação do Decreto-Lei 7/74 de 27 de Julho pelo então PR, que acabará por clarificar o Programa do MFA e reconhecer o direito das colónias à independência, derrogando o artigo 1º da Constituição Política de 1933. Em 4 de Agosto é publicado o importante comunicado conjunto Portugal-ONU sobre a descolonização das colónias portuguesas. Para além do compromisso do governo português na cooperação com as Nações Unidas (ponto 1), na reafirmação do reconhecimento à auto determinação e independência de todos os territórios ultramarinos …comprometendo-se a garantir plenamente a unidade e integridade de cada território… (ponto 2) ,no concernente à Guiné, no seu ponto 3), a)”O Governo português está pronto a reconhecer a República da Guiné-Bissau como Estado independente e está disposto a celebrar imediatamente acordos com a República da Guiné-Bissau para a transferência imediata da administração; b)Nestes termos, dará completo apoio ao pedido de admissão da Guiné-Bissau como membro das Nações Unidas (…).Nos restantes pontos são individualizados os compromissos relativamente à autodeterminação e independência de cada uma das restantes colónias. Em 30 de Agosto é homologado o acordo de Argel assinado com o PAIGC.

Finalmente em 10 de Setembro é assinada pelo PR, acompanhado pelo Governo de Vasco Gonçalves e pelo MFA nacional, a declaração do reconhecimento “de jure” do Estado da Guiné-Bissau.

Na Guiné tudo se foi planificando em perfeita harmonia e diálogo com o PAIGC .Este foi nomeando os seus interlocutores para a concretização dos actos de transferência operados em Agosto e Setembro de forma faseada. As transmissões de poderes foram feitas, região a região, e decorreram sem incidentes e com a maior das dignidades até 15 de Outubro, data do regresso de Carlos Fabião (e das nossa ultimas tropas) a Lisboa.
Teve relevância especial a transmissão de poderes em Cacine, onde os militares portugueses assistiram pela primeira vez a filmes sobre o 25 de Abril facultados pelo PAIGC.E onde depois das cerimónias realizadas com toda a dignidade, em que com escoltas, de tropas portuguesas e dos guerrilheiros, se descerrou a Bandeira de Portugal e se içou a bandeira da Guiné-Bissau. A seguir houve um almoço (bacalhau à Brás) numa das lanchas da nossa Armada com militares dum lado e de outro.

Nesses meses, também o regresso dos nossos militares, por avião ou barco, foi devidamente planeado e concretizou-se sem qualquer atrito. Os poucos portugueses e outros, sobretudo comerciantes libaneses, com vida firmada na colónia nela continuaram. Não obstante alguns ligeiros actos de perturbação pouco sentidos, com raízes nas diferenças étnicas e na reivindicação de grupos políticos a um estatuto igual ao PAIGC que lutara onze anos, nada de gravoso se passou, sempre com o nosso controlo e a melhor das colaborações dos altos dirigentes do PAIGC que se iam apresentando nas cidades transferidas e em Bissau. Destacam-se Juvêncio Gomes( futuro comissário da câmara de Bissau), Manuel dos Santos (Comissário da Informação), Barros, A. Alcântara Buscardine (Comissário da Segurança) e Comandante Julinho(Comissário Militar) para além dum grupo de jovens simpatizantes do PAIGC, constituídos na CJUPP, que nos ajudaram na capital.

Em 24 de Setembro deste ano de 1974, o PAIGC, com notável esforço de organização, comemorou o seu primeiro ano de Independência, em Madina do Boé, com a presença de centenas de convidados, num grandioso desfile de diversas organizações internas do PAIGC, cerimónia inesquecível a que alguns de nós (capitães de Abril) assistiríamos como convidados. Para além do Presidente da OUA, Organização da Unidade Africana, estiveram presentes Presidentes ou representantes de vários Estados Independentes Africanos e bem assim delegações amigas de países ou de organizações politicas cujas intervenções ecoaram a um sublime grito de Libertação. Por Portugal esteve Almeida Santos (PS),Jorge Campinos (PS),Dias Lourenço (PCP), Carlos Fabião (Governador/JSN) e Hugo dos Santos, Duran Clemente e Faria Paulino representando o MFA. Entre outros presentes, é digno também destacar, o investigador e musicólogo Michel Giacometti.

Na sala redonda da construção localizada no preciso sítio da declaração de independência, um ano atrás, tendo por pano de fundo uma enorme fotografia de Amilcar Cabral, realizou-se uma conferência de imprensa dada por Manuel dos Santos, comissário da informação, e por Luís Cabral, Presidente do Estado da Guiné Bissau.

Nessa tarde, de céu quente mas transparente, as pequenas aves africanas desenharam, com nitidez, lá no alto: “Cabral ka muri” (Cabral não morreu).
E nós destaparemos esta e outras memórias com a Liberdade de Abril e do nosso Abril de sempre!

 “Regressámos a Lisboa em 29 de Setembro de 1974 e integrámos de imediato a 5ª Divisão do EMGFA, assim como aconteceu ou aconteceria com Jorge Alves, Bouzas Serrano e Jorge Golias. Missão Cumprida” é o último apontamento, rabiscado nas folhas amarelecidas do tempo eterno: passado, presente e futuro, guardadas pelo subscritor deste texto de muitos dos factos vividos na primeira pessoa.

Manuel Duran Clemente,Coronel Ref --  «Capitão de Abril»

Notas

 (1*)- Movimento de Capitães, ver declaração de Vasco Lourenço, “… na Guiné, ter sido feito um documento assinado por cinquenta e um oficiais e enviado para «cima». Aliás, é ai que nasce a denominação Movimento dos Capitães(nº112-/2014-Referencial)

 (2*)- Ver “Uma pedrada no charco” em Folha Informativa nº 4 da ACR de Janeiro de 2014:Na noite de 24 de Novembro de 1973, quarenta Capitães de Abril, reuniram-se numa casa em São Pedro do Estoril.  Um momento que em particular incendiou de forma irreversível o MFA foi a intervenção do Tenente Coronel Luís Atayde Banazol .Reproduzimos o que merece registo histórico: “… creio que estão a perder o que têm de bom: energia e tempo, organização e vontade.”… “O que vocês estão e todos nós, é agonizantes”…”Estrangulados por um regime que nos conduz para o abismo, para a derrocada, como o têm feito todos os regimes fascistas…” “…é preciso acabarmos de vez com a maldita guerra colonial, que nos consome tudo…, incluindo a própria dignidade de militares profissionais de uma país civilizado. lançados, por um tenebroso conluio, hipócrita e assassínio”...”E nós, que representamos a força das armas, por que esperamos?”…” vemos todos os dias  exemplos de coragem dos universitários que desarmados, enfrentam a polícia de choque, e não deixam amortecer um só dia a luta pela Liberdade.”…” Impõe-se a Revolução Armada desde já, seja qual for o seu preço e as suas consequências. “

 (3*)-Não obstante a acção corajosa e correcta destes oficiais do MFA da Guiné a nenhum deles foi atribuída a Ordem da Liberdade. Mesmo Carlos Fabião só passados 30 anos (em 2004) recebeu esta distinção.   

(4*)A acção de revolta na Guiné constituiria um plano B, no caso de as operações falharem na Metrópole.Só uns anos mais tarde Victor Alves revela isso em entrevista ao Expresso.

NOTAS de Junho de 2017 :

(a)- Amílcar foi importante para toda a gente e para todos os militares que iam rodando de colónia para colónia.Não teve acção directa na organização do nosso movimento...mas de todos os homens e actos que contribuíram para a consciencialização dos militares de quem era o verdadeiro inimigo ,isto é,era o governo português e não os portugueses, Amílcar tem posição cimeira e o tamanho e facilidade de contactos na Guiné são aspectos que nós referimos.Não é por acaso que a celebre acção psicológica (Apsico) tem um efeito boomerang...´nós dizíamos estar por bem eles perguntavam-nos ...onde se notava isso???Muito a desenvolver sobre estas matérias, sem esquecer a acção dos portugueses patriotas e outros cidadãos do mundo que morreram,lutaram e foram também dignatários em matéria de esclarecimento e consciencialização da verdade que estava em causa : o colonialismo e os seus tentáculos.... MDC
(b)-Sobre comentários de Carlos Matos Gomes que merecem o meu acordo mas aos quais acrescentei, na minha página do Face Book ,o seguinte:Podes dizer que participaste de forma modesta nesta obra mas tu e alguns de nós participámos de forma bem activa nos acontecimentos entre Maio/Junho de 1973 e 24 de Setembro de 1974.Não tenhamos pois "falsa modéstia" em revelar isso que tem sido atirado para o lado por algumas posições individualistas ou sectárias da realidade ....Até que o Jorge Golias ,outro dos principais actores,decidiu e bem dar à luz esta indispensável história dos acontecimentos que bem nos marcou.Abraço Matos Gomes.MDC.
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Mas antes da descolonização há a nossa acção no próprio Movimento de Capitães da Guiné (futuro) MFA durante quase um ano antes do 25 de Abril.E sobre isso até o Jorge Golias fala pouco porque a sua acção se desenrola mais a partir do 25 de Abril e da chegada de Carlos Fabião, a partir daí a única Comissão de Capitães eleita em Agosto de 1973( 1 Major,recente, e 3 capitães do Exército)(*) dá lugar a três comissões (cada uma por ramos: Exercito,Marinha e F.A) e a uma Central porque tínhamos de tratar da descolonização formal dum país já independente e reconhecido por quase 100 países desde 24 de setembro de 1973...setenta e três.MDC.
(*) Major  Almeida Coimbra;Capitães Duran Clemente;Matos Gomes e Sousa Pinto(este é hoje General) ver revista da LUSA e livro "Alvorada em Abril" de O.S,Carvalho .


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quinta-feira, 20 de março de 2014

ESTE PAÍS TAMBÉM É PARA VELHOS

"Este país também é para velhos ! ” Homenagem de hoje- 19 de Março- ao meu pai e a todos os pais de Abril.


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"Este país também é para velhos ! ” 

«Este país não é para velhos» tradução er
rada dum autor americano que deu à luz uma obra recentemente transformada num filme, muito badalado. Fui ver. Não gostei. O título com tradução correcta seria “este país já não é o que era».Refere-se a uma certa América. Continuaria a não gostar dele, mas talvez o entendesse melhor.

O meu título refere-se a Portugal. Mais, refere-se à nossa essência de Portugal de Abril. Explicarei porquê!
Sou um vaidoso. Às vezes dizem ou insinuam que terei alguma sede de protagonismo. Já me deram tantas explicações para estes males. Nenhum remédio. Desculpo-me tantas vezes comigo próprio...Que serei vaidoso pelas coisas boas, por muitos anos de falta de auto-estima, e por desconfiar de ter sido sempre o primeiro classificado dos meus cursos e não achar que o merecia .

Media o mundo por mim e a minha bitola era exponencialmente mais exigente do que a dele. Afinal não era preciso ser como eu queria. Bastava que fosse como ele (o mundo) queria ou precisasse que eu fosse para com ele !
Super-ego a mais, dirão os especialistas.


Mas isto deu-me pancada forte. Vaidade e protagonismo para quê?! São tudo balelas!? Procura-se remédio...

Caíram-me umas folhas dum baú. Um manuscrito de duas folhas datadas de 27 de Fevereiro de 2003 e escritas por um idoso que iria fazer 89 anos no então ,próximo, dia 13 do mês de Abril.

Nesse dia a sua irmã mais velha festejava 100 anos.

A partir daqui as palavras são suas.

«Excelentíssimo Senhror Presidente da Santa Casa da Misericórdia do Fundão e seus colaboradores. Minhas Senhoras e meus Senhores.»

«Como irmão mais novo presente e ainda vivo, venho agradecer a Vossas Excelências, primeiro as palavras neste momento de homenagem à minha irmã e em segundo lugar por terem organizado este evento no dia em que se comemoram as suas cem risonhas Primaveras.»

«A família S.C. da Capinha, era constituída ,além dos pais, por cinco irmãos, sendo a homenageada a mais velha que para os mais novos era considerada uma segunda mãe, porque os pais devido à labuta, fora de casa, era a esta a quem entregavam o cuidado dos irmãos mais novos, ao ponto de nunca poder ter frequentado a escola e por isso ela se queixava de todos saberem ler e ela ser analfabeta.»

«Esta nossa irmã era uma rapariga muito bonita e por isso todos os rapazes do seu tempo a queriam namorar mas a nossa mãe não a deixava dançar no baile, que aos domingos, se realizava no adro da Igreja da Capinha. Por isso eu (o mais novo e único irmão masculino) tinha como missão avisá-la quando a nossa mãe saía de casa, próximo do largo, com um pau debaixo do avental para lhe bater se a apanhasse a dançar, por já saber desse seu gosto.»

«Como era também um cantadeira como poucas, pela altura da Quaresma, na procissão do enterro do Senhor, que se realizava cerca da meia-noite da Quinta-Feira Santa, os promotores das cerimónias escolhiam-na sempre para cantar no papel da Verónica da história bíblica. Ela fazia esse papel com um melodia inexcedível.»

«Quando lhe arranjaram namoro, para casar, com aquele rapaz desta terra (Peroviseu) que veio a ser seu marido, os rapazes da Capinha obrigaram este a pagar-lhes um monte de pão de trigo de quatro quartos, da altura do namorado e ainda um presunto e três almudes de vinho, para se vingarem de terem perdido a rapariga mais bonita da sua terra.»

« Foi sempre uma grande amiga dos seus irmãos. Por exemplo. Eu fui contemplado com o pagamento dos livros que precisei para me matricular na Escola Industrial e Comercial da Covilhã, onde também trabalhava, mas onde ela ía todos os sábados, montada num animal, com dois cestos de azeitona para vender na praça daquela cidade.»

«Também depois da irmã Natividade (terceira na idade) ter casado no Fundão, resultando desse casamento o nascimento de dois filhos, o Fernando e o Joaquim António, e esta nossa irmã ter negócios de culinária e venda de roupas que confeccionava, esta nossa mana Maria ía a todas as feiras e romarias vender aqueles produtos para auxiliar a irmã e ao regressar depois das vendas, apresentava já as contas feitas. Mentalmente apresentava as receitas e os custos como se fosse uma letrada.»

«Também por alturas dos festejos de Santa Lúzia ,o meu cunhado, num carro de bois, pedia-me para lhe escrever um letreiro “Só se vende um copo de vinho a quem comprar um passarinho”. Esse meu cunhado mandava preparar “taralhões” e pendurava-os no tampo da pipa e era a mana Maria que seguia a pé, a tràs do carro, a vender os copos de vinho pelo caminho. Ao chegarem à romaria de Santa Lúzia já o vinho e os pássaros estavam vendidos e por isso mandavam regressar ao Fundão o “ganhão” com o carro e a pipa já vazia.»

«Já referi que ela era muito cantadeira e isso era de facto uma constante até mesmo nos trabalhos agrícolas. De quando eu era novato há umas cantigas que me ficaram no ouvido.»

« Senhora Santa Lúzia/ Minha Senhora tão bela/Com a Vossa ajuda no caminho/Estamos a chegar à Vossa Capela.»

«A terra da Beira-Baixa/É de todas a mais bela/A dar castanhas e azeitonas/Não há outra como ela.»

«O comboio da Beira-Baixa/Tem 24 janelas/Mais abaixo,mais acima/Meu amor vai numa delas.»

«Agora só me resta pedir desculpa pelo tempo que vos tomei, desejando que todos os presentes cheguem a esta bonita idade de gozar as cem risonhas Primaveras tal qual a minha irmã e segunda mãe,a qual é ainda o orgulho de três filhos, dez netos, quatorze bisnetos e cinco trinetos.A todos um bem-haja muito grato e que Deus vos pague este sacrifício que fizestes por vir a esta bela freguesia da Peroviseu.»

O autor destas palavras viveu entre nós mais quase quatro anos. Não chegou, para si, os votos que fez para os então presentes: atingirem as “risonhas cem Primaveras”.
Mas teve sempre muito orgulho no caminho que fez caminhando...e nas sementes deitadas a campo...

Ela a irmã fez no passado 27 de Fevereiro 105 “risonhas Primaveras”, provando que este país de Abril também é para velhos como foi, também, com estes velhos que cresceu e se libertou.

E que será com os novos e velhos ,do Minho ao Algarve, que acabaremos por construir, as peças por fazer, do Abril , que todos queremos.

Como poderá um humilde cidadão deixar de ser vaidoso?
Basta não esquecer as origens...e se puder olhar todas as noites para a estrela Polar. Mesmo em noites de névoa ou nevoeiro ela está lá.

Manuel Duran Clemente

5 de Abril/2008

(este cidadão idoso era meu PAI -António dos Santos Clemente e a sua irmã minha tia,Maria de Jesus)

terça-feira, 18 de março de 2014

Ainda …o 16 de Março contado por Otelo Saraiva de Carvalho.

Ainda …o 16 de Março contado por Otelo Saraiva de Carvalho.



Nos 30 Anos do 25 de Abril realizaram-se jornadas de Reflexão, em Oeiras .Durante o dia de 25 de Março de 2004 no Teatro Eunice Muñoz, houve três sessões, como os  seguintes temas e intervenientes.:

1 º Painel-Conspiração-Vasco Lourenço, Duran Clemente e Aprígio Gonçalves.
2 º Painel-Acção Militar-Otelo Saraiva de Carvalho, Garcia dos Santos e Costa Neves
3 º Painel-Pós-25 de Abril- Victor Alves, António Reis e Romano Pires

Descrevo isto, para esclarecimento de alguns,para quem esta "operação"ainda é um mistério, o que sobre o 16 de Março foi relatado por Otelo Saraiva de Carvalho, gravado e transposto  no Livro: "OS 30 ANOS DO 25 DE ABRIL", editado pela Casa das Letras (ex-Editorial de Noticias): [ MDC]

Página 92 ,​​Linha 15
Diz Otelo: "Falar sobre a acção do 25 de Abril é um pouco como as telenovelas: um episodio começa  sempre com cenas do episódio  anterior. E eu, assim, vou repegar na questão do 16 de Março. De facto, eu estive no 16 de Março. O coronel Marques Ramos dizia que devia estar na mesa alguém que tivesse participado no 16 de Março. E AQUI ESTOU EU "...

" Vou retomar duas intervenções: uma do Manuel Duran Clemente e outra do  José Novo.”

“O Duran Clemente disse-nos que, na Guiné, quando se deu a despedida dos então majores Casanova Ferreira e Monge, o pessoal da Guiné ficou com uma absoluta convicção de que eles regressavam a  Lisboa para fazer qualquer coisa, para levar por diante uma acção, de que vinham com essa ideia fisgada, de que as coisas estavam muito paradas e era preciso  agir. "

Página 93,Linha 7

Diz Otelo : "A questão que foi colocada por Duran Clemente dá-nos  outra justificação para o 16 de Março: tendo regressado da Guiné, de facto, com a ambição de fazer qualquer coisa, de romper com um situação, o Casanova Ferreira  vai exercer sobre MIM UMA PRESSÃO ENORME  "...

Entre a pagina 93 e a página 99 (vou fazer um resumo do que é dito de mais importante):

Otelo conta das reuniões em casa de Casanova Ferreira, primeiro no Algueirão, no dia 12 de Março, com tenentes e oficiais das Escolas Práticas e outros do RI5-Caldas e do RALIS-Lisboa. Depois  e já à tarde na casa do Casanova mas de Lisboa .... "alinhámos num folhinha de papel A5, uma pequena Ordem de Operações(!) em que intervinham quase só as Escolas Práticas .. Não havia transmissões, não havia nada. "
Então, continua dizendo Otelo: na sequência dessa reunião arrancou,no dias seguinte, para Santarém ... Teve uma reunião em Casa do Capitão Bernardo. Este interrogou? "A ordem vem assinada pelo general Spínola?” Perante uma resposta negativa, respondeu: “Ah então nós, Escola Prática, não entramos, fica já ponto assente.” (Salgueiro Maia estava de Serviço no aquartelamento).

Mais é ainda referido por Otelo: n'uma reunião, ainda ao fim dessa tarde no Dafundo com representantes do Corpo de Paraquedistas, com a presença de Garcia dos Santos e Moreira Azevedo,o paraquedista capitão Avelar de Sousa perante a má qualidade da Ordem de Operações acabou por também se recusar a avançar.

Otelo, acaba esta parte, dizendo: "posto isto parecia  termos desistido, mas não."

Depois  da exoneração de Costa Gomes e António Spínola  (14 de Março) são desafiados por Lamego (CIOE). O capitão Ferreira da Silva afirma “vamos avançar sobre o Porto”.

Então Casanova Ferreira dá ordens. Manda Otelo arranjar tropas em  Mafra (EPI) e em Vendas Novas (EPA). Estando Presente o major Marques Ramos (que nesta sessão, trinta anos depois, manifestou a sua indignação contra a forma como estas acções foram planeadas).Diz-lhe Casanova: “tens malta amiga no RI5/Regimento das Caldas ficas incumbido de ir lá e trazer uma coluna”. Por sua vez Casanova prontifica-se ir a Santarém e trazer outra companhia. Manuel Monge ficaria em Lisboa como coordenador das acções…pelo telefone ...

Conta Otelo: "despedimo-nos e arrancámos ...."

“Rumei a casa do Victor Alves, (da Direcção Operacional do MFA) pois o Vasco Lourenço já estava nos Açores, e expliquei-lhe a situação. O Victor Alves ficou alarmadíssimo e disparou “ISSO É UMA BRONCA “.” Mas Como é que isso pode acontecer assim à revelia do Movimento? "  …” Isso é uma bronca" ...

"E eu" ... (Diz Otelo) ... "Pois é mas eu estou metido nisto até aos gorgomilos, paciência, vou arrancar nesta aventura e vamos ver o que isto vai dar? ..."

************

QUEREM QUE CONTE MAIS? Pergunto agora eu, [MDC]

Não Vale a pena o resto é o que se sabe e é mais ou menos público ... na EPI-Mafra ,Otelo  não encontrou tropas, e na EPA-Vendas Novas  a mesma coisa.. Era fim de semana .
Casanova não teve melhores resultados. Também ninguém o satisfez em Santarém.

Só saiu o RI5/Regimento de Infantaria nº 5 das Caldas da Rainha chegando quase à portagem da AE de Lisboa. Para onde Otelo terá ainda tentado dirigir-se para evitar mais sarilhos. Foi em vão.

PARA QUEM TENHA DÚVIDAS O MELHOR É COMPRAR ESTE LIVRO OU PEDI-LO EMPRESTADO .

Justificação esfarrapada ou talvez não : impedir a exoneração de Costa Gomes e Spínola ... que até já tinham sido exonerados ... a 14 de Março. Ou recolocá-los nos seus lugares de chefia anteriores.

 * Manuel Duran Clemente [MDC] (citações do Livro E COMENTÁRIOS MEUS)



domingo, 9 de março de 2014

Há 40 anos O rigor Histórico

Há 40 anos    O rigor Histórico
·         `   * Manuel Duran Clemente

ACABO DE LER O EDITORIAL do último
O Referencial.(Revista da A25A de Jul-Set nº 111) 

Nos primeirosparágrafos pude ver:
“A verdade é que a dinâmica do Monte
Sobral rapidamente se estendeu às
colónias e, em Portugal, na Guiné, em
Angola, em Moçambique, nas primeiras
reuniões que se seguiram e sem que
houvesse contactos ou posições concertadas,
surgiram intervenções que
iniludivelmente apelavam à politização
do movimento contra a ditadura…”.

Este excerto faz parte do texto integral do referido editorial e sobre ele só
poderei estar de acordo e subscrever o seu justo espírito. Já não posso concordar
com a frase e “rapidamente se estendeu às colónias” quando todos (!)
sabemos e sem qualquer esgar competitivo, mas em abono do rigor, que
assim não foi ou se foi assim (porque a frase é ambígua) é preciso ser claro
que na Guiné já tinha havido, antes de 9 de Setembro, seis reuniões onde,
além do documento de objecção colectiva preparado, assinado por 51 oficiais
e enviado (entre 16 e 28 de Agosto), se apelara à politização do movimento
contra a ditadura e onde já se constituíra uma Comissão de Capitães (*). E contactos,
entre Bissau e Lisboa, houve suficientes, tanto que, disse quem sabe,
o documento assinado por 136 militares no Monte Sobral tinha entre os outros
mais nobres objectivos também o da solidariedade para com os 51 militares
que assinaram o documento de Bissau, aliás referido nas “memórias de Marcelo
Caetano” que reza mais ou menos isto:”quando li o documento assinado pelos
capitães em guerra na Guiné fiquei muito preocupado”.
Na Guiné ficamos gratos e satisfeitos com o evento e gesto de Alcáçovas, não
só por sabermos que 136 militares tinham (publicamente) engrossado a sublevação,
pois era um acto de indisciplina quaisquer subscrições colectivas, como
e principalmente constatarmos o recrudescer da contestação e da consciencialização
dos camaradas oficiais, exactamente onde elas poderia ser
profícuas, no então Continente. Sendo assim julgo que o texto do edi -
torial podia ser mais claro ou abrangente.
A esse propósito daria o meu contributo (e de quantos oficiais estiveram neste
acto na Guiné), contributo que poderia ser uma outra versão mais assertiva,
ainda que condicionada a poucos caracteres, transcrevo um texto da minha
autoria, há meses publicado:
****
MFA. Capitães iniciam contestação,
prólogo da revolta
Estamos em 1973. Decorre o décimo segundo ano da guerra colonial. O fascismo
teima no “orgulhosamente sós” contra os ventos da História. O colonialismo
fenece. As grandes potências cedem aos direitos conquistados pelos
povos oprimidos. Fruto das lutas antifascistas e do movimento internacional
ergue-se a consciencialização libertadora Os capitães estão fartos da guerra, da
mentira e da hipocrisia. Descobrem que o inimigo não está na mata tropical
mas nas altas hierarquias. Em Junho, a primeira manifestação de militares
traduz-se pelo repúdio, ao “congresso dos combatentes” no Porto. Encenação
fascista para perpetuar a guerra. Oficiais de carreira rejeitam tal farsa e protestam
em Bissau e no Continente. Não muito depois a contestação na Guiné-Bissau
agudiza-se. Em Agosto é enviado às mais altas patentes, governamentais
e militares, um documento de objecção colectiva, subscrito por meia centena
de capitães – acto marcante de sublevação disciplinar. Assim se inicia a
preparação para a revolta, convergindo na célebre reunião dos 136 capitães e
subalternos em Alcáçovas/Évora a 9 de Setembro. A gestação para a alvorada
da Liberdade levaria, curiosamente, pouco menos de nove meses.
*****
O Referencial da nossa A25A é uma das referências mais saudáveis dos
militares associados ao Movimento de Capitães e depois MFA. Têm sido inegáveis
os contributos doados, desde sempre, à verdade e dignidade do Movimento
e da Revolução, quer nas atitudes quer nos escritos.

Relativamente o meu reparo, relembro que revejam a página 132 do livro a “Alvorada
em Abril” de Otelo Saraiva de Carvalho, que esteve em Bissau no início
deste processo. Igualmente do “Diário da Liberdade” de Aniceto Afonso a páginas
278 e 281.E bem assim do livro “Origem e Evolução do Movimento de
Capitães” de Diniz de Almeida a páginas 410 e 411 e, entre outros, do livro ”30
Anos do 25 de Abril” compilação de M. Barão da Cunha a páginas 68 a 71 e ainda
dos documentos “LUSA-25 de Abril/Memórias” na página 24.

Depois de se terem vivido estes acontecimentos(também vividos em Angola
e Moçambique) da forma que sabemos, talvez não tão semelhante como na Guiné,
mas certamente de forma parecida, é legitimo o nosso reparo, não só quanto ao
texto editorial da epígrafe “Alcáçovas /Reunião de militares fundou há 40 anos
o movimento de capitães” como a outros textos que, sem querer, podem tornear
a história dos acontecimentos.

Não estou a pugnar para termos “a medalha” de obreiros do início da conspiração.
Tenho dito e escrito, talvez se pense que a conspiração começou na
Guiné. Talvez por causa da carta, que foi a primeira manifestação de indisciplina
colectiva, isso tenha ficado um pouco na ideia. Mas eu acho que
começou em todos os que acordaram para o facto, que teve muito a ver com
a guerra e com o que nela aprendemos.

E na Guiné pelas suas características,pesou muito. Nos últimos anos, a partir
de 1966 a 73,após os primeiros seis anos de guerra colonial, os militares
do quadro permanente despertaram para uma consciencialização mais
aguda e mais clara das contradições e mentiras do sistema, ou seja, do regime
político que nos desgovernava. (MDClemente ,“30 anos de Abril”, pág. 65).

Tenho dito e escrito: 

A conspiração começou em todos que não se sentiam
bem “com o estado ao que isto chegou”(Salgueiro Maia). Fomos um só povo:
europeus e africanos. Os do Norte eos do Sul, do Litoral e do Interior, a
sentir em português o acto REVOLTA,a falar em português a palavra LIBERDADE.
A guerra que travámos tinha várias espécies de “teatro de operações”.
Este não era só em África, na guerra colonial, era em toda a parte. Onde se
lutava, onde se trabalhava, onde se sofria, onde se aprendia, onde se crescia…
onde se queria um 25 de Abril. (MDClemente, “25 de Abril - Sonho Luta Revolução
e Esperança”)

Mas desejo pugnar por um pouco mais de rigor por quem escreve história.

E nesse sentido quero que fique muito claro, que apesar deste meu reparo,
considero que a reunião de 9 de Setembro foi para todos nós um amarrar das
angústias. Tem o seu significado ímpar como todos os actos que correspondem
a um anseio colectivo. E esse significado, independentemente do antes e
do depois, ficará justa e eternamente gravado na história. Simbolicamente,
junto-me, aos que o consideram o início do “colectivo consciente” para a nossa
caminhada da Liberdade.

40 Anos de Abril O rigor histórico

(*) Para comprovar já o acento político das reuniões deBissau, devo
acrescentar que a eleição da comissão foi precedida de intervenções e numa
delas eu referi e citei excertos do livro de Sottomayor Cardia “Para uma Democracia Antimonopolista”
que Matos Gomes acabara de trazer de Lisboa .Fui o mais votado e ele o segundo

MAUEL DURAN CLEMENTE    Jan 2014

Resposta de Vasco  Lourenço
Confesso estar a ficar cansado da “guerra” do “onde começou…”. Guiné, Angola,
continente?
O facto é que, como afirma Duran Clemente,terá começado em todo o lado
ao mesmo tempo.
Mas, duas coisas são indiscutíveis:

- Após o congresso dos combatentes, a primeira atitude concreta, colectiva, de
reacção ao dec.-Lei 353/73, foi no IAEM em Pedrouços, onde os majores do curso de
actualização entregaram um memorando (não assinado) ao director do serviço de
Pessoal do exército.

- A primeira acção que pode ser considerada como de criação do movimento dos capitães
foi a reunião em Alcáçovas de 9 de setembro de 1973, dado que aí foi escolhida uma
comissão coordenadora Provisória (independentemente de, antes, já ter
havido reuniões no continente, na Guiné e Angola e de, na Guiné, ter sido feito um
documento assinado por cinquenta e um oficiais e enviado para “cima”). Aliás,
é ai que nasce a denominação Movimento dos Capitães Todos confluímos para a acção comum, que
nos levou ao 25 de Abril.
E isso é que conta!
Oxalá consigamos congregarmo-nos no objectivo de recuperar os valores que nos
nortearam há 40 anos…!
V. L.

RESPOSTA de Duran Clemente A VASCO LOURENÇO. 

Não, Vasco Lourenço estas duas coisa são discutíveis.
Primeiro parece-me que o meu texto é claríssimo e duma dignidade  percebida por toda a gente.Assim como toda a gente percebe que a tua justificação é frágil.
Primeiro um memorando apócrifo mesmo sendo de oficiais do IAEM não tem  o valor das nossas reuniões de Bissau e do documento assinado por 51 Oficiais (47 capitães e 4 tenentes).
Segundo se a reunião de Alcáçovas é importante por ter sido nomeada uma comissão provisória nas reuniões de Bissau foi eleita uma comissão coordenadora não provisória.Comandou o Processo até ao fim.    Manuel Duran Clemente.  (9.03.2014)


Nota editorial:
PEZARAT CORREIA   (director do Referencial,revista da A25A)
No último Editorial, referindo-me ao encontro do Monte Sobral de 9 de
Setembro de 1973, escrevi que «(…) a dinâmica do Monte Sobral rapidamente
se estendeu às colónias (…)» o que não é rigoroso, nomeadamente em relação à
Guiné, onde umas dezenas de oficiais já estavam em processo avançado de
contestação desde Agosto, já haviam constituído uma Comissão de Capitães e
até já apelavam à politização domovimento. O Manuel Duran Clemente
chamou-me a atenção para o lapso, aliás  despido de qualquer intencionalidade e,
porque é de justiça, aqui fica exarada a competente retificação com as minhas
desculpas aos leitores e em particular aos camaradas do Movimento dos Capitães
na Guiné.

Nota:
ESTAS PUBLICAÇÕES ,com excepção da minha resposta de agora a VL, foram publicadas na revista recente (nº 112 )

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Porque Abril é o Futuro.(agradecimento à Voz do Operário)

AGRADECIMENTO   22.Fev.2014                                     VOZ DO OPERÁRIO


Boa noite.

1.-Deixai que me dirija em primeiro lugar à Direcção e restantes membros dos órgãos sociais desta casa para lhes dar os parabéns pelos 131 anos de vida da Voz do Operário.
Cento e trinta e um anos de sucesso ao serviço da educação e da cultura, do movimento associativo e do desporto, pugnando pela dignificação e elevação dos trabalhadores e dos seus associados.
É com grande satisfação, estamos certos, que aqui juntos, – militantes da liberdade, da solidariedade e do progresso – comemoramos esta efeméride e o seu digno e elevado significado.
A propósito da homenagem e do momento em que fui avisado.
Fiquei inquieto (e ainda estou) mas como poderia furtar-me a tão delicada honra quando outros valores se erguem em seu redor. Muito obrigado.
Confesso que sobre o meu papel, no arranque para o 25 de Abril e no desenvolvimento da revolução, até hoje, tem-me norteado a coerência “irrequieta” e a recordação, sempre presente, das minhas origens e da formação adquirida para uma permanente luta por uma sociedade mais livre e igualitária, justa e solidária.
Mas por não estar sozinho nessa peleja, não posso deixar de vos dizer, que se aqui sou homenageado recebo a vossa decisão sem hipocrisia e falsa modéstia, porque aceito convosco e vos agradeço representar tantos mil - de Abril - que muitas lutas travaram e que em luta continuam.
Tantos mil do Abril que vencerá, porque Abril é o futuro.
Só assim me sentirei bem comigo e convosco. Convosco comungando memórias e tradições e reflectindo sobre os tão inquietantes momentos da Democracia Portuguesa e do Povo Português! Do desconserto da humanidade, enfim do mundo!

2.-Aos presentes militantes de Abril e antifascistas, à minha companheira e filhos, familiares, amigos e camaradas, militares de Abril e outros militares igualmente lutadores, antigos camaradas autarcas, antigos companheiros dos Pupilos do Exército/”Quere é Poder” e companheiros da Associação Conquistas da Revolução…o nosso abraço e o nosso bem-haja pelo prazer e significado em ter-vos aqui.

3.-Mas se me permitem a “personalidade de mérito reconhecido” indubitavelmente merecedora de homenagem, e este ano ainda mais que nunca, só pode chamar-se “25 de Abril e o acto de libertação do heroico povo português” -encarnada num dos seus, de muitos fautores - dos quais me apetece salientar, de entre os militares coerentes, já falecidos, Vasco Gonçalves (o nosso Primeiro-ministro da Revolução e o mais insigne capitão de Abril), Rosa Coutinho, Costa Martins, Salgueiro Maia, Ramiro Correia, Nápoles Guerra, Rosário Dias, Bouzas Serrano …. e ainda, dos vivos, Varela Gomes, V.Costa Santos, José Emílio da Silva, Vicente da Silva e outros militares de Abril da minha geração–praças, cabos, sargentos e oficiais (e também milicianos).Nós comandámos mas sem estes nada se faria. E dos antifascistas civis, lutadores, perseguidos, presos torturados, persistentes combatentes como esquecer e não nomear Álvaro Cunhal, e o seu partido, na luta de décadas rumo à victória da liberdade e da dignidade do Povo Português e bem assim outros compatriotas, de vários quadrantes políticos , levantados do chão, lutando e resistindo? Por isso e acedendo ao pedido não posso deixar de evocar “o 25 de Abril”, a revolução, os seus quarenta anos e a actual situação. Não vou maçar-vos com longa dissertação. Todos aqui temos memória e consciência.
Houve 25 de Abril porque havendo ditadura, colonização, opressão, isolamento, obscurantismo, demagogia, um pesado policiamento das consciências, queríamos ser Livres, ter Paz, contribuir, com plena cidadania, para a construção do nosso futuro.
Os capitães, os militares, anos após anos, foram descobrindo que o inimigo não estava na mata tropical mas no Terreiro do Paço. Altas patentes militares e Governantes mentiam sem pudor. Paradoxalmente foi com a experiência da guerra, que souberam preparar com profissionalismo e competência a tomada do poder.
Há 40 anos Portugal redimiu-se numa noite e fez surpreendentemente, dum conjunto de jovens militares, emergirem capitães, timoneiros do povo armado e sob a égide dum povo unido erguer a mais bela das alvoradas, ponto de partida para a Revolução, para um processo revolucionário que, na base da aliança Povo/MFA, viria a produzir as profundas transformações económicas, sociais, políticas e culturais que dariam origem à Democracia de Abril, consagrada na Constituição da República Portuguesa de 2 de Abril de 1976.
A Revolução de Abril, ao pôr fim à ditadura fascista, abriu o caminho à participação dos cidadãos na vida pública, ao desenvolvimento económico, social e cultural dizendo não ao oportunismo, à corrupção, aos interesses ilegítimos dos grupos financeiros e sim à justiça social, ao direito ao trabalho, ao emprego, à saúde, à educação, à habitação, à paz, a mais futuro.

4.-O processo revolucionário foi um dos períodos mais belos e criativos da nossa história. As conquistas de Abril, entre o democratizar, descolonizar e desenvolver, preconizadas pelo Programa do MFA e aprofundadas pela aliança Povo-MFA, foram formalizadas por mais de duzentos diplomas legais, entre 1974 e 1976.
No entanto e na sequência do gravoso ataque a essas mesmas conquistas da “Revolução dos Cravos”, um ataque com décadas de existência, após o 25 de Novembro do nosso descontentamento, e agravado nos últimos três anos com a invasão da “troika”, Portugal e os portugueses vivem hoje a pior situação política, económica, social e cultural após o 25 de Abril.
Os desencantos de hoje e respectivas frustrações nada têm a ver com o 25 de Abril. Os desencantos de hoje e respectivas frustrações são fruto duma coligação de interesses e conjugação de factores internos e externos a jusante da essência e natureza dum sistema predador responsável pela miséria, pela fome e pela doença de milhões de seres humanos. Chama-se: “capitalismo”, neoliberalismo, ultraliberalismo ou simplesmente “mercado”. O mesmo sistema que, com a mentira, a ganância e o virús mortal da austeridade, está hoje a destruir as Liberdades e as Democracias e perigosamente a lançar as bases do recrudescimento duma extrema – direita fascista por diversos locais da Europa e do planeta.
Quem deixou, quem permitiu (como e quando?) que seja o “mercado” e seus tiranetes a mandar em nós? Há anos que vimos afirmando que o sistema gera desumanas situações socioeconómicas, com uma aparente e ilusória contrapartida de progresso económico, onde os ricos têm ficado cada vez mais ricos e os pobres, cada vez, mais pobres.
A economia social foi estrangulada e a vertente financeira (especulação) sobrepõe-se à vertente produtiva (economia real).Esta é a essência da crise: A banca e a alta finança a comandar a política como antigamente, na ditadura derrubada. Só que agora com novos trunfos.
Foi assim, com este mando do “mercado”, a subserviência e trapaça destes governantes, nacionais e europeus, que se chegou a esta situação de crise nacional, europeia e internacional pretendendo, os mandantes, curar as doenças com “remédios falsos” e insistindo na receita: *completa e cega submissão aos números, *desprezo pela pessoa e famílias, *austeridade geradora de recessão da economia, * as mais altas taxas de desemprego e pobreza, *jovens empurrados para a emigração, *generalização da precariedade, *quebra dos salários e redução das pensões dos reformados, *despudorada e injusta carga fiscal, *feroz ataque ao direito ao trabalho, *grave contenção dos legítimos direitos na saúde, na segurança social, na educação e na justiça. Enfim, firme ensejo de destruir por completo o Estado-Social construído à custa de intensas lutas de tantos anos.
Os diplomas dos governos revolucionários de Vasco Gonçalves defendiam e consolidavam os direitos básicos dos cidadãos. Hoje, ao invés, as leis do mercado e as leis dos mandantes, subvertem e matam os direitos básicos dos trabalhadores e do povo.
Mas está na natureza destes governantes e na sandice da sua demagogia oficial, sem vergonha, declarar: “a vida das pessoas não está melhor mas o país está melhor”. Até onde pode ir o desprezo pelas pessoas e o desconhecimento do país real? Até onde vamos deixar ir esta afronta, esta violência?
Impõe-se derrubar este governo e suas políticas e recuperar a esperança que a madrugada libertadora nos trouxe, retomando os seus valores.

Queremos uma política que defenda o regime democrático, que edifique um Estado onde o trabalho, a solidariedade, a justiça e a cultura sejam pilares fundamentais, que coloque o desenvolvimento da economia ao serviço das pessoas, das novas gerações e do futuro do País.
Assim como a descolonização, foi obra da luta de libertação dos povos, teremos de invocar novamente esse terceiro “D” para nos descolonizarmos  da  troika e do neoliberalismo com a bravura e luta dum povo soberano de há quase 900 anos.

No 40º aniversário desta data especial estamos certos que lá estaremos – muitos, mas muitos mil - participando numa grande e calorosa festa de confraternização comemorativa e que será também forte protesto e a exigência da mudança necessária. O Povo Português não pode resignar-se e não se deixará vencer.
Estamos certos, o nosso 25 de Abril vencerá.

Porque Abril é o Futuro.

25 de Abril, sempre!    Obrigado                              
                             

M.Duran Clemente

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

LIBERDADE para PINTO e FIGUEIREDO (1975)



LIBERDADE para PINTO E FIGUEIREDO,eram títulos de jornais  (decorria 1975).

O que deu origem a uma manifestação no Parque Eduardo VII..Dessa manifestação resultou a decisão dos manifestantes (umas largas centenas) irem  à Trafaria protestar junto dos portões da cadeia.Logo pressenti que isso ía acontecer.Sabia que nessa mesma prisão ainda estavam enclausurados algumas figuras do "ancien regime" ligadas ao golpe do 11 de Março.Desconfiei que tal acção podia causar problemas para a segurança da prisão;daí ter partido no meu carrol e ter chegado à Trafaria muito antes dos manifestantes e, depois de pedir para falar com o comandante, ter conseguido convencer Otelo Saraiva de Carvalho...[o resto vem a seguir ....]

      Para a história .
  • Luis Figueiredo- Não podendo estar presente, não quero deixar de me associar a esta justíssima homenagem ao Capitão de Abril, Duran Clemente e meu "oficial de recepção" à saída da Trafaria! Fraternais saudações!
  • Manuel Duran Clemente Foi  mais do que isso...fui lá dentro,da prisão da Trafaria , para onde se encaminhavam dezenas de carros com manifestantes do Parque Eduardo VII,e falei com o Comandante da prisão e com Otelo Saraiva de Carvalho,pelo telefone, e este cedendo ao meu argumentário deu ordens para que os dois (furriel e cabo...???) fossem.Luís Figueiredo era um deles.Fiquei com a fama de ser o comandante dos SUV .Mas não era.Podes contar a história... Luís Figueiredo  para sabermos dos antecedentes!!!    [VER DIARIO DE LISBOA DESSA DATA (1975)....em que graças à noticia do Ribeiro Cardoso que me inquiriu "ah ..então é o comandante dos SUV???!!!"...respondi a verdade "NÃO TENHO A HONRA DE SER"...mas da fama nunca me livrei]

  • Luis Figueiredo Meu estimado Capitão de Abril: reponho a verdade das hierarquias- eu era o furriel, o Pinto era o cabo! A estória começa Na EPI de Mafra, para onde fui destacado, em Outubro de 1974, após o meu curso em Tavira. Refiro que antes do 25 de Abril, após a minha saída de Peniche, fui recambiado para Penamacor, onde a Revolução me foi encontrar, raso, mas vivo. Após as necessárias amnistias, ingressei na classe de furriéis, como disse atrás. Então, em Mafra, após o glorioso 11 de Março, as coisas começaram, como sabe, a azedar. Não é necessário explicar por quê: todos sabemos da história! A mim e a outros coube fazer a defesa dos ideais da Revolução de Abril e perante o que se preparava, no meio de tanta confusão, lançar à classe dos soldados e sargentos apelos veementes no sentido de desmontar o golpe que se avizinhava por parte da direita militar e dos seus ideólogos sociais-democratas! Os SUV de que fala estavam bem activos e participavam estóicamente no agudizar das situações. Mas, nós éramos de outra raça! E assim, fizémos distribuir um panfleto apelando à unidade na defesa do MFA e do prosseguimento da Revolução, combatendo o golpismo visível nas Assembleias do MFA naquela Unidade. Mas, o clima era já outro e coube-nos "pagar as favas", havia que encontrar "o inimigo" e esse, pela coerência, éramos nós! E assim, um triunvirato composto pelos srs. General Trindade, Cap. Hilário e Cap. Vaz Antunes, fizeram-nos a folha, porque apanharam um resto de panfletos no gabinete onde "geríamos" o apoio social aos soldados da unidade (conhecido pelo gabinete dos comunas, entre os "democratas" da EPI). Resultado: Furriel Figueiredo, 10 dias, cabo Pinto, 15 dias, fora as ameaças...E assim, pela minha parte, coube-me o "privilégio" de estar preso antes e depois de Abril por motivos políticos. O resto, contou e bem, o meu estimado Capitão de Abril e confirmo o que disse que, aliás tive oportunidade o ano passado de relembrar e afinar a memória, que nele é "mastodôntica" e ainda bem para que o esquecimento, não se transforme na arma da reacção! Um grande abraço e votos que continue a dar-nos o prazer das suas opiniões!